Via (VIIA3) mergulha em “fulfillment” e amplia mercado endereçável; entenda a operação e a alta das ações

Valor fechado não foi divulgado, mas é composto por parcela fixa, a ser paga com dinheiro em caixa, e earn-out

Ano novo, vida nova. A VIa (VIIA3) iniciou o ano procurando tirar o atraso em relação aos grandes pares do mundo do marketplace.

Foto: Divulgação

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Ano novo, vida nova. A Via (VIIA3) iniciou o ano procurando tirar o atraso em relação aos grandes pares do mundo do marketplace. Na manhã desta quarta-feira (12), a empresa anunciou a aquisição da logtech CNT.

O valor fechado não foi divulgado, mas é composto por uma parcela fixa, equivalente a 0,20 vez o EV (valor da empresa)/valor bruto de mercadorias (GMV) de 2021, o qual ainda não foi revelado. Essa parte será paga ao longo de quatro anos com dinheiro do caixa. 

O pagamento da transação também será realizado com um earn-out, ou seja, um valor a ser pago futuramente condicionado ao cumprimento de determinadas metas. Esse montante será menor que o valor fixo e tem até cinco anos para a conclusão. 

O total a ser pago pela empresa, que pode se tornar salgado com o passar do tempo, foi o caminho encontrado para acompanhar a atuação de companhias como Mercado Livre, Amazon e Americanas. 

Por volta das 12h50 desta quarta, as ações da Via subiam 3,47%, para R$ 4,18. A empresa vale cerca de R$ 6,5 bilhões na B3.

Em um ambiente cada vez mais competitivo, que vai muito além da venda e da entrega de produtos, o varejo prepara os motores para enfrentar um ano que promete ser de altos e baixos. 

Em teleconferência sobre a transação, a Via disse que acredita que o valor é adequado e vai de encontro à disciplina da Via na alocação de capital em aquisições.

O que é fulfillment?

Sequência de operações e atividades desde o recebimento do pedido até a efetiva entrega do produto ao cliente final. O termo está ligado às operações logísticas e de cadeia de suprimentos de forma concisa, objetivando a maior satisfação possível em toda a jornada de compra do cliente.

A Via passará a armazenar os estoques dos sellers de seu marketplace (3P) com a operação da adquirida. Com mais de 11 anos de atividade, a CNT é especializada em operações de e-commerce, utilizando tecnologia proprietária que tem trazido resultados.

Atualmente, a taxa de rotatividade (churn) dos clientes é de 5%, ao passo que o percentual de retenção dos mesmos é de 92%. São dois centros de distribuição — um em São Paulo e outro no Espírito Santo –, que atendem grandes clientes como Goodyear, Gradiente e Kraft Heinz.

Foram mais de três milhões de pedidos atendidos pela CNT no ano passado e mais de 13 milhões de itens entregues. Quase 99% dos acordos de nível de serviço (SLAs), ou seja, prazos estipulados para a conclusão das entregas, foram cumpridos. 

Histórico recente pós-turnaround

O negócio anunciado pela Via nesta manhã está em linha com o que foi colocado em prática pela empresa depois de assumir seu turnaround, sobretudo nos últimos dois anos.

Além da mudança da mentalidade e do posicionamento de marca, que fez com que inclusive os nomes fossem adaptados ao novo momento da empresa, a logística sempre foi entendida como um negócio à parte. 

Nos últimos meses, a companhia incorporou as sinergias da Frota Leve/Pesado e adquiriu a ASAPLOG, que particularmente aumentou a capacidade de entrega na “última milha”.

Cerca de 90% das entregas da logtech comprada em 2020 são realizadas dentro de 24 horas. Essa operação contribui para que as entregas próprias da Via, que não passam por nenhuma transportadora terceira, hoje correspondam a 60% do total. 

Todas as lojas também foram transformadas em minihubs nesse período, além do pontapé inicial dado em novos centros de distribuição no Pará e em Extrema e da ampliação dos CDs em Bahia e Ceará. 

Evolução (com volatilidade) da receita líquida da Via nos últimos 10 anos

Fonte: TradeMap
Fonte: TradeMap

Por que a Via aposta em fulfillment?

Embora a operação de fulfillment possa parecer mais complexa de ser operacionalizada e demande um investimento inicial – como a própria transação mostra –, ela gera benefícios às três partes do negócio:

  • Consumidores;
  • Vendedores;
  • Empresa.

Do lado dos clientes, há maior satisfação na relação junto à empresa. A experiência de compra vai além do preço, consistindo no cumprimento do prazo de entregas e atendimento e pós-venda eficientes. 

A prestação de um serviço premium, por assim dizer, pode fazer com que o cliente pague mais pelo processo, elevando o net promoter score (métrica de satisfação, conhecida como NPS) e potencialmente aumentando o life time value (LTV) dos consumidores. 

Do ponto de vista dos sellers, o negócio auxilia na redução da necessidade de capital de giro, concentrando o estoque em uma operação só. Em função do aumento do custo de capital no Brasil, a operação é bem-vinda aos menores vendedores que possuem pouco poder de fogo.

Já para a própria empresa, existem sinergias claras em termos de logística e cortes de custos em distribuição, o que tende a melhorar a rentabilidade do negócio. 

Veja também:
O que esperar de Via, Magazine Luiza e Americanas

A estimativa da diluição de custos fixos de armazenagem é de 15% até 2024 e para a diluição dos custos variáveis da última milha é de 26%, segundo o levantamento da Via.

A operação é positiva à empresa pois a coloca de volta aos trilhos, com menor custo de aquisição de clientes (CAC) em um momento em que a disputa pelos consumidores no âmbito digital está cada vez mais custosa, além de destravar o valor do potencial logístico já em atividade. 

Varejistas esbarram em macro difícil

O cenário é de alta da inflação, com o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) superando os dois dígitos nos últimos 12 meses; de alta da taxa de juros, o que reduz o incentivo ao consumo; de elevado desemprego; e de possibilidade de recessão econômica.

Nos últimos quase dois anos, as empresas do setor lidaram com o abastecimento artificial gerado pelo auxílio emergencial. Mesmo com o aumento do antigo Bolsa Família, que foi transformado em Auxílio Brasil, a tendência é de pouca liquidez. 

Altamente correlacionadas à atividade econômica brasileira, as varejistas se preparam para um ano complicado – ainda mais do que foi em 2021.

Em linhas gerais, as empresas estão capitalizadas e se mostram cada vez mais consolidadoras, ampliando o escopo de atuação. Por outro lado, preocupa a dificuldade na base de monetização dos clientes, pressionando fortemente as margens. 

No caso da Via, o viés é ainda mais negativo. Como se não bastasse a queda de 67% das ações em 2021, analistas ouvidos pela Refinitiv não veem muito espaço para recuperação. 

Segundo os dados compilados, apresentados na plataforma do TradeMap, são 13 analistas que cobrem a empresa. Desses, apenas dois recomendam a compra das ações neste momento. Sete estão céticos, indicando a manutenção da posição acionária.

Quatro deles recomendam a venda dos papéis. Por mais que as perspectivas sejam nebulosas, a cotação parece excessivamente pressionada. O preço-alvo mediano aponta para R$ 12 por ação, upside de 187%. 

Neste contexto, as varejistas confundem-se com empresas de tecnologia no Brasil, com altos investimentos no e-commerce e expansão do mercado criado ao longo das últimas décadas. Com o enxugamento da torneira da liquidez mundial cada vez mais próxima, essa categoria tem sofrido. 

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