O varejo faz parte do cerne brasileiro. Grandes empresas do setor atuam diretamente com o público, das mais variadas classes sociais, atendendo nos melhores momentos e, da mesma forma, nas situações de dificuldade. Em tempos de incerteza, como o atual, as ações das varejistas costumam se mostrar voláteis.
As vendas das varejistas caíram 1,3% em setembro, mais do que o dobro do que o mercado esperava, segundo o Instituto de Geografia e Estatística (IBGE).
O tombo em relação ao mesmo mês do ano passado — quando a economia ensaiava recuperação, abastecida artificialmente pelo auxílio emergencial — é de 5,5%. Na pesquisa, seis das oito atividades apresentaram queda na comparação com agosto.
Alguns deles, como móveis e eletrodomésticos (-3,5%), artigos de uso pessoal e doméstico (-2,2%) e até itens de supermercados (-1,5%), explicam parte do resultado de Via (VIIA3), Magazine Luiza (MGLU3) e Americanas S.A (AMER3) no terceiro trimestre.
A avaliação do mercado das varejistas
Em linhas gerais, os analistas se dividem. Embora as companhias estejam capitalizadas e no caminho para monetizar a base de clientes de diferentes formas, o cenário macroeconômico não ajuda.
No caso da Via, segundo os dados compilados pela Refinitiv, apresentados na plataforma do TradeMap, são 16 analistas que acompanham a empresa. Desses, cinco recomendam a compra dos papéis no patamar atual; nove indicam que a melhor decisão é a manutenção; e dois sugerem que os investidores vendam das ações.
A amplitude das recomendações é extensa. O mais otimista dos especialistas enxerga as ações valendo R$ 24, o que perfaz um potencial de alta de quase 290% na comparação com o último fechamento, de R$ 6,17.
Há, porém, quem veja o contrário: as ações podem continuar a cair, para R$ 5,50, o que não seria uma novidade. As ações da Via acumulam baixa de 65% no ano.

No caso do Magalu, que também tem sofrido, a visão é mais amena, tendendo para positiva. De 15 recomendações compiladas no TradeMap, há cinco indicações de manutenção e dez de compra, com uma delas de “compra forte”.

A Americanas S.A., que tomou o lugar da B2W na Bolsa, foi a que trouxe os resultados mais animadores no trimestre. Os números, melhores do que o esperado pelo mercado, justificam as boas perspectivas dos analistas.
O mais otimista enxerga as ações no patamar de R$ 120 no curto-médio prazo, o que significa que os papéis podem subir quase 210%. São 17 recomendações compiladas, com dez recomendações de compra e sete de manutenção.

