Navegue:
Ações de commodities e de empresas de valor estão entre as preferências de grandes gestores; veja as escolhas para 2022

Ações de commodities e de empresas de valor estão entre as preferências de grandes gestores; veja as escolhas para 2022

Verde, Dahlia e Kapitalo veem oportunidades em ações brasileiras e estão com posição comprada na Bolsa local

ações gestores png
Por:

Compartilhe:

Por:

Grandes gestores de fundos brasileiros começam 2022 com uma visão mais cautelosa para as alocações em Brasil diante da incerteza no cenário político e fiscal e da redução da liquidez no exterior, com o banco central americano se preparando para subir a taxa básica de juros neste ano.

Apesar dos riscos, gestoras como Verde, SPX, Dahlia Capital e Kapitalo veem oportunidades na Bolsa brasileira, dados os preços descontados das ações, com destaque para os de empresas de valor — em estágio mais maduro e que geram caixa –, como do setor de commodities, e de segmentos mais defensivos, como o financeiro.

Para a SPX Capital, que tinha R$ 43,5 bilhões sob gestão em dezembro, a alta das taxas de juros nos mercados desenvolvidos, especialmente nos EUA, é o principal risco nos próximos anos, conforme apontou o sócio-fundador Rogério Xavier, em carta aos investidores do multimercado Nimitz em dezembro. O fundo fechou o ano passado com ganho de 11,71%, contra a variação de 4,4% do CDI.

O Federal Reserve, o banco central americano, sinalizou a possibilidade de pelo menos três elevações da taxa de juros americana neste ano, que podem vir acompanhadas de uma redução do seu balanço, diminuindo a liquidez global.

A manutenção nos últimos anos de políticas monetárias e fiscais estimulativas gerou bolhas nos mercados, que agora precisam passar por uma correção diante da nova realidade da taxa de juros nos EUA.

Entre as classes de ativos que devem sofrer maior impacto, a SPX cita algumas ações do setor de tecnologia, que foram uma das mais subiram nos últimos anos; títulos de empresas de alto risco de crédito; moedas de países emergentes com fundamentos ruins; mercados de títulos emitidos por governos que passaram anos se endividando com juros baixos ou mesmo negativos; e certas commodities, como os metais preciosos.

Para a Ibiuna Investimentos, a redução da liquidez global sugere maior cautela com ativos de risco. No curto prazo, a gestora mantém a aposta na alta de juros nos EUA e na Alemanha no fundo multimercado Ibiuna Hedge, segundo informou em relatório de dezembro. A carteira encerrou 2021 com ganho de 5,58%, também superando a variação do CDI.

Boa parte desse movimento esperado de alta de juros nos EUA, contudo, já está refletido nos preços dos ativos. Além disso, a China vem adotando uma política de estímulos por meio de corte de juros para impulsionar o crescimento. Esse equilíbrio de força das duas maiores potências mundiais é positivo para o crescimento global, segundo a gestora Adam Capital.

“Essas mudanças ratificam que a atividade econômica seguirá forte, sustentável, e que os riscos de retração e inflação deverão estar adequadamente calibrados”, disse a Adam a investidores, na carta de dezembro.

Nesse contexto, a SPX mantém posição comprada em dólar e continua apostando na alta das taxas de juros globais em meio ao patamar elevado de inflação.

Já a Legacy Capital aumentou a posição em ações globais e em petróleo, apostando no fortalecimento da commodity. “O portfólio está calibrado para o cenário base discutido, que envolve estabilização dos casos de Covid e condições cíclicas favoráveis para a economia global”, destacou em carta de dezembro.

A gestora também aumentou a posição vendida em dólar contra o real e na bolsa brasileira, apostando na queda da moeda americana e das ações.

Preços descontados de ações brasileiras geram oportunidades

O preço descontado da bolsa brasileira, que negocia a um múltiplo medido pelo índice preço sobre o lucro abaixo da média histórica de dez vezes, gera oportunidades de investimentos.

“Na média dos últimos 15 anos, quando esse índice fica abaixo de oito vezes, os retornos nos 12 meses seguintes são de 21%”, apontou a Dahlia Capital, na carta de dezembro.

Segundo a gestora, outro fator que deve sustentar o retorno positivo da bolsa brasileira nos próximos 12 meses é o nível já elevado de juro real no Brasil, isto é, descontado a inflação, que está acima de 5%. “Historicamente, quando partimos acima desses níveis, os retornos da bolsa são mais elevados”, disse a Dahlia, na carta.

Apesar da perda com a posições no mercado acionário local, a Verde Asset acredita na recuperação dos preços das ações brasileiras no longo prazo e mantém a posição comprada em Bolsa no país, que respondia por 23,5% do fundo Verde em dezembro. “Acreditamos que, ao manter participação em excelentes companhias, podemos compor capital no longo prazo de maneira importante”, destacou a Verde, em carta aos investidores de dezembro.

A queda do preço das ações no mercado brasileiro, com o Ibovespa recuando quase 12% em 2021, foi o principal fator que prejudicou o desempenho do multimercado Verde, do conhecido gestor Luis Stuhlberger. O fundo registrou em 2021 a segunda perda de sua história, com queda de 1,13%, a pior performance desde 2008.

