A apertada vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diante de Jair Bolsonaro (PL), no domingo (30), foi encarada sem grandes solavancos pelo mercado financeiro, tanto no dia seguinte à eleição quanto ao longo da semana que sucedeu o segundo turno da eleição presidencial.
Os títulos do Tesouro Direto chegaram a ter as negociações suspensas na manhã da segunda-feira (31), um reflexo da tensão inicial do mercado em meio a incertezas que ainda persistem a respeito da formação da equipe econômica do vencedor. A ausência de manifestação oficial de Bolsonaro reconhecendo a derrota também contribuiu para essa turbulência.
Algumas horas depois, porém, a situação era inversa. O dólar e os juros, que subiram no início do primeiro pregão após as eleições, terminaram o dia em baixa.
O Ibovespa também indicou que os investidores digeriram bem os resultados das urnas.
O principal indicador da Bolsa brasileira abriu a segunda-feira em leve queda, mas logo foi para o azul e terminou com alta de 1,31%. Na terça (1º), o desempenho foi positivo de 0,77%. E, após o feriado do dia 2, recuou somente 0,3%, numa reação tardia a sinais de que o ciclo de alta de juros nos EUA será mais longo que o esperado.
As ações de estatais foram as que reagiram mais negativamente ao resultado da eleição. A percepção é a de que Lula não é afeito a privatizações e que pode fazer interferências prejudiciais ao lucro das companhias.
Na segunda-feira, Petrobras ON (PETR3) teve baixa de 7,04%, Petrobras PN (PETR4) caiu 8,47% e Banco do Brasil (BBAS3) recuou 4,64%. Na semana, acumularam desvalorização de 11,38%, perda de 13,11% e ganho de 1,13%, respectivamente.
A queda mais forte da Petrobras deveu-se também a mudanças na avaliação da companhia por grandes bancos. O JPMorgan cortou a recomendação das ações para neutra e diminuiu o preço-alvo das ações em cerca de 30%. O BTG Pactual também reduziu a estimativa de preço das ações da estatal. A explicação: é necessário aguardar as mudanças que serão feitas na petroleira pelo novo governo. Por causas semelhantes, a queda do BB ocorreu.
Por sua vez, a Eletrobras (ELET3), privatizada em junho, fechou em alta de 2,9% no dia seguinte à eleição. Mesmo com o governo detendo 45% da empresa, o mercado acredita que a companhia pode estar blindada contra mudanças. E, apesar de Lula ter mencionado em campanha possível revisão da privatização, o processo é bem difícil de acontecer.
Na Bolsa, as grandes vencedoras da eleição são as empresas beneficiadas pelo aumento de renda e do poder de compra da população. Estão na lista as de educação – a exemplo de Cogna (COGN3) e Yduqs (YDUQ3) -, saúde, como a Hapvida (HAPV3), construção e, claro, varejo.
Para o Goldman Sachs, são as varejistas que têm o cenário mais benéfico após a eleição de Lula. O banco vê o crescimento do lucro por ação de 2022 a 2024 de 60% para o Assaí (ASSAI3) e de 53%, do Carrefour (CRFB3), com recomendação de compra para ambos os papéis.
Com transição ordenada, pontuou Robin Brooks, economista-chefe do IIF (Instituto Internacional de Finanças), e resultado eleitoral incontestável, o dólar pode cair abaixo de R$ 5 e o Brasil ser o país emergente “mais quente” para investir em 2023.
Um passo importante para a concretização desse cenário pode ser dado na terça-feira (8), com o anúncio do texto da PEC (Proposta de Emenda Constitucional) de transição de governo. Sem ajustes, faltará verba no orçamento de 2023 para a manutenção do auxílio de R$ 600, promessa de campanha do presidente eleito.
Veja os destaques da semana da Agência TradeMap.
Taurus é ESG?
Como o armamento é um tema sensível, se poderia argumentar que a Taurus teria dificuldades para se posicionar no segmento de ESG. Para o CEO da companhia, Salesio Nuhs, porém, a empresa é essencialmente ESG por atuar no setor estratégico de defesa, dando maior segurança tanto para a população quanto para o país.
Banco Pan e o receio de inadimplência
O banco digital reportou um lucro líquido estável na comparação anual, ao crescer apenas 1%, para R$ 193 milhões. No período, escolheu elevar as provisões em relação ao tamanho da carteira, acompanhando a redução da qualidade de crédito.
