Os novos e rigorosos lockdowns na China, resposta do país à disparada recente de casos de coronavírus no país, devem colocar ainda mais pressão nos preços internacionais, represando a entrega de produtos essenciais à indústria e ao mesmo tempo reduzindo a demanda da segunda maior economia do mundo por commodities.
As restrições à circulação devem impulsionar a inflação global e brasileira, e favorecem mais alta de juros daqui para a frente. Grande parceiro comercial da Ásia, o Brasil tende a ser duplamente afetado: pela queda no volume de compras pelos chineses e pelo aumento nos preços de semicondutores, utilizados da indústria automobilística ao agronegócios.
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Dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Economia mostram que a China é o maior parceiro comercial do Brasil: o país respondeu no ano passado por 31,28% das exportações brasileiras e por 21,72% das importações.
“Isso é mais um choque de oferta, mas o que é mais uma flecha para São Sebastião?”, ironiza Roberto Dumas, professor de economia internacional do Insper e especialista em China. “A falta de semicondutores afeta as farmacêuticas, o agronegócios, os fabricantes de eletroeletrônicos”.
Os semicondutores são um tipo de material capaz de conduzir correntes elétricas, e que são matéria-prima para a fabricação de chips usados em aparelhos eletrônicos. Com a pandemia de coronavírus e a guerra entre Rússia e Ucrânia, houve uma forte redução global na produção desses componentes eletrônicos.
O cenário de preços sob pressão deve piorar com os novos lockdowns decretados na China, com dezenas de cidades chinesas da China em confinamento parcial ou total, situação que ocorre em decorrência de uma política de “Covid zero” implementada pelo governo chinês.
“Estamos falando de apartamentos sendo literalmente selados. Como fica o consumo? Não tem ninguém para entregar comida todo dia, não pode recorrer ao aplicativo de entrega, é quase um esforço de guerra”, explica Dumas. “A única coisa que talvez possa acontecer é a China desistir essa política”.
De acordo com o especialista, a expectativa é que a situação tenha impacto na balança comercial brasileira com país. Ele lembra que até os fretes estão mais caros.
“Atualmente o custo de 40 metros cúbicos de transporte está em US$ 6,8 mil. Antes da pandemia, isso era de entre US$ 1,5 mil e US$ 2 mil. Está três vezes mais caro, e isso vai para os preços.”
Congestionamento de contêineres
É nesse cenário que contêineres não despachados vêm se acumulando no porto de Xangai, uma das principais cidades afetadas pelo espalhamento da infecção, segundo reportagem da BBC — a cidade respondeu por 27% das exportações chinesas no ano passado.
O confinamento vem dificultando a chegada de caminhões, e indústrias como a Volkswagen e a Tesla foram obrigadas a paralisarem suas atividades.
“Mas quando se fala que o problema está só em Xangai, não é bem assim. São 200 milhões de pessoas confinadas, e mais de 20 cidades em lockdown”, diz o professor do Insper. “O problema não são os portos. Os portos congestionados são reflexo da logística terrestre. Os caminhões não podem ir e vir, e aqueles que podem passam por verificações que atrasam as cargas”.
Não por acaso, as ações da Vale (VALE3) já caíram 7% da última sexta (22) para cá, enquanto os papeis da Petrobras (PETR3) recuaram quase 5% no período, quando as notícias sobre lockdowns mais rigorosos na China começaram a aumentar.
A sinalização do presidente do Federal Reserve, o banco central dos EUA, que uma alta mais intensa nos juros americanos, de 0,5 ponto percentual, está na mesa, também derrubaram os mercados.
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O Ibovespa, principal índice brasileiro, que vinha se beneficiando da alta das commodities, caiu aos 110 mil pontos, enquanto que o dólar, que tocou em R$ 4,62 na quarta, subiu acima de R$ 4,80.
“O consumo de petróleo e minério de ferro tende a se reduzir”, diz Dumas. “Enquanto o agronegócio é menos afetado, já que as pessoas não vão deixar de comer, as commodities energéticas e metálicas continuam sofrendo”.