Governo eleito busca credibilidade, mas mercado espera tempestade – o que marcou a semana

Corrida do encaminhamento da PEC da Transição continua reforçada para que a proposta possa ser aprovada antes do recesso de fim de ano do Congresso

Foto: Shutterstock/nadia_if

A PEC da Transição caminhou nesta semana. Aprovada no Senado na quarta-feira (7), a proposta de emenda à Constituição teve que deixar uns pesos para trás de última hora para chegar ao seu destino. Mas, com o placar elástico, a grande partida do ano para o governo eleito foi vencida.

O conteúdo aprovado pelos senadores – e que segue para a Câmara – prevê aumento de R$ 145 milhões no limite do teto de gastos por dois anos para financiar o pagamento do Auxílio Brasil de R$ 600 mensais, em 2023 e 2024, entre outros benefícios. O substitutivo apresentado à comissão da Casa previa um valor maior, de R$ 175 bilhões.

A corrida da tramitação continua reforçada para que a proposta possa ser aprovada antes do recesso de fim de ano do Congresso, que se inicia em 22 de dezembro. Mesmo com a vitória até aqui, a atenção aos passos do novo governo na área fiscal será intensa. Os alertas para isso já foram dados.

Para economistas, a PEC da Transição pode aumentar a dívida pública e gerar mais inflação, o que vai contra os esforços do Banco Central para conter a alta de preços. A promessa de trocar o teto de gastos por outro mecanismo de controle das contas públicas é vista como insuficiente.

O Copom (Comitê de Política Monetária), do BC, em comunicado sobre a manutenção da taxa básica de juros em 13,75% ao ano, ressaltou que terá “especial atenção” com a política fiscal, acompanhando os respectivos efeitos nos preços de ativos e expectativas de inflação. Nesse contexto, o colegiado não descartou a retomada de alta da Selic.

Essa possibilidade foi destacada pelo ex-presidente do BC e um dos criadores do Plano Real, o economista Gustavo Franco, em entrevista à Agência TradeMap. Ele alertou na quinta-feira (8) que, se o panorama fiscal estiver ruim em março, o colegiado pode elevar os juros na segunda reunião do ano, que ocorre nos dias 21 e 22 do mês.

Diante desse cenário, o mercado postergou as apostas para o corte de juros. Antes, a expectativa era que a baixa ocorresse no fim do primeiro trimestre e agora é que seja feita apenas no segundo semestre de 2023.

O aumento do risco fiscal considerado pelo mercado levou o gestor Luis Stuhlberger, da Verde Asset, a afirmar – em carta do fundo multimercado Verde de novembro – que a PEC da Transição mostra que não “há absolutamente nenhum compromisso com qualquer responsabilidade fiscal no governo”.

A cúpula do governo eleito, porém, tenta se antecipar, dando subsídio para os investidores enxergarem mais claramente o cenário no curto prazo.

Na manhã de quinta-feira (8), Fernando Haddad, então cotado para ministro da Fazenda do governo eleito, após encontro com o atual ocupante da pasta, Paulo Guedes, afirmou que uma agenda de trabalho com órgãos como o Tesouro Nacional e a Receita Federal terá início na próxima terça-feira (13).

Nesta sexta-feira (9), Haddad foi confirmado como o comandante do ministério responsável pela gestão das contas do país. O anúncio de quem seria o ministro da pasta era visto como necessário para acalmar os mercados. Junto com ele, outros quatro foram anunciados: José Múcio Monteiro, da Defesa, Rui Costa, da Casa Civil, Flávio Dino, da Justiça e Segurança Pública, e Mauro Vieira, das Relações Exteriores.

A expectativa agora é pelo ministro do Planejamento, se terá perfil técnico, para equilibrar a condução da política monetária com o carácter político de Haddad, o que daria mais segurança ao mercado financeiro. O nome pode ser conhecido na terça que vem, para quando o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), prometeu mais anúncios a respeito dos líderes do seu governo.

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Veja os destaques da Agência TradeMap na semana.

Em vez de punir, pode ajudar a Rússia

A União Europeia (UE) cumpriu com o previsto e definiu um limite de preço para a importação do petróleo russo por via marítima. Só que o teto de US$ 60 por barril – que entrou em vigor na terça-feira (6) pode ser ineficaz na tentativa de punir a Rússia por invadir a Ucrânia e dificilmente impedirá o avanço dos preços da commodity.

Por que o valor dos estoques algumas empresas preocupa?