BrasilAgro manterá dividendos gordos?
Distribuições maiores de dividendos podem ser proporcionadas pela sólida posição de caixa da companhia e vendas de propriedades, que vão gerar recebíveis de R$ 700 milhões ao longo dos próximos cinco anos, afirmou Ana Paula Zerbinati, head de Relações com Investidores, em participação na TradeLive desta semana,
FIIs de papel mostram recuperação
Depois de três meses de queda, em meio à desaceleração da inflação, os fundos imobiliários de papel, que investem em títulos de dívida do setor, mostraram recuperação na Bolsa em outubro, enquanto os investidores aproveitaram a valorização recente das cotas das carteiras de tijolo para realizar parte dos ganhos.
Novonor pede ajuda à Braskem
A Braskem (BRKM5) informou que vai apoiar a Novonor, sua controladora, no processo de venda da petroquímica. O pedido de ajuda foi encaminhado na quinta-feira (3) pela ex-Odebrecht, que passa por um processo de recuperação judicial.
As ações mais indicadas para novembro
O ranking das cinco ações mais recomendadas pelos analistas do mercado, elaborado pela Agência TradeMap, tem o papel do BTG Pactual (BPAC11) como novidade para o mês de novembro. O banco de investimento tomou o lugar da Ambev (ABEV) e assumiu a quinta posição. É a primeira vez no ano que o BTG aparece no ranking.
Vale e o pessimismo do Goldman Sachs
O Goldman Sachs revisitou suas expectativas para a Vale (VALE3) nos próximos meses, considerando um preço mais baixo para o cobre, o minério de ferro e um volume menor de vendas no futuro. Com isso, o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação) estimado é 9% menor que a projeção anterior.
Agenda
O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) de outubro é um dos destaques da agenda econômica desta semana. O IBGE (Instituto Nacional de Geografia e Estatística) divulga o indicador na quinta-feira (10). A expectativa é que os preços tenham voltado a subir ou mostrado um movimento mais estável em outubro depois de três meses em queda.
O IPCA-15, prévia do indicador apresentou aumento de 0,16%, mas com recuo dos núcleos de serviços e bens industriais, que excluem preços mais voláteis. Em setembro, o IPCA registrou queda de 0,2%; em julho, o recuo foi de 0,68%; e em agosto, de 0,36%. A inflação acumulada no ano, ate setembro, foi de 4,09% e, nos 12 meses, a alta chegou a de 7,17%.
A Fundação Getulio Vargas (FGV) também divulga o a primeira prévia do IGP-M (Índice Geral de Preços ao Mercado), já referente a novembro, na quinta. No mês passado, o indicador recuou 0,97%, acelerando a queda de outubro, de 0,95%. A baixa na ocasião deveu-se a queda do óleo diesel e do leite in natura.
Ainda no tema “preços”, há números novos sobre a economia chinesa e a americana. A divulgação da inflação oficial brasileira será precedida pelo CPI (índice de preços ao consumidor) da China, na quarta-feira (9), referente a outubro. E na quinta, é a vez do CPI dos Estados Unidos, também do mês passado.
Em setembro, o indicador americano subiu 0,4%, acelerando em relação à alta de 0,1% em agosto. O resultado foi pior do que o esperado pelo mercado. Analistas ouvidos pela Reuters acreditavam em um avanço de 0,2% no período. Com a alta, o CPI continua no radar do Federal Reserve, que tem como uma das tarefas o combate à inflação.
Nesta semana, o banco central dos EUA elevou a taxa básica de juros em 0,75 ponto percentual pela quarta vez consecutiva, para o intervalo de 3,75% a 4% ao ano. A autoridade monetária avaliou que a economia ainda continua aquecida – o que favorece o aumento de preços – e sinalizou que a desaceleração da alta virá, mas o fim do ciclo vai demorar mais a ocorrer.
E nos Estados Unidos, serão realizadas, na terça-feira (8), as eleições legislativas de meio mandato, chamadas de midterms. Com o pleito, há renovação da Câmara e parte do Senado. Além disso, ocorrem mudanças de governadores e de legislativos pelo país. A importância se deve ao fato de a nova formação do Parlamento influenciar a capacidade de gestão do governo do presidente Joe Biden e impactar também a eleição presidencial de 2024.