Com discurso de Lula e risco fiscal no radar, Ibovespa derrete 3,35% e fica abaixo dos 110 mil pontos

Presidente eleito defendeu pontos com a ampliação dos gastos públicos e criticou o teto de gastos

Foto: Shutterstock/Bigc Studio

O Ibovespa já vinha em baixa desde a abertura do pregão desta quinta-feira (10), com os investidores avaliando os riscos políticos e fiscais e dados de inflação piores do que o esperado.

O principal índice da B3, no entanto, ampliou as perdas após discurso do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e passou a derreter no fim da tarde, depois de o vice-presidente Geraldo Alckmin anunciar mais nomes para a equipe de transição.

Neste contexto, o Ibovespa encerrou a sessão com forte baixa de 3,35%, aos 109.775 pontos, tendo tocado a marca de 108 mil pontos ao longo da tarde. Com a baixa, que coloca o índice no menor patamar desde o fim de setembro, o saldo do índice no mês de novembro passou para queda de 5,4%, enquanto a alta acumulada do ano soma 4,73%.

Riscos fiscais e políticos derrubam Ibovespa

O mercado começou o dia avaliando as negociações em torno da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) de transição, estratégia escolhida pelo governo petista para expandir os gastos em 2023 e acomodar promessas realizadas durante a campanha, com a possibilidade de o Bolsa Família ser retirado do teto de gastos.

Os investidores também repercutiam o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), divulgado na manhã de hoje, que mostrou um avanço de 0,59% sobre setembro, acima do esperado por analistas, diante da pressão de alimentos e bebidas.

No fim da manhã, o mercado sentiu o peso das falas de Lula. O petista defendeu a ampliação de gastos públicos, criticou o teto de gastos e a reforma da Previdência e disse que trabalhará por mudanças na legislação trabalhista.

O mercado considerou a fala uma sinalização de que o novo governo terá pouco compromisso com a responsabilidade fiscal a partir de 2023, e contribuiu para aprofundar as perdas do Ibovespa e impulsionar a alta do dólar e dos juros.

Em relação às empresas, Lula afirmou que as estatais serão “respeitadas” no seu governo, e declarou que a Petrobras (PETR4; PETR3) “não será fatiada”, indicando que a chance de privatização da petrolífera é mínima.

Fábio Guarda, sócio e gestor da Galapagos Capital, avalia que o mercado não gostou do discurso, pois mexeu com questões fiscais, que são um ponto de atenção dos investidores. “Lula sinaliza que um avanço sobre as contas fiscais deve ocorrer. O mercado, que antecipa movimentos futuros, está tomando essa posição nesta quinta”, comenta.

O que realmente azedou o humor do mercado, porém, foi o anúncio de Alckmin de novos nomes para a equipe de transição, com destaque para Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda do governo de Dilma Rousseff, que deverá integrar a equipe de planejamento, orçamento e gestão.

Os investidores esperam, ainda, para saber quais serão as escolhas de Lula para os ministérios. O presidente eleito, por sua vez, afirmou que o anúncio ocorrerá apenas em dezembro.

Banho de sangue

Enquanto a política deu o tom da Bolsa brasileira, o que definiu as maiores baixas do Ibovespa foi a temporada de balanços do terceiro trimestre.

Neste contexto, a líder das quedas foi a Azul (AZUL4), com perdas de 17,83%. Mesmo com um avanço de 61% na receita em comparação com o mesmo período do ano passado, o aumento dos custos, sobretudo com combustível, impactou os resultados e fez o prejuízo vir acima do que o mercado esperava.

A companhia aérea teve um prejuízo líquido de R$ 1,64 bilhão no terceiro trimestre, queda de 26,7% em comparação as perdas de R$ 2,24 bilhões registradas no ano anterior.

Na sequência aparece a Hapvida (HAPV3), que caiu 13,67%. A empresa viu seu lucro líquido atribuído aos acionistas recuar 19,5% no terceiro trimestre em comparação com o período equivalente do ano passado, atingindo R$ 35,2 milhões. Além disso, viu um aumento de 187% nas despesas com vendas no período.

Outra ação na lista de maiores quedas foi a do Carrefour (CRFB3), que recuou 13,07% após a varejista informar que seu lucro do terceiro trimestre foi impactado pela alta da taxa Selic, que ampliou os custos de uma dívida já elevada devido à aquisição do Grupo Big.

Nos três meses encerrados em setembro, a companhia anotou lucro líquido de R$ 256 milhões, resultado 58,8% menor do que o registrado no mesmo período de 2021. O número também ficou 12% abaixo das expectativas do Goldman Sachs e 59,9% abaixo do projetado pelo Itaú BBA.

As poucas altas do pregão

Nem mesmo companhias que reportaram balanços positivos escaparam do banho de sangue desta quinta-feira. No fechamento, as únicas ações no verde eram CSN Mineração (CMIN3), Suzano (SUZB3), Vale (VALE3), Embraer (EMBR3), Klabin (KLBN11) e Gerdau (GGBR4).

