Está barato? Fundos locais vão às compras na B3, enquanto estrangeiros saem da Bolsa

Fundos locais aportam R$ 7,2 bilhões na Bolsa e gestoras como Atmos, Leblon Equities, Occam e Forpus Capital estão captando recursos para investir em ativos locais

Foto: Shutterstock

Enquanto o saldo de investimentos estrangeiro na Bolsa está negativo em R$ 12,2 bilhões em maio, até o dia 23, marcando o segundo mês consecutivo de saída, os fundos locais estão aproveitando os preços descontados dos ativos para ir às compras na B3.

Algumas gestoras, como a Atmos, Leblon Equities, Occam e Forpus Capital, estão captando recursos para investir em ativos locais, enquanto outras como a Squadra Investimentos e a Encore têm aumentado a posição em Bolsa local.

Os investidores domésticos parecem mais otimistas que os estrangeiros. Os fundos locais fizeram um aporte líquido na B3 de R$ 7,2 bilhões em maio, até o dia 23, enquanto o saldo de investidores pessoa física estava positivo em R$ 2,7 bilhões. No ano, no entanto, o aporte líquido dos estrangeiros ainda supera as alocações dos locais em R$ 35,6 bilhões.

Fonte: B3. *Considera apenas as operações no mercado secundário, sem encontrar aportes em IPOs e follow-ons. ** Até 23 de maio
Saldo de investimentos na Bolsa* – em R$ bilhões
Ano Estrangeiros Pessoas físicas  Institucionais
2021 -7,2 bilhões 39,6 bilhões – 52,6 bilhões
2022** 45,4 -3,89 bilhões -56,31 bilhões

Algumas gestoras locais têm lançado novos fundos para aproveitar os preços descontados na Bolsa brasileira. A gestora Atmos Capital abriu em maio um novo fundo, o TMR III FIC FIA, para captar novos recursos, cujo período de envio de intenções de investimento já se encerrou, segundo informações do site da gestora. A intenção era captar até R$ 2 bilhões entre o novo fundo e veículos exclusivos de investimento.

A Leblon Equities também lançou um fundo, o Leblon Pipes, para aumentar a exposição em algumas empresas que estavam na carteira de ações de outra aplicação da gestora, o Leblon Ações FIC FIA, mas que terá horizonte mais de longo prazo.

A carteira será concentrada inicialmente em seis empresas e os cotistas só poderão resgatar depois de 12 meses e a cada semestre, afirma Pedro Rudge, sócio-fundador e COO da Leblon Equities. “Estamos com a captação aberta e já captamos R$ 40 milhões”, diz.

A ideia é ter posição relevante no capital das empresas investidas. A gestora têm posição relevante em empresas como a Mills (MILS3), que atua na locação de plataformas, e Pão de Açúcar (PCAR3).

A Forpus Capital também está com captação aberta no fundo Forpus Tech FIC FIA, que será incorporado mais tarde pelo fundo Forpus Ações FIC FIA, afirma Arthur Rizzo, responsável pela área de relações com investidores da gestora. “As carteiras dos dois fundos já estão muito parecidas”, diz Rafael Cintra, analista de ações da gestora.

A gestora decidiu simplificar a oferta de produtos e focar no Forpus Ações FIC FIA. “O mercado ainda está desafiador, as pessoas físicas ficaram traumatizadas das perdas no ano passado, mas é um bom momento para a Bolsa brasileira, que está tendo performance melhor que as bolsas de mercados desenvolvidos”, diz Rizzo.

Os fundos de ações acumulam resgate de R$ 42 bilhões no ano, até 24 de maio, com os investidores tendo migrado parte das alocações em renda variável para renda fixa com a alta de juros.

O fundo da Forpus está com uma posição comprada em Bolsa brasileira de 130% do patrimônio, via operações que permitem alavancar as posições, e 30% vendida (apostando na queda) em índices de bolsas americanas. “Achamos que as ações americanas ainda têm mais para cair porque o problema inflacionário está longe de ser resolvido e o banco central americano terá que subir mais a taxa de juros”, diz Cintra.

A gestora Occam também está com captação aberta no fundo Occam Retorno Absoluto FIC de FIM. “Em meio a euforia no ano passado, resolvemos fechar o fundo, mas as condições de mercado estão gerando oportunidades e resolvemos abrir”, diz Carlos Eduardo Rocha, executivo-chefe de investimentos da gestora.

Para Rocha, o banco central americano deve elevar a taxa de juros acima do patamar refletido atualmente no mercado, ao redor de 3%, e isso aumenta o risco de recessão e leva à saída do fluxo de recursos de outros mercados para os Estados Unidos. “Enquanto não tiver uma melhora do mercado americano, não haverá aumento de fluxo para o Brasil. Mas isso não é um problema para gerar valor na Bolsa, as empresas que gerarem caixa vão se valorizar”, diz.

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Entrada do investidor estratégico

Um dos sinais de que alguns preços na Bolsa estão muito baratos é a compra recente de companhias listadas por fundos de private equity, que costumam entrar apenas em empresas de capital fechado.

Na semana passada, o fundo de private equity General Atlantic comprou mais ações da Locaweb (LWSA3) em uma operação de block trade ( quando um número significativamente grande de ativos é negociado ao mesmo tempo), aumentando a participação na empresa para 11%.

“Estamos vendo o surgimento de um comprador novo, que são os investidores estratégicos”, diz João Braga, sócio da Encore Asset Management.

