O Brexit depois do Brexit: esses três países querem deixar o UK
“Andy Burnham agora deve estar se acostumar com a ideia de que ele ficará na história como o último primeiro-ministro do Reino Unido,” disse o primeiro-ministro da Escócia, John Swinney ao comentar a proposta de que seu país, a Irlanda do Norte e Gales se separem do Reino Unido.
O que antes parecia apenas um sonho anti-britânico de uma parcela minotirária da população destes países hoje está mais perto do que nunca de se tornar realidade.
Líderes escoceses, galeses e norte-irlandeses se reuniram hoje em Cardiff, a capital de Gales, para assinar um memorando de entendimento visando a independência do governo de Londres.
“Cada uma de nossas nações tem o direito de determinar seu próprio futuro, por meios democráticos e de acordo com a vontade de seu povo,” diz o documento assinado pela primeira-ministra da Irlanda do Norte, Michelle O’Neill, a presidente do Sinn Féin (o partido governista da Irlanda do Norte), Mary Lou McDonald, o líder do Plaid Cymru (o partido no poder em Gales), Rhun ap Iorweth, e John Swinney.
“Pela primeira vez, há primeiros-ministros na Escócia, no País de Gales e na Irlanda do Norte todos comprometidos com a independência em relação ao Reino Unido […] não poderia haver sinal mais claro de que o tempo de Westminster está chegando ao fim,” afirmou o documento.
A reunião aconteceu depois que Burnham sugeriu a parlamentares que autorizaria outro referendo de independência da Escócia caso houvesse um “consenso claro” a favor dele. A última vez que o país votou o tema foi em 2014, quando 55% da população escolheu ficar no Reino Unido.
A posição de Burnham se explica por sua origem. Nascido em Manchester, no norte da Inglaterra, ele fez carreira política na cidade e sempre esteve próximo dos eleitores escoceses e dos problemas que os afetam, Francesco Nicoli, um professor de ciência política na Faculdade Politécnica de Turim e especialista em União Europeia, disse ao Brazil Journal.
O momento, porém, é muito diferente de 12 anos atrás.
O Brexit mudou a relação dos países do Reino Unido com Londres, já que as populações da Escócia e Irlanda do Norte foram contra deixar a União Europeia – e o Brexit passou com a votação maciça dos ingleses.
O mal estar entre os três países e o Reino Unido fez com que o sentimento antibritânico aumentasse nas casas legislativas locais. Na Escócia, o Partido Nacional Escocês (SNP), consolidou seu poder nos últimos 10 anos, enquanto na Irlanda do Norte o Sinn Féin – anti-britânico e pró-unificação irlandesa – chegou ao poder no país pela primeira vez em 2024.
“Quando a Escócia votou pela primeira vez para permanecer no Reino Unido, sair do Reino Unido significaria sair da UE naquele momento. Hoje em dia é diferente,” disse Nicoli. “O governo escocês pode argumentar que a situação mudou substancialmente desde 2014, mesmo caso da Irlanda do Norte, onde há uma maioria favorável a permanecer no Reino Unido há algum tempo, mas é uma maioria que vem diminuindo cada vez mais.”
Nicoli também relembra que a Irlanda do Norte tem direito constitucional a um referendo de independência, parte dos Good Friday Agreement firmado em 1998 entre Londres e a República da Irlanda para encerrar os episódios de violência conhecidos como The Troubles.
Faltava Gales, que “resolveu” seu problema nas eleições deste ano. Em maio, o Plaid Cymru (o Partido de Gales, na tradução do galês), encerrou décadas de domínio do Partido Trabalhista na política local e formou um governo nacionalista alinhado aos da Escócia e Irlanda do Norte.
O memorando assinado ao final da reunião prevê que os três países entrem na UE após a independência, afirmando que o atual modelo econômico britânico está “falido”.
“O Brexit prejudicou nossas economias e limitou as oportunidades para o nosso povo. Acreditamos que o futuro de nossas nações pertence à União Europeia. Queremos trabalhar juntos para reconstruir e fortalecer essas relações europeias, criando maiores oportunidades de comércio, investimento, cultura e cooperação.”
Apesar da movimentação, cada país está em um estágio diferente para declarar independência. Enquanto a Irlanda do Norte tem direito a um referendo, Swinney disse que pretende realizar uma votação sobre o tema na Escócia até 2031 – ainda que precise da anuência de Londres para tal.
Já o caso de Gales é mais complicado. O governo galês hoje não tem poder para realizar referendos de independência, mas o premiê de Gales disse após o encontro em Cardiff que buscará essa prerrogativa.
Apesar do desejo explícito destes países de se unir à UE em uma eventual independência, Nicoli vê outra justificativa para o movimento: o crescimento do Reform UK, o partido de extrema-direita que vem aumentando sua presença na política britânica sob a liderança de Nigel Farage.
“O crescimento do Reform UK é um péssimo sinal para esses países. Eles veem nisso a possibilidade de serem deixados de lado caso. Além disso, há o fato da legislação britânica não ser codificada, o que traz insegurança jurídica para esses países. Então vejo nesse movimento uma forma desses três países estarem se preparando para o pior, não necessariamente um desejo de fazer parte da UE,” disse Nicoli.
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