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Crise: as empresas que serão mais prejudicadas pela (já esperada) recessão brasileira

Crise: as empresas que serão mais prejudicadas pela (já esperada) recessão brasileira

Confira os setores que tendem a sentir a crise de forma mais acentuada

Ano novo, vida nova? As perspectivas para a atividade econômica neste ano começaram da mesma forma que findaram em 2021: recessão.

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Ano novo, vida nova? Para a economia brasileira, esse mantra não deve ser real em 2022. As perspectivas para a atividade neste ano começaram da mesma forma que findaram em 2021: com a recessão batendo à porta.

Os principais vilões são os mesmos. A inflação e a alta da taxa de juros – que deve continuar assim por mais tempo que o esperado – barram o consumo das famílias e atrasam investimentos de empresas, remetendo à recessão da década passada e ameaçando fincar o bear market no Brasil. 

De acordo com o Boletim Focus mais recente, a previsão é que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresça apenas 0,29% neste ano. O Itaú e o Credit Suisse, por outro lado, entendem que o indicador de tudo o que é produzido no país cairá 0,5%. 

Embora existam companhias que podem se aproveitar do processo de enfraquecimento econômico, ou de estagflação, no Brasil, há nichos que tendem a sentir a crise de forma mais acentuada. 

Confira o levantamento da Agência TradeMap sobre algumas das que podem ter reais desafios ao longo deste ano. 

Via (VIIA3)

A Via (VIIA3) é um dos exemplos de que o varejo pode ter dias difíceis ao longo dos próximos meses.

O contexto de alta nos preços da economia, que levou o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) a alcançar os dois dígitos no ano passado – a maior marca desde 2015 –, reduz o incentivo ao consumo.

De quebra, o país segue com a taxa de desemprego em patamares elevados, acima dos 12%. A Via é uma das varejistas que têm parte do seu foco voltado aos usuários de baixa renda, dado que um dos seus carros-chefes é a Casas Bahia. 

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Desde a chegada da pandemia, as empresas do setor varejistas lidaram com o abastecimento artificial gerado pelo auxílio emergencial. 

Nos últimos quase dois anos, a competição acirrou o setor, com a intensificação das operações de Amazon e Mercado Livre no território brasileiro, o que ajudou a pressionar ainda mais as margens dessas companhias. 

Apesar das iniciativas da atual gestão na melhora e desenvolvimento operacional, o passado da Via ainda é uma incógnita. O turnaround trouxe a necessidade de reestruturação dos negócios, mas também o alinhamento de conflitos internos.

No terceiro trimestre do ano passado, a varejista teve lucro líquido ajustado de R$ 101 milhões. O resultado contábil, porém, foi negativo em R$ 638 milhões. O motivo: provisões de R$ 810 milhões para processos trabalhistas.

O espaço para recuperação é curto. De acordo com dados compilados pelo Refinitv, apresentados na plataforma do TradeMap, são 13 analistas que cobrem a empresa. Dentre eles, dois recomendam compra e quatro, venda. O preço-alvo mediano é de R$ 12.

Recomendações para Via 

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Fonte: TradeMap

Tenda (TEND3)

As ações da construtora Tenda (TEND3) contam a história da política monetária nos últimos anos. Desde o IPO, realizado em 2017, até fevereiro de 2020, os papéis da companhia subiram 417%. 

O período coincide com o processo de enxugamento da Selic, que se aproximava de sua mínima histórica, de incentivo à economia, enquanto a inflação se acomodou na casa dos 2%. Nos últimos 12 meses, porém, a ação da empresa cai 50%.

As incertezas trazidas pela pandemia, contudo, junto à contração monetária colocada em prática pelo BC, pesam sobre a economia real e, de forma análoga, sobre o setor de construção civil.

O segmento é um dos poucos que reflete tão bem a economia na Bolsa brasileira. A deterioração dos índices de inflação, que mostram o aumento dos custos das construtoras e incorporadoras, pressiona a confiança dos investidores para este ano. 

De outro lado, o aumento da taxa de juros pressiona a procura por financiamentos imobiliários, que ficam menos atrativos. 

Leia mais:
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Embora tenha relevante capilaridade entre os consumidores de baixa renda, a Tenda pode sofrer com a perda do poder de compra dos clientes menos favorecidos financeiramente. 

De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a inflação para os mais pobres foi 15% superior à dos mais ricos em 2020. 

No terceiro trimestre do ano passado, a empresa reportou resultados negativos. O valor geral de vendas (VGV) atingiu R$ 644 milhões, em função do lançamento de 11 empreendimentos. O número é 35% menor do que o apresentado um ano antes, queda que também acabou pressionando as margens. 

Margem bruta da Tenda

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

Em suma, trata-se de um setor de companhias com poucas vantagens competitivas e que não conseguem se manter com a rentabilidade acima do custo de capital por muito tempo.

Ser Educacional (SEER3)

De acordo com dados do Ministério da Educação (MEC) junto ao Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), até 2020 o Brasil ocupava a quinta posição entre os maiores mercados de ensino superior no mundo. Eram cerca de oito milhões de alunos matriculados. 

O ensino superior no Brasil é um verdadeiro negócio, que chama atenção de diversos entes educacionais. Atualmente existem mais de 2,6 mil instituições de ensino, oferecendo mais de 40 mil cursos de graduação. Do total, 80% das faculdades são ligadas à iniciativa privada. Dentre elas, a Ser Educacional (SEER3).