Passado recente da Via ainda é uma interrogação
A Via repaginou seus negócios. Procurando dar um viés moderno e ajustado à visão da nova administração, mudou de nome e até aposentou o Baianinho, personagem que representava a Casas Bahia.
Nos últimos trimestres, a empresa tinha, inclusive, deixado os prejuízos para trás, mas o período entre julho e setembro guardou surpresas aos investidores.
A varejista teve lucro líquido ajustado de R$ 101 milhões no terceiro trimestre. O resultado contábil, porém, foi negativo em R$ 638 milhões, ante R$ 590 milhões positivos um ano antes. O motivo: provisões de R$ 810 milhões para processos trabalhistas.
Novidades negativas dessa magnitude, por mais que estejam ligadas a razões anteriores à atual gestão, geram preocupação por parte do mercado quanto a possíveis outros problemas que não tenham sido resolvidos.
Em compensação, de um lado, a empresa ainda tem R$ 9,5 bilhões em créditos tributários a serem recebidos nos próximos seis anos. Do outro, o endividamento está controlado.
A alavancagem financeira da empresa, medida pela relação entre o caixa líquido e o Ebitda ajustado dos últimos 12 meses, caiu de 1,5 vez, no terceiro trimestre do ano passado, para 1,4 vez, no mesmo intervalo deste ano.
O que esperar da Via?
Os próximos dois meses serão de grande importância para a companhia, dado que o setor varejista brasileiro já depende consideravelmente da Black Friday, no fim de novembro e, naturalmente, dos negócios no Natal.
Os números do terceiro trimestre mostraram uma resiliência da Via nas vendas digitais, mas com dificuldade de manter os resultados positivos dos últimos períodos nas lojas físicas. O plano de abrir mais 70 lojas até dezembro pode ser influenciado negativamente. Leia mais aqui.
Magalu sente peso macroeconômico nas margens
O varejo, puro e simples, por si só já é um setor de margens apertadas. Em geral, os custos são altos e a competição pelo menor preço é acirrada. Esse fato é intensificado quando o e-commerce toma proporções relevantes na companhia.
Com o segmento em desaceleração, a baixa demanda pressionou o Magazine Luiza, que apresentou queda na rentabilidade em seus indicadores operacionais.
As vendas totais, que considera lojas físicas, e-commerce, tradicional (1P) e marketplace (3P), até teve um crescimento sólido de 12%. Mas, a partir disso, ladeira abaixo.
O lucro bruto caiu 20,4% em 12 meses, para R$ 1,73 bilhão entre julho e setembro deste ano. A margem bruta, que mede o quanto da receita total sobrou para o pagamento das demais obrigações, caiu 6,1 pontos percentuais, para 20,1%.
O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) tombou 75,3%, para R$ 134,8 milhões. A margem Ebitda, importante para mensurar a eficiência do negócio, caiu cinco pontos percentuais, para 1,6%.
Com um lucro líquido de R$ 143,5 milhões (-30,3%), a margem líquida, que mostra o resultado líquido, depois de todas as despesas e custos, da receita líquida, ficou em apenas 1,7%.
No caso do Magalu, inclusive, essa tem sido uma tendência, conforme mostra o gráfico histórico da margem líquida, extraído do TradeMap.

Nem tudo foi ruim. Entre os pontos positivos, destaca-se o crescimento do e-commerce, ponto focal da companhia nos últimos anos, embora em ritmo desacelerado. Enquanto o volume bruto de mercadoria (GMV) subiu 12%, o comércio eletrônico avançou 22%.
Além disso, o 3P já soma 120 mil vendedores, com GMV disparando 67,3% em um ano. Cerca de 65% das entregas do marketplace são realizadas na modalidade ultra-rápida (até uma hora), melhorando a experiência do cliente.
Mas o mercado não deu muita bola para o trecho positivo do balanço. Por volta das 14h40 desta sexta-feira, as ações do Magazine Luiza caíam mais de 15%, para R$ 11,52, se aproximando do menor patamar do ano.
E a partir de agora?
Esperamos que o Magazine Luiza mostre resultados positivos nos últimos meses do ano, com as vendas sazonais em crescimento ante o reportado em 2020. Contudo, há de se esperar meses sombrios a partir de 2022.
Enquanto o cenário macroeconômico permanece turbulento, a inflação continuará corroendo o poder de compra da população — que já está altamente endividada. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), 74,6% das famílias brasileiras estavam com dívidas em outubro.
Mesmo sem crédito tributário, Americanas é vista com bons olhos
Quem bate o olho no resultado da Americanas S.A, fruto da fusão operacional da B2W com a Lojas Americanas (LAME4), toma um susto.
A queda acumulada das ações neste ano, quase 50%, é resultado de um primeiro semestre aquém das expectativas e abaixo dos pares. Agora, entre julho e setembro, teve um lucro líquido de R$ 241 milhões, alta de 568,3% na comparação anualizada.
Esse resultado, porém, possui aspectos não recorrentes. A empresa fez uso de créditos tributários a que tinha direito. Desconsiderando esse item, o prejuízo seria de R$ 6 milhões.
Mesmo assim, os números da companhia foram vistos de forma positiva, uma vez que a expectativa do mercado era por um prejuízo de R$ 12 milhões, de acordo com dados compilados pela Refinitiv.
O GMV da empresa cresceu 23,8% em 12 meses, para R$ 12,86 bilhões, sendo que 42% foram de parceiros. Na receita bruta, o digital já corresponde a 60%, somando R$ 4,54 bilhões (avanço de 29,9%).
No mesmo período do ano passado, o comércio eletrônico tinha participação quatro pontos percentuais menor no faturamento total, resultado do investimento da empresa em tecnologia.
A plataforma eCommerce cresceu 30,1% no terceiro trimestre, enquanto o restante do mercado cresceu 18%, segundo o Compre & Confie.
A Ame também foi um dos destaques do trimestre, registrando 25 milhões de downloads desde que foi criada, superando R$ 22 bilhões no volume total de pagamentos (TPV, na sigla em inglês) dos últimos 12 meses.
O mercado entende que a parceria da Ame com a Vibra Energia (BRDT3) pode destravar valor e impulsionar as ações, tão pressionadas nos últimos meses.
O que esperar de Americanas S.A.?
Em linhas gerais, cada vez mais perto da operação sinérgica que prometeu na fusão dos negócios.
Segundo a companhia, o valor presente líquido (VPL) das sinergias da combinação, livre de custos, é estimado em R$ 1,6 bilhão até 2024. Além disso, a base comparativa fraca — tanto em termos de resultado como no intangível da governança corporativa — pode ser um trunfo para o resultado dos próximos períodos.
A empresa negocia abaixo da média histórica. O múltiplo que mede a relação do valor de firma e o Ebitda, que é uma aproximação da geração de caixa da empresa (EV/Ebitda), está em 27,4 vezes, enquanto o patamar médio dos últimos 36 meses é de 60,09 vezes.

