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Dólar a R$ 5 e inflação persistente refletem “arranjos” nas contas públicas, diz Meirelles

Dólar a R$ 5 e inflação persistente refletem “arranjos” nas contas públicas, diz Meirelles

Para ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do BC, Brasil vive cenário clássico de estagflação

O ex-presidente do BC, Henrique Meirelles

Foto: Shutterstock

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O dólar que resiste a cair abaixo do patamar de R$ 5 e a inflação que não dá trégua têm uma causa em comum: os “arranjos fiscais” feitos nos últimos anos pelo atual governo, com a alteração no teto de gastos no final de 2021 e a elevação de despesas permanentes, situação que se soma à pandemia de Covid-19 e à guerra entre Rússia e Ucrânia.

A avaliação é do ex-presidente do Banco Central e ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, que hoje é coordenador do programa econômico de outro pré-candidato ao Planalto, o ex-governador de São Paulo João Doria (PSDB).

Criador do teto de gastos, mecanismo que limita o crescimento das despesas públicas à inflação e implementado a partir de 2017, ele avaliou em entrevista à Agência TradeMap que as mudanças feitas na regra com o objetivo de abrir espaço no Orçamento são “populismo eleitoral”.

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“O presidente da República está em segundo lugar nas pesquisas, contra um candidato forte que já foi presidente da República. Isso tudo está levando o governo a fazer populismo eleitoral, e isso leva a consequências”. apontou. “A economia brasileira tem previsão de crescimento baixo, desemprego elevado e inflação elevada, em um cenário em que isso não deveria estar acontecendo”.

Para Meirelles, a disparada nas cotações das commodities deveria ajudar a segurar o dólar, servindo como um contraponto ao impacto desse aumento nos preços em moeda brasileira. O Brasil, diz, vive um cenário clássico de estagflação, que é o jargão usado por economistas para definir cenários em que a taxa de desemprego está elevada, mas mesmo assim a inflação se mantém alta por um longo período.

É, na sua avaliação, uma situação diferente da vivida nos EUA, onde a alta de preços, a maior dos últimos 40 anos, acontece em meio a um mercado de trabalho aquecido. “[No Brasil] já estamos estagnados, o desemprego está muito elevado. Lá nos EUA o desemprego está muito baixo, as pessoas recusam emprego”, afirmou ele, que foi presidente mundial do BankBoston.

Candidato à presidência da República nas últimas eleições, quando obteve pouco mais de 1% dos votos válidos, ele afirma acreditar no crescimento nas pesquisas da terceira via nos próximos meses.

“Ainda estamos em maio, num momento em que o país está vivendo problemas sérios, que afetam a vida das pessoas, principalmente a inflação. As pessoas estão preocupadas com o preço da comida, não estão discutindo eleições”, disse.

Veja abaixo a entrevista completa, que aconteceu na última quarta-feira (4).

O presidente Jair Bolsonaro já fez uma série de declarações contestando a confiabilidade do sistema eleitoral, e há um histórico de conflito do governo com o STF [Supremo Tribunal Federal]. O senhor acredita que esse clima pesa para o mercado brasileiro, principalmente para o câmbio? 

A democracia já está consolidada no pensamento do mundo ocidental. Sobre esse tema, gosto de citar uma frase do Winston Churchill: “A democracia é o pior dos regimes, com exceção de todos os outros”. Tudo o que é humano tem imperfeições, mas a democracia é o melhor regime possível.

Está consagrado e testado inclusive no Brasil, onde temos um regime democrático desde 1988.

Em dito isso, isso estabelece um histórico. A minha impressão é que os investidores ainda partem, uma grande parte deles, do pressuposto que a democracia vai prevalecer.

Em diversos países têm ocorrido ameaças à democracia. Nos Estados Unidos, por exemplo, quando Donald Trump [ex-presidente dos EUA] se recusava a aceitar os resultados das urnas, ele colocou aquela multidão para invadir o Capitólio, para impedir que se concretizassem os resultados.