Com mais de 16 anos de estrada, a empresa se concentra nas regiões Nordeste e Norte, com um modelo que busca ser de alta escalabilidade, com padronização dos negócios. 

Contudo, o setor de educação privado tem sofrido com a chegada da pandemia, que alterou drasticamente o entendimento sobre o que é e como chegar ao ensino no Brasil. Investimentos em tecnologia são cada vez mais demandados – e mais custosos – para que plataformas ligadas ao Ensino à Distância (EAD) entrem em vigor.

No caso da Ser, a base total de alunos é de 240 mil. Desses, 55% ainda estão no regime presencial, chamado de híbrido. 

Além disso, a companhia possui exposição ao Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), que sofre por interferências governamentais em seu modelo. Em metade do ano passado, por exemplo, o pagamento das parcelas foi suspenso devido aos impactos da pandemia. O Fies representa 12% da base total de alunos. 

Os números da companhia parecem estar positivos. No terceiro trimestre de 2021, a captação de novos alunos foi recorde e a taxa de evasão da graduação híbrida apresentou redução de 4,4 pontos percentuais em 12 meses, para 12,5%. 

Em termos de faturamento, a companhia procura acelerar o crescimento, que permanece estável há alguns trimestres.

Histórico da receita líquida da Ser Educacional

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

As perspectivas para o segmento permanecem bastante desafiadoras no curto prazo. A procura de boa parte das empresas tem sido de concentração dos esforços na realização de cursos com maior rentabilidade, como Medicina. 

As incertezas em relação ao desempenho da Ser Educacional neste ano são expressas nas ações – assim como praticamente em todas as small caps. Em 2021, os papéis caíram 31%, enquanto no acumulado deste ano a baixa já é de quase 5%.

Tegma (TGMA3)

A Tegma (TGMA3) é outra small cap que tem sido alvo de massivas vendas na Bolsa. 

A companhia opera na logística de veículos zero quilômetro para montadoras Brasil afora. O negócio consiste na coleta dos veículos em fábricas ou portos, gestão de pátio das montadoras e no armazenamento de veículos não faturados, além de serviços de acessorização e transporte de veículos até as concessionárias ou portos. 

O problema é que a indústria automotiva no Brasil passa por uma de suas maiores crises da história, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). 

A disparada do câmbio e a escassez de semicondutores automotivos agravam a situação, que está nebulosa desde 2020. 

Se há poucos carros para o transporte, a Tegma sofre. As vendas domésticas de veículos no Brasil, nos primeiros nove meses de 2021, atingiram 1,47 milhão, queda de 24% em relação ao mesmo período de 2019 (pré-pandemia).

Com isso, há redução em todas as linhas. No terceiro trimestre, na comparação com o mesmo período de 2020, a companhia reportou queda em:

  • Veículos transportados (-30%);
  • Distância média percorrida (-12%);
  • Receita líquida (-21%);
  • Ebitda ajustado (-34%). 

O lucro líquido, porém, cresceu em 14%, para R$ 34 milhões. 

O curso da história da empresa poderia ser diferente: a Tegma recebeu uma proposta não solicitada de combinação de negócio com a JSL (JSLG3) no ano passado. A oferta foi recusada em julho e, desde então, os papéis perderam metade de seu valor na Bolsa.

O mercado em que a Tegma atua gera alta incerteza, sobretudo por conta da crise de chips que vai além das fronteiras no Brasil; possíveis novas restrições à mobilidade, o que poderia desacelerar ainda mais o mercado de veículos zero; e alta fragmentação dos players.

IRB Brasil (IRBR3)

A gigante dos resseguros tem passado por uma tempestade (nem tão perfeita assim) desde o início de 2020. O dossiê montado pela gestora Squadra explicando por que havia aberto uma posição vendida nas ações do IRB Brasil (IRBR3) abalou a credibilidade da empresa. E isso ainda não foi recuperado.

Quando o documento assinado por Guilherme Aché, gestor da casa, veio a público, os papéis do IRB estavam na máxima histórica, acima dos R$ 41. Desde então, as ações caíram 92% e expressam a dificuldade de a companhia retornar à rentabilidade.

Até outubro do ano passado, a empresa acumulava prejuízo de R$ 396,6 milhões no ano. Certamente a meta de reportar lucro em 2021, revelada um ano antes, não será cumprida. Isso porque a conjuntura também não ajuda.

Os altos sinistros da empresa têm dificultado a recuperação da empresa, que mudou completamente sua gestão para dar uma nova cara à empresa. 

Como se não bastasse, o ano de crise deve pressionar ainda mais os negócios, que normalmente giram com retorno próximo do custo de capital (que aumentou em função da guinada da taxa de juros).

Característica do setor de seguros, as empresas operam com caixa elevado em função do recebimento dos prêmios antes do pagamento de sinistros, e essa parte pode chamar atenção no IRB, que gerou R$ 1,5 bilhão em caixa nos primeiros nove meses do ano.

Evolução do caixa líquido do IRB Brasil

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

Porém, os números da empresa estão camuflados com créditos fiscais acumulados em razão dos prejuízos recentes, o que muda de patamar (para pior) o patrimônio da empresa. 2022 tem tudo para ser duro para a companhia, pelo terceiro ano consecutivo.

Isso não significa que o IRB Brasil não pode superar os resquícios deixados pelas atividades descontinuadas. Todavia, um cenário de recessão é mais perigoso aos negócios do ressegurador.

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