Ações de crescimento x papéis de empresas de valor

A gestora Kapitalo tem preferido focar nas empresas de valor, especialmente ligadas à demanda externa, como do setor de commodities.

A alta de juros no Brasil aumenta o custo de financiamento e as companhias de crescimento, como de tecnologia, que são mais dependentes de investimentos para crescer, tendem a perder a atratividade para empresas de valor, de setores consolidados e geradoras de caixa.

“Diferentemente de ciclos de aperto financeiro anteriores, as empresas desses setores [de valor] não estão saindo de um ciclo de investimento pesado e, portanto, estão pouco endividadas, em sua maioria pagando aos acionistas dividendos”, afirmou a Kapitalo na carta do fundo de ações Kapitalo Tarkus de dezembro. O veículo encerrou 2021 com queda de 4,99%, contra recuo de 11,93% do Ibovespa.

A gestora segue cautelosa com a demanda doméstica, com exceção do setor de saúde, em que vê oportunidade de crescimento e consolidação. “Mantemos posições abaixo do peso do índice Ibovespa nos setores com múltiplos mais elevados e mais sensíveis à economia doméstica, como consumo discricionário, incorporação imobiliária e tecnologia”, apontou a Kapitalo, na carta.

Já a SPX continua com posições compradas em papéis dos segmentos de transporte e financeiro contra o índice Ibovespa, e mantém posições vendidas em ações de fintechs e de mineração.

A  Ibiuna tem concentrado a carteira do fundo long biased em setores menos dependentes do cenário econômico brasileiro até que a campanha eleitoral comece a ficar mais clara.

Entre as ações em portfólio estavam os papéis da operadora de telefonia TIM (TIMS3), da BB Seguridade (BBSE3), da companhia farmacêutica Hypera (HYPE3) e  da locadora de veículos Locamérica (LCAM3). “São bons exemplos de posições cujas companhias apresentam boas perspectivas para os próximos trimestres e estão com valuations relativamente atrativos”, apontou a gestora, no relatório de dezembro.

Terceira via nas eleições não está no preço, dizem gestores

As eleições no Brasil devem gerar maior volatilidade para os ativos locais neste ano dada a incerteza no cenário político. Para a SPX, a possibilidade de um candidato mais liberal da terceira via engrenar na corrida eleitoral ainda não está refletida nos preços dos ativos e poderia gerar um avanço na agenda de reformas.

Xavier, da SPX, enxerga, contudo, maior chance de o candidato petista Luiz Inácio Lula da Silva ganhar a eleição. “Sem empolgar muito, a candidatura petista parece nos condenar a continuar sem grandes avanços ou reformas”, disse neste mês, em carta aos cotistas.

Leia também:
FMI vê economia do Brasil estagnada em 2022, com o pior desempenho entre principais países

Essa incerteza, segundo a Ibiuna, demanda o reforço da única âncora que restou, a monetária. Com as expectativas de inflação acima da meta, o Banco Central teve que promover uma significativa alta da taxa básica de juros, que deve alcançar dois dígitos em 2022, o que resultou em crescimento econômico ainda mais fraco neste ano.

A Legacy Capital espera queda de 1% do PIB neste ano e vê risco de uma contração ainda maior. A gestora também projeta inflação de 6,3% neste ano, acima do teto da meta, de 5%.

“A flexibilização do teto operacionalizada pela PEC dos Precatórios para acomodar o Auxílio Brasil e a perda relativa de renda dos funcionários públicos federais tenderiam a induzir movimentos da categoria por recomposição salarial”, apontou a gestora, na carta de dezembro.

O governo incluiu previsão de R$ 1,7 bilhão para reajustes salariais do funcionalismo público no Orçamento de 2022, mas cresce a pressão dos servidores de várias categoriais por aumento salarial, o que tem elevado a cautela no mercado com relação ao impacto para a dívida pública.

“O cenário macroeconômico adverso deve seguir contribuindo para a erosão da popularidade presidencial, o que, num ano eleitoral, deve aumentar a pressão por mais ações de cunho populista por parte do governo”, destaca a Legacy na carta.

Nesse cenário, a SPX continua com posição comprada em inflação implícita, alocação dada pela diferença entre as taxas de juros prefixadas e a das NTN-Bs (títulos do Tesouro atrelados à inflação), vendo uma postura mais incisiva do Banco Central em trazer as expectativas de inflação para a meta.

A Ibiuna também vê oportunidade de ganho com inflação implícita. A gestora ainda tem investido em papéis de crédito corporativo em mercados emergentes e no Brasil.

Segundo a gestora JGP, o perfil de crédito das empresas brasileiras melhorou. O índice de alavancagem financeira dado pela dívida líquida sobre o Ebitda das empresas que compõem o Ibovespa caiu do pico de 3,5 vezes em setembro de 2015 para a mínima dos últimos 13 anos no mesmo mês de 2021, encerrando em cerca de uma vez.

O percentual de empréstimos atrasados a mais de 90 dias no balanço dos bancos fechou novembro de 2021 em 2,32%, apenas um pouco acima do menor nível dos últimos dez anos (2,12%, em novembro de 2020).

O fundo de crédito da gestora JGP Corporate encerrou 2021 com ganho de 7,41%.

Compartilhe: