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Com posição vendida em Nubank (NUBR33), Aché, da Squadra, vai às compras na Bolsa

Com posição vendida em Nubank (NUBR33), Aché, da Squadra, vai às compras na Bolsa

Gestora teve ganhos com aposta na queda dos papéis do IRB (IRBR3) e da Stone (STOC31) e está com posição vendida em Bolsa americana

Guilherme Aché participa do TradeMap Discovery em maio de 2022

Guilherme Aché durante o TradeMap Discovery, em maio de 2022. Foto: Cauê Diniz

Por:

Beatriz Cutait

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Beatriz Cutait

A gestora Squadra Investimentos aproveitou os preços inflados dos IPOs (ofertas públicas iniciais de ações, na sigla em inglês) de algumas empresas brasileiras que abriram o capital nas bolsas americanas, como Nubank (NUBR33) e Stone (STOC31), para montar posições vendidas (que apostam na queda) nesses ativos, ganhando com a desvalorização dos papéis.

“Ainda estamos short [vendidos] em Nubank”, afirmou Guilherme Aché, sócio-fundador da Squadra Investimentos, em entrevista à Agência TradeMap.

A gestora também aposta na baixa do índice americano S&P 500, com a visão de que os mercados desenvolvidos terão uma performance pior que a Bolsa brasileira.

A queda no mercado de ações doméstico, principalmente de empresas de crescimento, que são mais afetadas pela alta da taxa de juros, serviu para corrigir algumas distorções, mas também gerou oportunidades de compra de papéis com preços descontados em relação ao seu valor justo. “Estamos comprando ações”, disse Aché.

Um dos gestores mais renomados do mercado brasileiro, o fundador da Squadra segue a estratégia de investimento conhecida como value investing, a mesma do megainvestidor Warren Buffett, do qual Aché é fã. Ela busca identificar empresas que estão com preços descontados em relação ao seu valor justo e que apresentam perspectivas de crescimento no longo prazo.

O fundo de ações da gestora Squadra Long-Biased rendeu 698,44% desde seu início, em abril de 2008, até abril deste ano, bem acima da alta de 71,85% do Ibovespa. Neste ano, a carteira ganhou 5,08%, até abril, diante de valorização de 2,91% do principal índice da Bolsa.

Nos últimos anos, Aché ganhou ainda mais notoriedade no mercado após a gestora revelar o escândalo contábil da resseguradora IRB (IRBR3).

A Squadra publicou uma carta em 2020 questionando irregularidades nas práticas contábeis do IRB, que levou à troca de comando da empresa. A empresa reportou lucro líquido de R$ 80,5 milhões no primeiro trimestre do ano, alta de 58% ante o mesmo intervalo de 2021, em um resultado impulsionado pelo ganho em duas ações judiciais.

A visão pessimista de Aché em relação ao IRB não mudou desde então. O gestor continua com visão negativa e com posição vendida no papel, prevendo a necessidade de nova capitalização pelos acionistas.

Com o mercado cada vez mais atento à disputa à presidência, o fundador da Squadra avalia que o resultado da eleição, seja com a vitória de qualquer um dos candidatos que estão à frente na corrida eleitoral, não deve levar a um cenário disruptivo e, por isso, avisa: para quem tem um horizonte de longo prazo, “é hora de investir”.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista ao TradeMap.

Com a aproximação do fim do ciclo de alta de juros, vocês veem oportunidades em empresas do mercado doméstico cujas ações caíram muito no último ano, como do setor de varejo?

É cada vez mais importante olhar o preço das empresas. Ao tentar adivinhar esses ciclos econômicos ou de mercado, na maioria das vezes, a gente erra. Pouquíssimos conseguem acertar pontos de inflexão no mercado financeiro.

Tem o pressuposto macroeconômico do Brasil que não ajuda e a gente não vê isso mudando no médio e no longo prazo. Há poucos períodos, um curto intervalo de tempo, em que as coisas são boas e você tem um vento a favor. Geralmente você investe com um vento contra, mas acho que muitas empresas caíram muito.

Hoje [17 de maio] teve, inclusive, uma empresa que eu tenho na carteira que chegou a cair 18% no dia que é a Hapvida [HAPV3 caiu 16,84% após a empresa reverter lucro e registrar prejuízo de R$ 182 milhões no primeiro trimestre].

Quando você tem esse grau de incerteza, o prazo do investidor também encurta. Então, você pode ter uma empresa muito boa e, se o resultado de curto prazo decepciona, o impacto no preço é muito grande. Para quem consegue ter uma visão de longo prazo, acho que tem muito preço bom no mercado.

Nós estamos indo às compras, inclusive chamamos capital dos nossos investidores no fim do ano passado, mais de R$ 1 bilhão, para fazer esse movimento. O que falei para eles: não sei quem vai ganhar a eleição. Parto do pressuposto que o Brasil flerta com o abismo, mas não se joga.

A gente não vai virar uma Venezuela, uma Argentina. Esse é o pressuposto básico. Agora se vai cair ou vai subir eu não sei. Sei que os preços estão muito bons e, se você tem um horizonte de longo prazo, é hora de investir.

O que mais chamou a atenção no resultado da Hapvida?

As sinergias ainda vão vir, mas o que mais chamou a atenção foi o resultado como um todo muito ruim, com sinistralidade muito mais alta, competição mais forte, preços mais fracos, em geral. Se você tem uma economia fraca, essas surpresas acontecem.

Em “bear market” [mercado com tendência de queda], as surpresas costumam ser negativas e vice-versa no mercado em alta. Mas Hapvida é uma empresa meio nova no mercado, eles se confundem, dão um guidance que depois fica muito longe e o mercado fica perdido.

A gente está avaliando para ver o que está acontecendo, mas parece ser uma boa oportunidade para quem tem visão de mais longo prazo, porque é uma empresa vencedora no setor, que vai continuar crescendo no Brasil e acho que vai passar por uma fase de recuperação de margem ou sinistralidade mais baixa. Teve toda história da Covid-19 e da Ômicron no primeiro trimestre.

Vocês chegaram a escrever uma carta sobre os IPOs das novas empresas de tecnologia brasileiras, que, após saírem com preços elevados, passaram por forte correção. Como vê esse setor?

Há um ano e meio, tínhamos o que chamávamos de fake techs, empresas que vieram a mercado com valuations loucos. Mas a narrativa era outra, de empresas do futuro, pelas quais se paga qualquer preço. Agora, a maioria caiu mais de 50%. Só que as empresas são novas, e as narrativas ditas nos IPOs eram fraudes na maioria das vezes, e caíram muito de preço.

Hoje há empresas que negociam com um valor de mercado próximo à quantidade de caixa que elas têm no balanço. Isso geralmente é uma indicação que parece ser o fundo do poço, mas, enfim, é mais caso a caso.

A Squadra chegou a montar posição short em alguma delas?

Chegamos a fazer short em uma delas, a Méliuz [de cupons de desconto], mas era uma posição pequena, que já encerramos.

E como você avalia as empresas brasileiras que abriram capital nas bolsas americanas, como Nubank (NUBR33), Stone (STOC31) e Banco Inter (BIDI11)?

Nubank foi um absurdo de preço. Já corrigiu mais de 50% do preço do IPO [a ação saiu a US$ 9 e hoje negocia abaixo de US$ 4]. Vivi a bolha de 2000 e tem muita semelhança. Daqui um tempo, vão ter outras, o mercado é assim. Estamos short em Nubank e já estivemos short em Stone em determinado momento também.

A Squadra tem uma posição em petróleo na carteira com PetroRio (PRIO3). Como avaliam o setor?

Ninguém sabe para onde vai o preço das commodities. Você tem hoje uma narrativa super bullish [otimista] relacionada à questão do ESG [que envolve os aspectos ambientais, sociais e de governança], com todas as empresas reduzindo investimento em produção, e tem o problema de oferta com a guerra, com a Rússia sem entrar no mercado formal. Por outro lado, tem a história da demanda. Provavelmente, alguns países vão entrar em uma atividade econômica muito baixa, com risco de recessão.

Quando estamos investidos em empresas que têm esse tipo de risco de preço do produto, temos que estar meio perto da porta, não pode se apaixonar demais. Mas a PetroRio é um pouco diferente, porque o impacto no preço da empresa tem a ver com o preço de petróleo, mas tem muito a ver com a atividade de M&A [fusões e aquisições].

Ela acabou de comprar da Petrobras um campo que será transformador chamado Albacora Leste e, provavelmente, vão ter outros. E isso é poderoso em termos de valor, dependendo do preço a pagar.

E vocês têm Petrobras (PETR4)?

Temos pouco, porque tem essa questão de não saber para onde vai. Se o Bolsonaro ganhar a eleição provavelmente vai ser a ação que vai mais subir na Bolsa. Agora, se ganhar o Lula, fica essa espada na empresa sobre o que vai acontecer. Hoje a Petrobras está muito barata e o preço não anda porque tem esse risco político.

O Bolsonaro até hoje não interferiu nos preços e, em um novo governo, acho que as chances de ele interferir são menores. A questão de interferir não tem a ver com os brasileiros, é eleição. Passando a eleição é outra coisa.

O governo pode pensar: deixa a Petrobras lá e vamos arrumar um jeito de capitalizar os dividendos para o governo. Já se o Lula entrar, acho que a empresa, no mínimo, vai gastar muito mais em investimentos, vai querer fazer refinaria, investimentos de retorno baixo.

E essa pressão para interferência dos preços dos combustíveis, como impacta o setor?

A gente de mercado acha que é preço livre. Por que não tabela o preço do pão? Vamos fazer a “Padariabras”, compra todas as padarias e tabela o preço do pão. É a mesma lógica. Você vai criar uma distorção em que, a longo prazo, o preço é alto. Vamos fazer uma Argentina. É preço de mercado, que é o sinal que você precisa para se investir em aumento de produção, alguém comprar as refinarias ou ampliar as refinarias.

A privatização seria uma solução?

Acho isso muito longe.

O que vocês estão comprando hoje?

Estamos comprando empresas cujos preços caíram muito. Estávamos discutindo aumentar a posição em Hapvida, temos comprado PetroRio quando dá mais chance, Mercado Livre (MELI34), que entrou nessa onda de vende tudo e que é tech e é uma baita de uma empresa.

O que esperar da nova empresa com a fusão da Aliansce (ALSO3) e da BR Malls (BRML3)?

Indicamos um sócio para ser conselheiro da empresa nova. Acho que é um setor que está barato, que sofreu muito com essa história de pandemia, que sofre com juros altos. Acho que nos shoppings bons, não têm muito mais consolidação para fazer.

A Squadra mantém a posição vendida em IRB? O que achou do resultado do primeiro trimestre?

Sim, ainda temos essa posição. A empresa está em uma situação superdifícil, foi uma fraude enorme e a empresa ainda está em processo de limpar balanço. Além disso, operacionalmente, resseguro é um negócio muito ruim, os retornos são baixos no mundo inteiro. Teve um problema conjuntural, que foi uma quebra de safra no Sul, que impactou de forma relevante.

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A empresa vai precisar de capitalização dos sócios. Em 2020, teve uma capitalização [a R$ 6,93] porque desenquadrou e [agora] está se desenquadrando novamente, vai precisar de capital novo. A dificuldade é saber quem vai botar dinheiro, porque você tem dois grandes acionistas que são os bancos [Bradesco Seguros e Itaú Seguros] e a grande maioria dos demais acionistas são pessoas físicas.

Então, acho que essa capitalização, se vier, vai ser a um preço bem baixo, porque acho que os bancos não querem ter uma participação grande nessas empresas. E é uma capitalização de bilhão de real, de cerca de um terço do capital, então é muita ação que precisa ser emitida.

O ideal para eles [bancos] seria achar um investidor estratégico de distressed asset [ativos estressados com preços com grande desconto] que comprasse, mas esse cara obviamente é sensível a preços, e a empresa, por incrível que pareça, não está barata – ela caiu de R$ 40 para R$ 2,40, mas não está barata.

Qual sua visão sobre criptomoedas?

Bolha, isso vai virar capítulo de livro de bolha. Teve uma criptomoeda esses dias que foi de mais de US$ 100 bilhões de valor para zero [Terra (LUNA)] em um dia. Isso não é para nós. Não vou montar posição vendida em criptomoeda. Como vou calcular o valor disso? Tem uma NFT [token não fungível chamado Bored Ape Yacht Club] que vale uma fortuna. Isso é um absurdo. Uma das maiores bolhas que eu já vi.

A Squadra investe no mercado externo? Como vê a queda das bolsas americanas?

Temos uma proteção no nosso fundo via posição short em S&P 500 apostando que os preços nos mercados desenvolvidos vão sofrer mais que os nossos. Mas não investimos lá fora.

A Squadra tem cotistas estrangeiros. Como eles olham para o Brasil em ano eleitoral?

Nossos investidores são institucionais e quase ninguém quase olha isso aqui. Teve muito fluxo para a Bolsa, mas foi dinheiro de curto prazo.

A eleição é importante, estamos vivendo uma eleição diferente do que vivemos no passado. A última foi muito binária – se ganhasse o Bolsonaro, a Bolsa iria explodir para cima. E, se ganhasse o PT, no caso o Haddad, cairia.

Agora tanto faz, porque não vai ter nada disruptivo, vai ser medíocre com qualquer um dos dois. Esse é o senso comum. Se o Lula ganhar, não vai ter disrupção econômica, e o Bolsonaro vai ser isso aí. Acho que boa parte disso já está no preço.

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