Por que as ações das varejistas estão caindo
Aqui no Brasil, as principais companhias do setor de varejo se confundem com empresas de tecnologia.
Além da escassez de empresas voltadas ao setor tecnológico propriamente dito, isso ocorre pela característica de uma base de clientes ampla, mas que até pouco tempo atrás tinha pouco engajamento no âmbito digital.
As varejistas, portanto, passaram a investir em tecnologia, tanto para acompanhar as mudanças estruturais da economia como para monetizar essa base de clientes.
Esse processo é observado, também, com a financeirização dos negócios dessas empresas, como o MagaluPay e o banQi, da Via. No início da pandemia, era um mar de rosas.
Mas a conjuntura mudou, sobretudo no Brasil. Como as varejistas passaram a ser vistas com as lentes da tecnologia, seus múltiplos tendem a ser altos em função das expectativas. Grande parte do valor de companhias com essas características está no futuro.
Com a taxa de juros em um baixo patamar, o custo de oportunidade de a empresa “jogar para frente” o retorno aos acionistas é pequeno. Mas, com o ciclo de alta da Selic, as projeções são revistas.
Nas contas dos analistas, o dinheiro a ser gerado no futuro pelas empresas é descontado a uma taxa, que varia conforme o andamento da política monetária. Com a perspectiva de que a Selic volte e permaneça ao patamar de dois dígitos a partir do ano que vem, esses fluxos de caixa são abatidos a uma maior taxa.
Como o valor de uma empresa é a soma de todos os fluxos de caixa futuros, não tem outro caminho: queda dos múltiplos no presente e, consequentemente, baixa das ações.
A Via, por exemplo, negocia a quase 1.000 vezes o lucro dos últimos 12 meses. O papel da Magazine Luiza, por sua vez, é cotado a 115 vezes.
Para efeito de comparação, a Amazon (AMZN), vista como a grande concorrente do Magalu, é cotada a 60 vezes. No gráfico, a empresa responde à desaceleração econômica global melhor que a empresa de Frederico Trajano — guardadas as devidas proporções.

Com suas particularidades, a história micro das varejistas listadas na B3 ainda parece saudável, com diversas avenidas de crescimento. O cenário macro e a execução das políticas de crescimento, entretanto, colocam uma pulga na orelha do mercado.