Acho que o eleitor olha e diz: tentativa, até nos EUA acontece, mas as instituições prevaleceram. Mas no Brasil será que não são tão fortes? Acredito que as instituições são fortes. Enfrentamos situações muito desafiadoras, mas as instituições estão funcionando.

Os eleitores terão a palavra final, é nisso que a maior parte dos investidores acredita. Mas já existe um cuidado, não tem dúvida que temos aí uma parcela de investidores que já mostram certa preocupação. Entram com mais cautela, com posições menores.

No governo atual, o teto de gastos, que o senhor criou quando era ministro da Fazenda, foi alterado. E o governo vem aproveitando a alta da arrecadação para aumentar gastos, inclusive permanentes. Gostaria de uma avaliação do senhor sobre a política fiscal. 

O fato de o presidente da República estar em segundo lugar nas pesquisas, contra um candidato forte que já foi presidente da República, está levando o governo a fazer populismo eleitoral, e isso leva a consequências.

Essas consequências têm efeito na economia. A economia brasileira tem previsão de crescimento baixo, desemprego elevado. A inflação continua elevada, em um cenário em que isso não deveria estar acontecendo.

Os preços das commodities sobem por causa da pandemia, há uma retomada da demanda e há alguma desorganização na cadeia de produção. Houve subida de preços, agora agudizada pela invasão da Ucrânia. Isso fez com que os preços internacionais de commodities subissem, como minério de ferro, carne, grão, etc, e o Brasil é um grande exportador de commodities.

Antes, quando isso acontecia, os preços subiam em dólar, e normalmente o real se apreciava, o dólar caía. Uma coisa compensava a outra, e os preços em reais não eram afetados. Quando eu estava no Banco Central isso aconteceu, houve uma subida nos preços das commodities e isso fez entrar mais dólares, como resultado dessas exportações. Mas o dólar caiu, começamos a comprar reservas fortemente, e a preocupação é que o dólar estava caindo tanto que poderia prejudicar as exportações.

Agora isso não acontece. O dólar continua na faixa dos R$ 5. Qual é a razão? É a questão fiscal, os arranjos fiscais, muda-se o período da inflação para o efeito do teto de gastos, para usar um período no qual a inflação foi maior. Regra, por definição, é feita para se dar segurança. Mas aí tira-se despesas do teto e isso gera incerteza, sensação de insegurança.

Aqui temos uma situação que tem efeito sim: essa retração, essa cautela em vários indicadores, inclusive no dólar. Temos esse fenômeno de inflação mais elevada, então temos que subir juros neste momento. É um período clássico de estagflação.

A inflação hoje assombra o mundo todo. Aí temos de um lado, a disparada de preços que corrói o poder de compra e reduz a atividade econômica, e do outro a alta de juros – necessária para conter a inflação, mas que também reduz a atividade. Os bancos centrais do mundo estão num impasse?

Subir taxas de juros em um momento em que a atividade está aquecida, como acontece em países como os EUA, onde o desemprego está baixo, gera esse tipo de preocupação.

Quando eu estava no Banco Central e enfrentava esse dilema, alguns companheiros do governo me diziam: não faz isso, não pode subir taxa de juros, se não entramos em recessão.

Por outro lado, a história mostra que a melhor maneira de garantir crescimento, de garantir emprego, é manter a inflação na meta. Se os preços estão subindo acima da meta, como é o caso da Selic [taxa básica de juros brasileira] e dos Estados Unidos, tem que subir a taxa de juros. Nos EUA ninguém discute muito se precisa subir, a preocupação é mais com o grau.

O Fed está subindo os juros e retirando recursos do mercado. A preocupação é: corre-se o risco disso levar a uma recessão? O Fed não corre o risco de exagerar? Esse é o papo.

Já a situação do Brasil é diferente. Já estamos estagnados, o desemprego está muito elevado. Lá nos EUA o desemprego está muito baixo, e as pessoas recusam emprego. Há muitas empresas procurando trabalhadores, trabalhadores mais ou menos especializados.

Aqui é o contrário, com o desemprego elevado. Aqui você já está em situação difícil, já tem atividade econômica baixa. O dilema aqui no Brasil é maior.

Normalmente as coisas funcionam bem quando o Banco Central age em sintonia com o Ministério da Fazenda, como em 2016, quando o Congresso aprovou o teto de gastos, houve contração fiscal e o Banco Central teve uma política monetária de controle. A inflação caiu rapidamente, tanto que pouco tempo depois a discussão era se o Banco Central podia cortar mais.

A questão agora é que com toda a flexibilização do teto, as incertezas fiscais, o Banco Central tem que subir um pouco mais os juros para tentar segurar essa inflação.

O que achou do cenário alternativo do Banco Central para o petróleo?

De um lado é compreensível, e realmente não há muito o que discutir. É compreensível olhando-se essa situação internacional, com a subida dos preços das commodities.

O fato, no entanto, é que isso não resolve muito, porque o problema não é só combustíveis. Os combustíveis tem efeitos indiretos nos preços, aumentam os insumos de mercadorias, as commodities.

Essas mexidas para se tentar resolver problemas temporários não são eficazes. Compreendo a tentação de fazer, e inclusive a pressão sobre o Banco Central para fazer isso. Você chega na velha história: tira preços que estão subindo dentro do índice, então não tem inflação, não tem que subir juros. Não funciona muito.

Em resumo, acho que não deve fazer, só piora a situação. Tira uma coisa muito importante que é a credibilidade da política monetária, o poder sobre as expectativas.

Estamos próximos às eleições presidenciais, que estão muito polarizadas até agora. O senhor acha que há espaço para o crescimento da terceira via, concentrada em um único nome?

Estamos ainda em maio, num momento em que o país está vivendo problemas sérios, que afetam a vida das pessoas, principalmente a inflação. As pessoas estão preocupadas com o preço da comida, não estão discutindo eleições.

As eleições não são um tema da conversa geral das pessoas, não é o que todo mundo está sentindo, discutindo. As pessoas estão preocupadas com sobreviver.

Neste momento é natural que apareça um pesquisador que quer saber: em quem você votaria? E a pessoa cita um dos dois nomes mais falados: no presidente atual ou no candidato da oposição.

É importante definir quem é a terceira via hoje, na medida em que o Sergio Moro [ex-ministro da Justiça] saiu antes, lá atrás e agora surgem outros nomes. Quando falamos de terceira via hoje, estamos falando de Doria e da Simone Tebet [senadora pelo MDB e pré-candidata à presidência da República].

O que precisa para definir esse candidato? Não pode ser apenas pesquisa quantitativa. Se for isso, está claro, o Doria tem um pouco mais, subiu um pouco nas pesquisas.

É possível que haja acordo até 18 de maio [data definida pelos partidos da terceira via para apresentação de uma candidatura única], mas o mais provável é que [a indefinição] continue, e pode até haver uma desistência do processo eleitoral, lá para agosto.

O senhor já definiu seu futuro político? Havia a possibilidade de uma candidatura ao Senado ou a vice-governador de São Paulo.

Não vou ser candidato a senador por Goiás, por razões diversas. Estava bem nas pesquisas, mas de fato teria que construir uma candidatura, porque estou fora de Goiás há muito tempo.

Tomei a decisão de ficar em São Paulo. Estou participando da coordenação do plano de governo do Doria, participando do trabalho do Garcia [Rodrigo Garcia, governador de São Paulo e pré-candidato à reeleição] numa ou outra função, projeto que estou engajado há muito tempo, desde que tomei a opção de aceitar o convite do Doria e assumir a Secretaria da Fazenda de São Paulo.

A opção foi continuar no projeto que estou tocando em São Paulo. Serei candidato a vice-governador? Isso é um assunto que não está decidido. Vamos conversar e tomar a decisão dentro de algumas semanas.

Se o novo presidente da República, seja quem for, quiser chamar o Meirelles para compor sua equipe econômica, qual será a resposta?

Muitas coisas são ventiladas, e se serão concretizadas ou não, isso depende da evolução de vários fatores. A minha postura a esse respeito é: eu não tomo nenhuma decisão em cima de hipóteses, só em cima de fatos concretos.

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