Na primeira temporada da série Succesion, da HBO, o personagem Kendall Roy, filho do dono de um conglomerado de mídia, se vê diante da possibilidade de assumir o comando das empresas da família quando o pai sofre um derrame cerebral.
Os acionistas, porém, não gostam nada da ideia de o filho passar a ser o manda-chuva do negócio e começam a vender suas participações em Wall Street. O preço em bolsa despenca. Roy, então, afirma que agora consegue quantificar o quanto os investidores não vão com a sua cara. Basta olhar para a queda das ações.
No Brasil, é possível enxergar algo parecido com o IRB, a gigante de resseguros. Mas não por causa de uma troca de comando. E, sim, porque uma gestora, a Squadra, publicou uma carta, no início de 2020, na qual expôs uma série de inconsistências nos resultados dos balanços trimestrais, a partir de contratos estranhos com clientes – o que gerou uma enorme perda de credibilidade entre investidores.
Mas enorme quanto? É isso que o mercado quantificou. Em apenas dois meses, entre janeiro em março de 2020, a ação despencou de R$ 41,43 para R$ 6,47 – a um sétimo do que valia antes.
De lá para cá, a empresa tem feito um esforço para recuperar a credibilidade. Trocou de comando, cancelou os contratos com problemas e tem divulgados resultados que mostram os efeitos das medidas de ajuste.
Mas não tem sido fácil. Os remédios para corrigir os rumos são amargos. Cada cancelamento de contrato gera um custo e atrapalha a volta da lucratividade. Desde a crise, a empresa ainda não conseguiu voltar a ter um lucro contábil. A cada divulgação, é preciso mostrar os números com e sem os efeitos dos cancelamentos.
E o último resultado, referente a outubro e divulgado na manhã desta terça-feira, dia 21, trouxe números pouco animadores.
No mês passado, a empresa teve prejuízo líquido de R$ 84,8 milhões, sem retirar da conta os efeitos dos cancelamentos. No acumulado do ano, a perda é de R$ 396,6 milhões. Ou seja, é bem improvável que a empresa termine 2021 com lucro – o que havia sido uma das promessas feitas pela nova gestão em 2020.
No entanto, há um bom sinal nisso tudo. Quando se tira da conta os custos dos contratos cancelados, o IRB já tem lucro no acumulado de janeiro a outubro de 2021, em R$ 74 milhões.
Mas, mesmo nesse critério, não tem sido melhora gradual e contínua. Os resultados estão oscilando a cada mês. Em outubro, o resultado ficou negativo em R$ 27,6 milhões.
A empresa tem evitado cravar quando voltará ao lucro. Se antes a promessa era que isso aconteceria em 2021, agora não se arrisca a dizer que será em 2022.
A companhia tem argumentado que a maior parte do trabalho de reestruturação já foi feita. Agora, é deixar que os efeitos dos contratos cancelados vão ficando para trás, abrindo espaço para o retorno da lucratividade.
Uma forma de encarar isso é percebendo que os prejuízos estão ficando menores. O lucro líquido do acumulado de 2021, de R$ 74 milhões, representa uma melhora de R$ 595,8 milhões em relação ao prejuízo registrado em igual período do ano passado.
No entanto, o mercado parece que espera por mais para voltar a confiar no IRB.
Por volta das 11h40, a ação era negociada a R$ 4,13, em queda de 1,19% no pregão e de 47,53% no acumulado do ano.