As taxas de juros dos títulos do Tesouro Direto subiram nesta quinta-feira (10) enquanto o dólar disparou e chegou a superar o patamar de R$ 5,40 diante do aumento da preocupação com o comprometimento do próximo governo com a responsabilidade fiscal.
A moeda americana encerrou em alta de 4,10% a R$ 5,3942, maior patamar desde 26 de outubro, descolando do movimento de queda no exterior.
Comentários do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva criticando o teto de gastos (lei que limita o aumento de despesas do governo à inflação do ano anterior) e a responsabilidade fiscal levaram a um aumento da aversão a risco no mercado local, provocando a alta do dólar e das taxas de juros.
Lula questionou por que o Brasil adota metas de inflação e não de crescimento do PIB e sinalizou que deve priorizar os gastos sociais, que na visão dele são “investimentos”. Esses comentários aumentaram as dúvidas sobre o compromisso do governo com a responsabilidade fiscal.
O governo negocia uma PEC (Proposta de Emenda Complementar) para abrir espaço no Orçamento de 2023 e acomodar despesas como a manutenção do Bolsa Auxílio em R$ 600 fora do teto de gastos. O efeito esperado é de um gasto adicional de R$ 175 bilhões, acima do esperado pelo mercado.
Para Fábio Guarda, sócio e gestor da Galapagos Capital, essa política tem consequências negativas no médio prazo. “Lula fez um discurso inflamado, mostrando uma visão míope e de curto prazo. Os países que escolheram priorizar a estabilidade social ao invés do fiscal, como a Venezuela, sofrem consequências maiores”, diz.
Segundo ele, o mercado ainda está leniente com o novo governo, aguardando os detalhes da PEC da Transição e o anúncio da equipe econômica, principalmente do ministro da Fazenda, que só deve sair quando Lula voltar da COP 27, em dez dias.
A moeda americana chegou a intensificar a alta e superar o patamar de R$ 5,41 após o anúncio de Guido Mantega (ex-ministro da Fazenda no segundo mandato de Lula e no primeiro de Dilma Rousseff) como integrante da equipe do planejamento no governo de transição.
Taxas do Tesouro IPCA+ atingem maior patamar desde julho
O forte aumento das taxas dos títulos públicos levou o Tesouro Direto a suspender a negociação dos papéis atrelados à inflação (Tesouro IPCA+) e prefixados.
As taxas dos papéis Tesouro IPCA+ subiram para além de 6% nesta quinta-feira, alcançando o maior patamar desde julho. Na ocasião, o avanço ocorreu após a aprovação da PEC dos Benefícios e a incerteza sobre a política fiscal do governo que seria eleito.
A taxa do Tesouro IPCA+ para 2045 subia para 6,15% ao ano às 16h48, acima dos 5,92% no pregão anterior.
O retorno dos títulos do Tesouro IPCA+ é formado por uma taxa prefixada mais a variação da inflação. Quando a taxa do papel sobe, os preços dos títulos emitidos no mercado com um rendimento menor caem, mas o investidor só vai ter perda se vender nesses momentos de queda, antes do vencimento.
Já as taxas dos papéis prefixados subiram para acima de 13%. A do título para 2033 negociava a 13,17%, ante 12,17% do dia anterior.
No caso dos papéis com prazos mais curtos, a alta acima do esperado do IPCA de outubro, que subiu 0,59%, contribuiu para acentuar o movimento de elevação.