O terceiro trimestre deste ano ficou marcado pela desvalorização dos estoques de empresas de setores como de distribuição de combustíveis e locação de veículos. A Vibra (VBBR3) chegou a perder R$ 1,7 bilhão no valor do estoque, enquanto Localiza (RENT3) e Movida (MOVI3) viram a depreciação dos veículos acelerar.

FIIs de papel, os preferidos para dezembro

As corretoras elevam preferência por fundos de investimento imobiliários (FIIs) para este mês. Essas aplicações voltaram a ficar atrativas com a alta da inflação. Entre as recomendações, compiladas pela Agência TradeMap, a novidade é o fundo de fundos RBR Alpha Multiestratégia Real State (RBRF11).

Dividendos são opção de curto e logo prazo?

As principais pagadoras de dividendos da B3 têm melhor desempenho no ano, até novembro, se comparado com o CDI e o IPCA. É o que mostra o levantamento do TradeMap que compara a rentabilidade de alguns dos principais ativos financeiros no período.

Em que momento a Cosan está?

O BTG Pactual acredita que o novo ciclo de crescimento da holding Cosan pode estar quase completo e a alavancagem no pico, o que marca o início de uma fase de maturação dos projetos nos próximos anos. Diante do cenário favorável, o banco mantém a recomendação de compra, mas cortou o preço-alvo de R$ 39 para R$ 30.

Duplo golpe no varejo

As varejistas podem terminar 2022 com números frustrantes para o quarto trimestre, devido a um velho conhecido do setor: o alto endividamento dos consumidores. No caso das empresas que também trabalham com concessão de crédito para financiar o consumo, como Magazine Luiza (MGLU3) e Via (VIIA3), o golpe pode ser maior.

Azul projeta R$ 5 bilhões em geração de caixa

A companhia aérea Azul (AZUL4) estima terminar o ano que vem com mais de R$ 5 bilhões de Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações), um indicador que reflete a capacidade da empresa de gerar caixa. O número é 39% superior ao que a empresa apresentou em 2019, o último ano antes da pandemia.

E como fica a tributação de criptoativos?

O Congresso aprovou, na semana passada, as diretrizes para a regulamentação do mercado de criptoativos no Brasil. A tributação, porém, foi um assunto que ficou de fora do texto, o que significa que as regras adotadas pela Receita Federal continuarão valendo ao menos por mais algum tempo, segundo especialistas.

Agenda

Os bancos centrais dos Estados Unidos, da Europa e da Inglaterra decidem, na semana que vem, o que fazer com a taxa de juros de cada um dos países ou região.

A quarta-feira (14) é a vez o Federal Reserve, o banco central americano. No último encontro do Fed, os juros foram elevados em 0,75 ponto percentual, para o intervalo de 3,75% e 4% ao ano, pela quarta vez consecutiva.

Desta vez, porém, a expectativa que haja um afrouxamento da política monetária, com o início da desaceleração das altas, segundo Jerome Powell, presidente da instituição, indicou no fim de novembro.

Na quinta-feira (15), tanto o BCE (Banco Central Europeu) quanto o BoE (Banco Central da Inglaterra) anunciam as respectivas decisões sobre os juros. No fim de outubro, o BCE elevou a taxa para o maior nível desde 2009, no aperto monetário mais rigoroso de sua história.

A expectativa dos especialistas é que o ritmo de alta na Europa continue intenso nos próximos meses, com avanço de pelo menos 0,5 ponto porcentual na taxa em dezembro e de continuidade dos aumentos em 2023.

O BoE, por sua vez, aumentou em 0,75 ponto percentual a taxa de juros no início de novembro, para 3% ao ano. O aumento ainda é visto como necessário, visto que a expectativa é que a inflação ainda alcance o pico neste trimestre e só comece a ceder no ano que vem.

Na sexta-feira (16), a Eurostat publica o CPI (índice de preços ao consumidor) da zona do euro referente a  novembro. O indicador subiu 1,5% em outubro em relação ao mês anterior, atingindo 10,6% em 12 meses.

A inflação do consumidor americano do mês passado também será conhecida. A secretaria de estatísticas trabalhistas do país divulga o índice na terça-feira (13). Em outubro, o indicador avançou 0,4%, acumulando alta de 7,7% em 12 meses.

Por aqui, também na terça, o Copom divulga a ata da última reunião, realizada nos dias 6 e 7 de dezembro, cuja decisão foi pela manutenção da taxa básica de juros em 13,75% ao ano pelo terceiro mês seguido.

E na quarta-feira, será vez da divulgação do IBC-br (Índice de Atividade Econômica do Banco Central) relativo ao mês de outubro. O indicador de setembro subiu 0,05% em setembro, bem abaixo do esperado pelo mercado, que projetava avanço de 0,30%.

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