Inflação atinge maior nível desde 2003; saiba quais ações oferecem proteção

Ações do setor de energia, saneamento e consumo básico são vistas como proteção contra alta da inflação. Veja papeis recomendados pelos analistas

Foto: Shutterstock

O patamar elevado da inflação, que acelerou a 12,13%  nos 12 meses até abril e atingiu o maior nível desde outubro de 2003, tem afetado os preços das ações na Bolsa, pressionando os custos das empresas e o poder de compra das famílias, além de obrigar o Banco Central a prolongar o ciclo de alta da taxa básica de juros, hoje em 12,75% ao ano.

Há ações, no entanto, que oferecem maior proteção em cenário de inflação em patamar elevado. Empresas que possuem receitas reajustadas por índices de preços ou a capacidade de repassar custos têm se mostrando mais resilientes nesse contexto, segundo os analistas.

A expectativa do mercado é de que a inflação desacelere até o final do ano, para 7,89%, segundo a edição mais recente do Boletim Focus. Ainda assim, “tem um espaço grande para repasse da inflação represada”, diz Ariane Benedito, economista da CM Capital.

A CM Capital projeta uma alta de 8,5% neste ano para o IPCA, o índice oficial de inflação, já considerando o aumento de 8,87% do diesel. Para 2023, a previsão é um aumento de 4,20%.

Veja abaixo as ações dos setores mais protegidos contra a inflação.

Setor de consumo básico mais resiliente

Com a inflação elevada afetando o poder de compra da população, principalmente a de baixa renda, as empresas voltadas para o consumo básico são vistas como mais indicadas para este cenário. Papéis de varejo alimentar, no caso de supermercados e de atacarejo como Carrefour (CRFB3) e Assaí (ASAI3), e de medicamentos, como Raia Drogasil (RADL3), estão nesta lista.

“Empresas relacionadas a serviços essenciais têm maior capacidade de repassar o aumento de preços para os consumidores”, diz João Mamede, analista sênior de renda variável da AZ Quest.

Foco em alta renda reduz impacto da inflação

Empresas de varejo voltadas ao segmento de alta renda também são mais resistentes aos efeitos nocivos da inflação, já que têm uma margem maior para aumentar os preços.

Nesse sentido, os papéis do Pão de Açúcar (PCAR3) tem se destacado no varejo alimentar. “O Pão de Açúcar é mais focado em um público de alta renda, que sente menos o efeito da inflação”, diz Gabriela Joubert, analista-chefe do Inter.

Na parte de consumo não discricionário, Mamede destaca as ações da Arezzo (ARZZ3) e da Track & Field (TFCO4). “A inflação afeta menos o poder de compra do público de alta renda”, diz.

Commodities oferecem hedge contra inflação

Outra forma de se proteger da alta da inflação é investir em empresas exportadoras de commodities, que têm capacidade de repassar o aumento dos preços das matérias-primas para os produtos.

“Empresas exportadoras de proteínas como Marfrig (MRFG3) e Minerva (BEEF3) conseguem manter as margens, já a BRF (BRFS3), mais voltada para o mercado interno, não”, afirma Bruce Barbosa, sócio-fundador da Nord Research. O mercado doméstico respondeu por cerca de 48% das vendas da BRF no primeiro trimestre.

O aumento de preços das commodities como petróleo e minério de ferro também têm beneficiado as ações da Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3) . “Essas empresas estão baratas e vão pagar mais dividendos que companhias de concessões de serviços públicos, conhecidas como boas pagadoras de dividendos”, diz Barbosa da Nord.

Só a Petrobras  está pagando um rendimento com dividendos de 30%, um dos maiores da Bolsa. A estatal anunciou, em maio, a distribuição de cerca de  R$ 48,5 bilhões em dividendos, o equivalente a R$ 3,7155 por ação preferencial e ordinária em circulação

Papéis do setor de saneamento e energia são vistos como defensivos

Por terem as tarifas reajustadas pelos índices de preços, as empresas do setor de saneamento e de energia elétrica são vistas como investimentos que ajudam a proteger o investidor da inflação elevada.

Depois de sofrerem com a crise hídrica em 2021, o aumento dos níveis dos reservatórios neste ano contribuiu para a melhora do desempenho dessas empresas.

“Vemos um cenário melhor para as geradoras e transmissoras. Já o problema com as distribuidoras é que elas tiveram um aumento de custo com a alta da inflação no ano passado que ainda não foi todo repassado”, diz Benedito.

A analista da CM Capital vê as ações do setor de energia, saneamento e de bancos, que são beneficiados pela alta dos juros, como mais resilientes em cenário de alta da inflação.

