IPCA: Disseminação da inflação é a maior em 20 anos; 78% dos itens subiram em abril

Índice de difusão elevado no mês é um mau sinal para a política monetária

Foto: Shutterstock

A inflação está cada vez mais espalhada pela economia brasileira, e esse é um dos principais pontos de preocupação de economistas com a disparada de preços no país. A disseminação dificulta o trabalho do Banco Central, que para conter os preços já avisou que deve subir novamente a taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 12,75% ao ano.

No mês passado, o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) avançou 1,06%, desacelerando em relação aos 1,62% registrados em março, apesar da perda de fôlego, foi a maior alta do índice para o mês desde 1996.

O indicador mostrou ainda que 78% dos 370 itens pesquisados ficaram mais caros em abril, o maior percentual registrado desde novembro de 2002. Em março, o número havia sido de 76%.

“Em quase 20 anos, nunca vimos um índice de difusão tão alto. Isso atrapalha o trabalho do Banco Central? Atrapalha”, afirma economista Claudia Moreno, do C6 Bank.

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Índice de difusão é como essa forma de olhar para a inflação é conhecida entre os economistas. Quando ele está muito elevado, aponta para uma inflação disseminada por toda a economia. Ou seja, nesses casos, não dá pra atribuir a alta do IPCA a apenas alguns “vilões”.

“O nível em que o índice de difusão está rodando é um sinal preocupante. Não está concentrado em um único item, não existe um vilão da inflação. A maior parte dos produtos está subindo bastante”, aponta o economista Luis Menon, da Garde Asset Management.

Outra medida que analistas costumam analisar é o chamado núcleo de inflação, que mede a variação de preços somente dos itens menos voláteis do índice. Por essa ótica, o IPCA de abril tampouco agradou.

“A média dos diferentes núcleos de inflação medidos pelo Banco Central foi de 0,95% em abril. Em março, foi de 0,98%, ou seja, praticamente o mesmo. Se você olhar isso dessazonalizado (ou seja, quando se retira dos dados os efeitos típicos de cada mês), vai ver que até houve uma aceleração, de 1% para 1,08%”, diz Menon.

Choques e mais choques

Moreno, do C6 Bank, explica que essa forte disseminação da inflação é consequência de choques de oferta em diversas frentes. Bens industriais, commodities e energia estão mais caros, por razões que vão desde a pandemia de coronavírus até a guerra entre Rússia e Ucrânia.

“Tem o choque da pandemia, que desorganizou as cadeias de fornecimento globais e atrapalhou os bens industriais, a guerra na Ucrânia e a política de Covid zero na China”, destaca a economista. “O choque sobre commodities afeta os preços da alimentação, dos grãos, e o das commodities metálicas e combustíveis também.”

A equipe do C6 Bank espera um IPCA de 7,2% no final de 2022, mas deve revisar essa projeção para cima nesta semana. Para a inflação de 2023, a expectativa é de um aumento de 4,26%, acima da meta oficial do BC para o ano, de 3,25%, com intervalo de tolerância entre 2% e 5%.

Para a Garde, a inflação deve subir 8,6% neste ano e 4,2% no próximo, expectativas que já embutem um novo reajuste nos preços da gasolina pela Petrobras. “Aparentemente, uma nova alta é iminente”, afirma Menon. “Se não acontecer, é sinal de interferência do governo.”

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Nesta quarta-feira, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, foi exonerado do cargo, e substituído pelo chefe da assessoria especial de Assuntos Estratégicos do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, em medida encarada como uma nova pressão sobre a estatal.

Impacto maior para mais pobres

O economista André Braz, coordenador dos índices de preços da FGV (Fundação Getúlio Vargas), lembra que os mais afetados pelos aumentos são as famílias de menor renda.

“Como a alta da alimentação está na frente, puxando os demais grupos, aumenta a sensação de inflação para as camadas de renda mais baixas da população, que sofrem também com o desemprego elevado”, afirma.

Na avaliação do especialista, o IPCA deve subir 8,3% neste ano. “Mas isso está sempre em revisão. No início do ano, a expectativa era que a inflação subisse 5%, e olha o quanto ela já avançou. Isso mostra a persistência do nosso processo inflacionário.”

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