Afinal de contas, quando o ritmo de alta dos preços vai perder tração, permitindo que a inflação se aproxime mais das projeções do mercado para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) no final do ano?
Tudo mostra que esse movimento deve demorar mais alguns meses para acontecer. Apesar de o mercado projetar uma alta já significativa do indicador, de mais de 7% em 2022, dados divulgados nesta quarta-feira (27) pelo IBGE mostram que o aumento em 12 meses já chega a 12,03% — o IPCA-15 avançou 1,73%, maior alta para meses de abril desde 1995.
Os dados refletem a guerra entre Rússia e Ucrânia e as sanções econômicas do Ocidente aos russos, que vêm sustentando em níveis altos os preços de combustíveis e alimentos.
Mas a esse choque de oferta se seguiu outro, mais recente, que explodiu como uma bomba sobre os mercados de uma semana para cá: as más notícias vindas da China, onde o aumento dos casos de coronavírus levou o governo a decretar lockdowns rigorosos em dezenas de cidades.
Nesse cenário, o dólar disparou, saltando 8% em apenas uma semana – na manhã desta quarta, a moeda americana já era negociada a R$ 5, depois de passar pouco ais de um mês abaixo deste nível. Além da expectativa de desaceleração da economia chinesa, o câmbio é influenciado pela expectativa de juros mais altos nos Estados Unidos, o que reduz a atratividade de ativos de países emergentes como o Brasil.
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Crise no nosso maior parceiro comercial
As restrições à circulação na China, segunda maior economia do mundo, devem colocar ainda mais pressão nos preços internacionais, represando a entrega de produtos essenciais à indústria e ao mesmo tempo reduzindo a demanda chinesa por commodities.
Grande parceiro comercial da Ásia, o Brasil tende a ser duplamente afetado: pela queda no volume de compras pelos chineses e pelo aumento nos preços de semicondutores, utilizados da indústria automobilística ao agronegócio.
É nesse cenário que contêineres não despachados vêm se acumulando no porto de Xangai, uma das principais cidades afetadas pelo espalhamento da infecção, segundo reportagem da BBC – a cidade respondeu por 27% das exportações chinesas no ano passado.
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Se a desvalorização do real se mantiver pelos próximos meses, o que é o mais provável na avaliação de analistas, também exercerá pressão sobre os preços, com o encarecimento de produtos importados.
“A inflação global já está muito elevada, e o mundo sofre hoje com dois choques inflacionários: a guerra da Ucrânia e a volta da Covid-19 na China”, apontam os economistas Claudia Moreno e Felipe Salles, do C6 Bank. “A desorganização das cadeias globais de produção, que já está complicada, deve piorar ainda mais com esses dois fatores, pressionando os preços em todo o mundo, não só no Brasil”.
Para os especialistas do banco digital, o IPCA de 2022 deve subir 7,2%, mas com forte viés de alta. “Nossa estimativa é que o IPCA comece a desacelerar já no segundo trimestre, mas a queda pode ser mais lenta do que o esperado. Para 2023, nossa previsão para o IPCA é de 4,6%.
Na avaliação do economista-chefe da Necton, André Perfeito, apesar de todo esse cenário o IPCA pode estar se aproximando do seu pico.
“Apesar do número elevado [do IPCA-15}, há agora a perspectiva mais clara de que podemos estar de fato chegando no pico da inflação, já que para maio não devemos ter altas de combustíveis”, afirmou. “Não quero com isso apontar que a inflação irá melhorar, mas em termos relativos pode ser ´menos pior´ em 12 meses”.