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“Vender bolsa brasileira no menor múltiplo dos últimos 20 anos para comprar ações americanas parece um perigo”, diz CEO da AZ Quest

“Vender bolsa brasileira no menor múltiplo dos últimos 20 anos para comprar ações americanas parece um perigo”, diz CEO da AZ Quest

Para Walter Maciel, bolsa local já reflete, em boa parte, cenário negativo para o ano que vem e chance é de alta

WALTER MACIEL AZ Quest ações png

Foto: Divulgação

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Após sucessivos recorde de altas das bolsas americanas em 2021, enquanto o Ibovespa amarga uma das piores performances entre os mercados de ações globais, acumulando perda de 9,9% no ano, o CEO da gestora AZ Quest, Walter Maciel, diz acreditar que este não é o momento de sair da bolsa brasileira para aplicar em ações americanas.

“Vender a bolsa brasileira no menor múltiplo dos últimos 20 anos para comprar bolsa americana na máxima histórica e com o câmbio real na máxima histórica me parece um perigo”, diz. “Não acho que o câmbio vai para R$ 6,50 para mandar dinheiro para fora nesse patamar.”

Para Maciel, à frente da casa responsável por R$ 16 bilhões sob gestão em outubro, o mercado de ações doméstico já reflete, em boa parte, um cenário negativo para o ano que vem.

Apesar da incerteza no cenário eleitoral, a grande vantagem considerada é o mercado já conhecer o perfil da política econômica dos dois candidatos à frente nas pesquisas eleitorais, com o primeiro lugar disputado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo atual presidente Jair Bolsonaro (PL). “A economia não foi mal sob o governo Bolsonaro, que, antes da pandemia da Covid-19, andava bem, assim como no primeiro mandato de Lula”, avalia Maciel. “O mercado exagera um pouco sobre a falta visibilidade.”

Para o CEO, um cenário de um governo Lula moderado, de Bolsonaro reeleito e menos dependente do Congresso e mesmo de eleição de um candidato da chamada terceira via não está considerado nos preços dos ativos e pode ser um potencial gatilho de alta para a bolsa. Nesse contexto, o desempenho das ações brasileiras no ano que vem deve ser assimétrico.

Ações do setor de varejo devem continuar com desempenho fraco

Entre as ações com maior potencial de alta na bolsa, Maciel destaca os papéis da Localiza (RENT3), que teve a fusão com a Unidas (LCMA3) recentemente aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Segundo o CEO, a transação pode aumentar o poder de barganha da empresa, com possibilidade de repasse do aumento de custo para o aluguel dos carros.

Já os setores de varejo e consumo com foco na classe C deverão continuar os mais atingidos pela queda da renda pessoal no ano que vem.

Neste ano, os fundos AZ Quest TOP Long Biased FIC FIA, AZ Quest Total Return FIC FIM, AZ Quest Altro FIC FIM  e AZ Quest Luce ganharam com posições vendidas, isto é, apostando na queda dos preços, em ações do setor de varejo como Magazine Luiza (MGLU3) e Via Varejo (VIIA3). Esse segmento tem sido um dos mais atingidos diante do cenário de crescimento fraco do PIB, que deve ficar próximo de zero no ano quem, e da alta das taxas de juros.

A gestora também tem investido em setores considerados mais defensivos, como em empresas de energia como Equatorial (EQTL3) e Cesp (CESP3), exportadoras como Suzano (SUZB3) e Embraer (EMBR3), e companhias de papel e celulose. “Falta comida e energia no mundo, e o Brasil está bem-posicionado nesse cenário”, diz Maciel.

Outras empresas, como de controle estatal como Petrobras (PETR4), ou do setor financeiro, como Banco do Brasil (BBAS3), Itaú Unibanco (ITUB4), Bradesco (BBDC4) e XP, também estão baratas na bolsa, segundo Maciel.

Dado o preço descontado dos papéis, há chance de alta dos preços dos ativos brasileiros se o cenário for mais positivo, com uma revisão para cima do PIB e para baixo da projeção para a inflação.

Fundos de crédito privado são boas apostas com Selic em alta

Com a taxa Selic devendo atingir dois dígitos em 2022, os fundos que investem em papéis de crédito privado são boas apostas para o próximo ano, na opinião de Maciel. “Ficaria com o grosso da carteira nesses ativos”, diz.

Segundo o CEO da AZ Quest, papéis emitidos por empresas com alta qualidade de crédito estão pagando prêmios superiores aos níveis de 2020. “Todo mundo achava que teria quebradeira, mas não houve.”

Ter uma parcela em fundos multimercados que podem aplicar em qualquer tipo de ativo também será interessante para aproveitar as oportunidades na bolsa e no mercado de renda fixa, afirma Maciel.

Os multimercados, contudo, sofreram neste ano com o aumento da inflação e a queda da bolsa. Apenas sete do total de 11 categorias classificadas pela Anbima superaram o retorno do CDI no ano, de 3,92%, até 14 de dezembro. “O que pegou foi a alta da inflação, que tira o poder de compra”, assinala o CEO.

Gestores também foram surpreendidos, segundo Maciel, por erros de condução de política econômica, com a quebra do teto de gastos aumentando a incerteza fiscal. Com a aprovação da PEC dos Precatórios, no entanto, ele destaca que a incerteza fiscal sobre o déficit no Orçamento do ano que vem diminuiu.

“BC errou ao reduzir Selic para 2% e agora vai errar de novo”

O Banco Central, na visão do gestor da AZ Quest, errou ao reduzir a Selic para 2% ao ano, em setembro de 2020, e vai errar novamente se aumentar a taxa básica para 12% no ano que vem para buscar a convergência das expectativas da inflação para a meta.

“O BC errou ao levar a taxa Selic para 2%, que é uma taxa muito baixa para uma economia que tem ineficiências como o Brasil. Agora está corrigindo, levando a taxa de juros para 11% a 12% em 2022”, diz.

Para Maciel, o BC terá que cortar a Selic para um patamar entre 7% e 7,50% em 2023, com a economia brasileira apresentando um crescimento próximo a zero. “O ciclo para o fim do ano que vem é de queda de juros.”

Nesse cenário, Maciel tem preferido se posicionar em taxa de juros prefixadas com prazos mais longos em vez de títulos atrelados à inflação de longo prazo, que costumam ter maior volatilidade.

O aumento do diferencial da taxa de juros no Brasil e no exterior pode facilitar o crescimento dos fluxos de recursos de investidores estrangeiros para a renda fixa no Brasil e promover a valorização do câmbio, ajudando a reduzir a pressão sobre a inflação. “Se o câmbio fosse para R$ 5, o IGP-M seria negativo”, diz.

Para Maciel, a alta da taxa de juros nos Estados Unidos sinalizada pelo banco central americano, o Federal Reserve, de três aumentos no ano que vem, já está refletida nos preços dos ativos. O CEO não espera uma surpresa maior do lado da inflação, que possa levar a autoridade monetária americana a mudar a rota. “Não estou convencido de que temos uma inflação persistente e um cenário de longo prazo de juros muito alto.”

O gestor avalia que as pressões na inflação são reflexos das consequências da pandemia, que gerou um desequilíbrio da oferta global e obrigou os governos a adotarem medidas de estímulo que ajudaram a aumentar a renda, mas que estão sendo revertidas.

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