A alta de 1,91% da Vale vem na esteira de uma valorização do minério de ferro no mercado internacional nos últimos dias, mesmo com uma baixa de 1,39% no último pregão da Bolsa de Dalian. Por lá, a tonelada da commodity é avaliada a US$ 93.

Veja análise:
Na Vale (VALE3), transição energética abre portas para crescimento da mineradora – entenda

A Rede D’Or (RDOR3), por sua vez, ficou entre as menores baixas do dia, com queda de 0,31%, após fechar o terceiro trimestre com lucro líquido de R$ 375 milhões, alta de 6,9% na comparação com o anotado em igual período do ano passado.

O lucro líquido da companhia foi ajudado por uma queda nas despesas financeiras, que vieram abaixo do antecipado por analistas, mas o principal fator por trás da surpresa positiva foi o crescimento de receita, refletindo o aumento no ticket médio.

Já o Banco do Brasil (BBAS3), que registou lucro ajustado de R$ 8,36 bilhões, avanço de 62,7% em comparação ao mesmo intervalo de 2021 e valor recorde para a instituição em um único trimestre, fechou em baixa de 1,97%, sob o peso do “efeito Lula”.

Agora, o mercado aguarda os resultados de empresas como Itaú (ITUB4), Americanas (AMER3), B3 (B3SA3), Locaweb (LWSA3), brMalls (BRML3), Cogna Educação (COGN3), CPFL Energia (CPFE3), Cyrela (CYRE3), IRB Brasil (IRBR3), JBS (JBSS3), Magazine Luiza (MGLU3), Via (VIIA3), e Marfrig (MRFG3), após o fechamento.

Disparada no exterior

Lá fora, os principais índices acionários americanos e europeus avançaram com intensidade após dados abaixo do esperado na inflação nos Estados Unidos. Em Nova York, o S&P 500 teve alta de 5,54%, o Dow Jones subiu 3,7% e o Nasdaq avançou 7,35%. Na Europa, o índice Euro Stoxx 50 somou ganhos de 3,18%.

Dados divulgados pelo governo do país mostram que o índice de preços ao consumidor americano (CPI) subiu 0,4% em outubro na comparação com o mês anterior, quando também tinha avançado 0,4%.

O mercado esperava um avanço mais intenso, de 0,6%, segundo o Rabobank e o ING. No acumulado em 12 meses, a inflação foi de 7,7% em outubro – a menor leitura desde janeiro deste ano e inferior à previsão dos especialistas, que era de 7,9%.

O indicador teve resultado imediato nas expectativas dos investidores a respeito dos juros americanos, com o mercado passando a ficar mais convicto de que a alta nas taxas vai desacelerar no mês que vem.

Os mercados ainda repercutem as eleições de meio mandato. Dados divulgados ontem mostram que a chamada “onda vermelha” (ou seja, um cenário em que os republicanos levariam o controle da Câmara por alta margem) não se concretizou, mas os resultados ainda estão em aberto.

Criptomoedas

O mercado de criptoativos ensaia uma recuperação nesta quinta, após dois dias de perdas bilionárias na esteira da crise deflagrada pela FTX. O Bitcoin (BTC) e o Ethereum (ETH) voltaram para o campo positivo, apesar de ainda estarem sendo negociados nos valores mais baixos em dois anos.

O alívio veio após dados da inflação americana virem melhores do que o esperado. Os números reforçam as visões mais otimistas de que o Fed (o banco central americano) vá diminuir a pressão do aumento dos juros nos próximos meses, o que favorece ativos de risco, como ações e os criptoativos.

Por volta das 17h50, o Bitcoin tinha alta de 6,2%, negociado a US$ 18.353, segundo dados da plataforma TradeMap. Na mesma hora, o Ethereum subia 15,3%, vendido a US$ 1.391.

O crash no mercado cripto foi deflagrado no domingo (6), após rumores de que a FTX, uma das principais corretoras do mundo, estaria enfrentando problema de insolvência. Horas depois, a Binance divulgou que fechou um acordo para comprar o que restou da concorrente, mediante análise das contas e dos débitos da corretora.

O anúncio trouxe um sinal de esperança aos investidores com conta na FTX, que desde terça-feira (8) estão impedidos de sacar os seus ativos.

O alívio, porém, teve fôlego curto, e hoje a Binance desistiu da aquisição, afirmando que os problemas envolvendo a FTX “estão além do nosso controle ou capacidade de ajudar”.

Compartilhe:

Mais sobre:

Leia também:

Destaques econômicos – 02 de abril

Nesta quarta (02), o calendário econômico apresenta importantes atualizações que podem influenciar os mercados. Confira os principais eventos e suas possíveis repercussões:   04:00 –

Mais lidas da semana

Uma newsletter quinzenal e gratuita que te atualiza em 5 minutos sobre as principais notícias do mercado financeiro.