A Encore tem aumentado a posição comprada em Bolsa doméstica e está com posição vendida (apostando na queda) em bolsa americana.

Inflação alta ainda deve ditar performance na Bolsa

Em um cenário de inflação e juros altos, a Occam tem aumentado o risco em Bolsa, mas não de forma direcional, isto é, tem aproveitado para comprar ações de empresas que devem ter melhor performance nesse ambiente e vender (apostar na queda) papéis de setores que devem sofrer mais.

“O Banco Central já sinalizou que fará uma alta da Selic de menor magnitude, de 0,50 ponto, mas não há condições de ele parar. Achamos que ele vai subir a Selic para pelo menos para 13,75%”, diz Rocha.

Entre os setores que a Occam acredita que devem se beneficiar mais está o de commodities, uma vez que o desequilíbrio entre oferta e demanda, intensificado pela guerra na Ucrânia, ainda tende a manter os preços elevados. “Temos comprado ações de companhias de petróleo nos EUA e Brasil, e também de fornecedores e refinarias”, diz Rocha.

Outro setor que o gestor da Occam acredita que deve ter boa performance é o de bancos, que se beneficia dos juros mais altos. “Achamos que esse setor deve ter performance melhor que a Bolsa”, diz Rocha.

A Occam também está comprada em ações do setor de energia, que oferecem proteção contra o aumento de preços, já que têm os contratos reajustados pelos índices de inflação.

Já entre os papéis que devem sofrer mais e que a gestora tem montado posições vendidas estão o de consumo, aéreo, construção e bens de capital. “Também não gostamos de ações de tecnologia que estão com múltiplos altos e de educação que geram pouco caixa”, diz Rocha.

A Leblon também tem ações de commodities na carteira, como Suzano (SUZB3), Klabin (KLBN4) e PetroReconcavo (RECV3). “Há um ano e meio não temos Petrobras (PETR3) na carteira em função do risco de ingerência política”, diz Rudge.

A gestora também tem investido em ações de setores regulados, como energia, com posições em Light (LIGT3) e Omega Geração (MEGA3). Mas, como os reajustes de preços precisam ser autorizados pelas agências reguladoras, o risco de interferência no reajuste de preços, como aconteceu no passado, precisa ser monitorado, alerta Rudge.

A Forpus também tem focado em ações de commodities e utilities (serviços públicos) que devem se beneficiar do fim do ciclo de alta de juros.

Já a Encore tem buscando desde o início do ano ter uma carteira balanceada, divida em: um terço para papéis ligados a commodities, com posição em 3R Petroleum (RRRP3), PetroRio (PRIO3) e Petrobras; um terço em ações defensivas, como do setor elétrico e de empresas menos afetadas pela alta da inflação, como Assaí (ASAI3), Petz (PETZ3) e Vivara (VIVA3); e um terço nas chamadas “atacantes” (com alto potencial de crescimento), como Mercado Livre (MELI34) e Totvs (TOTS3).

“Sofremos neste ano com a posição nas atacantes, mas achamos que os níveis de valuations dessas empresas estão muito baixos e são candidatas a serem vencedoras no longo prazo”, diz Braga.

Preço descontado da Petrobras já embute risco político

Para os gestores, o preço descontado da Petrobras já embute em grande parte o risco de ingerência política. Em 23 de maio, o governo anunciou a troca de comando da estatal e indicou o terceiro presidente da empresa só neste ano.

“O  valuation da Petrobras está extremamente descontado, com a empresa negociando a três vezes o preço/lucro”, diz Braga.

Cintra acredita que o risco político já está, em grande parte, refletido no preço do papel, que negocia inclusive abaixo de estatais argentinas.

Para Rocha, a Petrobras pode nem precisar reajustar os preços para cima, mas o que não pode acontecer é uma redução com o preço do petróleo alto ou fazer subsídio para distribuidoras.

O gestor da Occam lembra que a Petrobras está pagando um rendimento com dividendos de 30% ao ano, um dos maiores da Bolsa.

Além disso, o projeto de privatização da estatal, por meio da pulverização do controle, poderia acabar com a responsabilidade do governo em relação aos preços dos combustíveis, diz Rocha.

Para Rocha, apesar das ingerências recentes na empresa, o pior cenário seria a volta dos investimentos em refinarias, movimento verificado durante os governos do PT (Partido dos Trabalhadores). “Há candidatos que defendem voltar investir em refinarias, se isso acontecer, terá capacidade para destruir valor da empresa”, diz.

Oferta da Eletrobras deve atrair gestores locais

Além da Petrobras, os gestores locais estão de olho no investimento em outra estatal, a Eletrobras (ELET6).

A Occam já tem uma posição na estatal e pretende participar da oferta de ações para pulverizar o capital da empresa e o governo deixar de ser o controlador. “Vemos muito valor na empresa”, diz Rocha.

A Encore e a Forpus também já têm posição no papel e estão avaliando participar da oferta.

A Leblon tem interesse na operação, mas o investimento vai depender do preço da emissão.

Para o sócio da Leblon, passada a eleição, as incertezas devem diminuir. “A nossa percepção é que mesmo um governo mais à esquerda não seria tão caótico”, diz. “Passado outubro, deveria ter certa melhora na percepção de risco”, diz Rudge.

Para o gestor da Occam, o cenário eleitoral não está bem precificado e as estatais estão baratas.

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