Já a Empiricus vê as ações do setor de transmissão como mais interessantes, seguidas pelas do segmento de geração e distribuição. Entre os papéis preferidos desse segmento está a transmissora de energia Alupar (ALUP11). “A empresa tem um management bom e está em um setor que a gente gosta para se proteger da alta da inflação”, diz Matheus Spiess, analista da Empiricus.

A AZ Quest tem preferido os papéis das distribuidoras de energia como a Equatorial (EQTL3). “A empresa está negociando a um valuation interessante e têm investido em novas avenidas de crescimento como em energias renováveis e saneamento”, diz Mamede.

No ano passado, a Equatorial venceu a disputa pela concessão de saneamento básico no Amapá, estreando nesse setor.

O analista de utililities BB Investimentos, Rafael Dias, afirma que as ações do setor de transmissão têm menor volatilidade de caixa e com margens maiores. O banco está com recomendação de compra para os papéis da Alupar (ALUP11) e vê grande potencial de alta para as ações da ISA CTEEP (TRPL4).

No caso das empresas de geração, explica Dias, o risco hidrológico é maior, pois em momentos de crise hídrica essas empresas são obrigadas a comprar energia mais cara no mercado livre para cumprir os contratos. Nesse segmento, o banco tem recomendação de overweight [acima da média do mercado] para os papéis da AES Brasil (AESB3).

No caso das distribuidoras, o risco regulatório é maior, já que os preços são administrados e o reajuste de preços aos consumidores precisa ser autorizado pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).

No setor de saneamento, as metas de universalização dos serviços de água e esgoto incluídas no marco regulatório do setor, de 2020, devem demandar investimentos vultosos, o que pode aumentar os custos para as empresas. “Mesmo com um aumento dos investimentos, os papéis dessas empresas ainda estão interessantes dados os valuations descontados”, diz Joubert do Inter.

No caso da Copasa (CSMG3), o analista do BB acredita que a empresa ainda investiu aquém do que deveria para cumprir as metas do marco regulatório.

A expectativa de privatização da Sabesp (SBSP3) pode trazer potencial de alta para o papel, mas indefinições sobre a modelagem da operação ainda trazem incertezas para o mercado. “Nosso preço-alvo para a ação não considera a privatização. A expectativa é de que o próximo governo [do Estado de São Paulo] deve colocar a privatização na rua”, diz Dias. O BB está com recomendação neutra para o papel.

No caso do setor de concessão de rodovias, apesar de as empresas terem as tarifas atreladas a índices de inflação, é um segmento que depende do crescimento do PIB. “Apesar das últimas leituras do PIB terem surpreendido para cima, não é esperado um crescimento robusto sustentável”, diz Mamede, que acredita que o setor tem menor apelo como proteção contra a inflação.

Risco regulatório

As empresas de energia e saneamento têm os reajustes de tarifas regulados pelo governo, o que traz um risco para as ações.

A Sanepar (SAPR4), por exemplo, teve uma forte queda em dezembro de 2020 após a Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados do Paraná (Agepar) ter anunciado um reajuste tarifário de 5,11% a partir de 5 de fevereiro de 2021, equivalente à metade do valor devido (9,62%).

A agência optou ainda por aplicar apenas a correção pelo IPCA na parcela do reajuste ao invés do IGP-M, como era feito no cálculo inicial, como reflexo da forte alta desse índice no ano anterior. Durante o auge da pandemia em 2020, o reajuste tarifário chegou a ser suspenso.

Apesar, dessas intervenções, a Sanepar reportou um crescimento de 18,4% do lucro líquido no primeiro trimestre frente ao mesmo período do ano passado, que somou R$ 291,9 milhões. O BB está com recomendação de compra da unit da Sanepar e acha que ela pode chegar a R$ 32,50, o que equivale a um potencial de alta de 65% frente ao fechamento de 10 de maio.

No setor elétrico, também tem aumentado a pressão para limitar os reajustes de preços. Em um movimento para pressionar a Aneel e as distribuidoras, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), decidiu acelerar a tramitação de um projeto que busca barrar o reajuste nas contas de energia em todo o país.

A proposta trata o reajuste de 25% autorizado pela Aneel para a Enel Ceará, mas cuja revisão pode ser ampliada para outros estados.

Para o analista do BB, a aprovação de um projeto nesses moldes poderia implicar em judicialização por parte das empresas em função de quebra de contratos.

A Aneel está discutindo com o Senado a composição das tarifas de energia para tentar  encontrar uma solução para suavizar o impacto para a população. Uma das alternativas, segundo Dias, seria usar os crédito de PIS/Cofins para reduzir o reajuste tarifário. “Essa seria uma medida menos prejudicial porque não interfere no fluxo de caixa das empresas”, diz.

“Há ameaças das empresas não conseguirem repassar os reajustes autorizados pela Aneel ou da Petrobras não poder aumentar os preços dos combustíveis, mas acho mais difícil isso acontecer”, diz Barbosa, da Nord.

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