O terceiro trimestre deste ano ficou marcado pela desvalorização dos estoques de empresas de setores como de distribuição de combustíveis e locação de veículos, o que levou a perdas bilionárias para algumas delas, com efeito direto sobre seus resultados.
Isso porque, em junho deste ano, o governo do atual presidente Jair Bolsonaro reduziu os impostos sobre os combustíveis, o que derrubou os preços e, consequentemente, levou a uma queda do valor de estoque das distribuidoras.
Os estoques são ativos das empresas que abrangem produtos prontos para serem vendidos, os que estão em processo de produção e até mesmo matérias-primas e suprimentos para produção.
Empresas do segmento de distribuição de combustíveis como Vibra (VBBR3) e Raízen (RAIZ4) sofreram a pressão nos resultados ao longo do terceiro trimestre.
Outro setor que sentiu a pressão nos estoques foi o de locação, com nomes como Localiza (RENT3) e Movida (MOVI3) tendo que lidar com uma depreciação acelerada dos automóveis. Essa desvalorização é lançada como despesas e gera impactos direto nos resultados.
Estoques X caixa
As alterações no valor de estoque, contudo, não têm efeito caixa, pelo menos no momento. Trata-se de uma norma da contabilidade para informar aos investidores uma perda de valor entre o custo de aquisição e o valor justo do produto no cenário atual.
Dessa forma, a perda no valor dos produtos estocados reduz o lucro contábil da empresa, mas não necessariamente faz as empresas desembolsarem dinheiro para pagar essas despesas.
A questão é que, quando esses produtos forem vendidos, poderão ter um valor menor, resultando em receitas mais baixas para a empresa. Já se houver valorização do estoque, a empresa deve registrar nos resultados um ganho no trimestre.
Distribuidoras de combustíveis
A Vibra, antiga BR Distribuidora, chegou a perder R$ 1,7 bilhão no valor de estoque no terceiro trimestre, o maior já registrado pela companhia em qualquer trimestre, o que corresponde a uma perda de R$ 168 por metro cúbico vendido.
A Raízen, por sua vez, não informou o valor exato da perda de estoque, mas mencionou que o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) foi impactado negativamente pela queda dos preços dos combustíveis de julho a setembro.
O segmento de marketing e serviços da companhia é responsável pela rede de postos Shell, entre outros, e registrou um Ebitda de R$ 343 milhões no terceiro trimestre, 43% abaixo do reportado no mesmo período de 2021.
O resultado poderia ter sido ainda pior não fossem as estratégias de hedge utilizada pelas empresas, que oferecem proteção em caso de desvalorização ou valorização dos preços de um determinado ativo, minimizando o risco de perdas com variações indesejadas.
No caso das distribuidoras, ambas as companhias fizeram hedge para se proteger da desvalorização dos preços do petróleo e receberam, assim, uma receita financeira com os ganhos dessa operação, minimizando os danos.
Locadoras de veículos
Após a forte valorização dos veículos em 2020, época em que havia escassez de chips semicondutores, locadoras como Localiza e Movida estão tendo que lidar com a correção desses valores.
Diferentemente de outras companhias, as locadoras registram veículos como estoques, e não como imobilizado, ja que eles respondem como sua principal fonte de receita, tanto na oferta de serviços quanto na venda de usados.
No terceiro trimestre, os resultados operacionais foram positivos, porém a depreciação foi maior que a esperada pelo mercado, o que preocupou investidores quanto aos retornos futuros.
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A depreciação acelerada se reflete em margens menores na hora de vender os veículos. Por exemplo, um carro que poderia ser vendido por R$ 40 mil passa a valer R$ 30 mil, o que pressiona as receitas da empresa, que gera menos caixa.
O menor valor do estoque impacta, portanto, diretamente nas projeções de caixa futuros dessas empresas, assim, os retornos esperados aos acionistas tendem a ser menores.
Além disso, o cenário macro com juros elevados ao patamar de 13,75% é outra adversidade para essas empresas. Isto porque há maior necessidade de captação de recursos de terceiros para renovação das frotas e, quanto maiores os juros, mais altas serão as despesas financeiras.
A combinação desses cenários pode influenciar casas de análises a reduzirem o preço-alvo para esses papéis, uma vez que a geração de caixa das empresas deve ser menor que a projetada anteriormente.
O Goldman Sachs, por exemplo, reajustou a previsão para a depreciação da Localiza para cima, além de projetar maiores despesas com juros nos próximos três anos. Esses fatores levam a menores lucros no futuro e, portanto, o preço-alvo da Localiza foi reduzido em 1,6%, para R$ 76,8.
Por outro lado, a empresa é beneficiada pela economia fiscal, isto é, a depreciação reduz o lucro do período e, consequentemente, o imposto a ser pago será menor.
A Localiza, por exemplo, teve um impacto positivo de R$ 175 milhões no Ebitda em razão de laudos que permitiram a aceleração da depreciação para efeitos fiscais de PIS e Cofins.
O fato de a depreciação não ter impacto no caixa no curto prazo faz com que o fluxo de caixa do negócio seja maior. Portanto, há uma flexibilidade maior no caixa do negócio, como para investir na expansão das frotas e no pagamento de dívidas, entre outras alternativas.
É, portanto, importante que as locadoras aproveitem de forma eficiente esse benefício fiscal gerado a partir da depreciação acelerada, para que compensem a menor geração de caixa com as vendas de seminovos no futuro.