Ata do Fed acentua aversão a risco nos mercados ao sinalizar redução do balanço mais cedo que o esperado, diz economista

Ibovespa aprofunda perdas após ata do BC americano sinalizar alta da taxa de juros antes do previsto

A ata referente à última reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) do banco central americano, o Federal Reserve, em dezembro, trouxe um tom mais “hawkish” (mais inclinado ao aperto monetário) e acentuou a aversão a risco nos mercados, com o dólar ampliando a alta frente às principais moedas e com as bolsas estendendo as perdas.

A ata não só sinalizou que a autoridade monetária pode subir a taxa básica de juros mais cedo que o esperado, como pode começar a reduzir a carteira de ativos no balanço do banco mais rapidamente que no ciclo anterior. “Alguns participantes do mercado destacaram que poderia ser apropriado começar a reduzir o tamanho do balanço do Federal Reserve relativamente logo após começar a subir a taxa de juros”, apontou o Fed, no documento.

Para Cristiano Oliveira, economista-chefe do Banco Fibra, o destaque da discussão foi o enxugamento do balanço do Fed mais rapidamente e mais cedo que no ciclo anterior. No ciclo anterior, o BC americano iniciou o enxugamento do balanço após dois anos da primeira alta de juros, segundo o time de Macro & Estratégia do BTG Pactual Digital.

A injeção de liquidez nos mercados por meio do programa de compra de ativos foi um dos principais fatores que deram suporte para a valorização acima de 20% das bolsas americanas em 2021, e uma redução tende a afetar o apetite dos investidores por ativos de maior risco, como ações e investimentos em mercados emergentes.

Para Oliveira, o Fed deve avaliar o balanço de riscos, que engloba não só o dado da inflação corrente, que em novembro atingiu o maior nível desde 1982, como as expectativas e também o hiato no mercado de trabalho, cuja criação de vagas ainda está abaixo dos níveis pré-pandemia, para decidir quando deve começar a subir a taxa básica de juros. “Esperamos o primeiro aumento da taxa no segundo trimestre, seguido por mais duas altas neste ano, quatro, no ano que vem, e três, em 2024”, diz Oliveira.

Em dezembro, o Fed anunciou a aceleração da redução do programa de compra de ativos – processo conhecido como “tapering“–, de US$ 15 bilhões para US$ 30 bilhões, indicando o fim do programa em meados de março. A maioria dos membros do Fed também indicou esperar pelo menos três elevações da taxa básica de juros em 2022.

O economista do Banco Fibra, contudo, não descarta a possibilidade de o Fed aumentar o ritmo em 2023. “O Fed pode acelerar o passo no ano que vem. Nesse ano acho difícil em função da incerteza sobre o impacto da variante Ômicron na economia”, afirma.

Uma alta mais forte da taxa básica de juros nos EUA pode acentuar a desvalorização do real, que vem de um movimento de depreciação em termos reais desde 2019, diz Oliveira.

Se isso será suficiente para mudar o plano de voo do Banco Central em relação ao ciclo de aperto monetário, vai depender do impacto do câmbio sobre as expectativas de inflação.

A alta dos prêios dos títulos do Tesouro americano também pode trazer uma pressão de alta adicional para as taxas de juros mais longos no mercado local, diz Oliveira.

No Brasil, o Ibovespa acentuou queda após a divulgação da ata do Fed, passando de 1,50% para 2,35% pouco antes do fechamento, enquanto o dólar subiu de R$ 5,7068 para fechar em R$ 5,7161.

No mercado de juros futuros, as taxas dos contratos de DI com prazos mais longos subiram acompanhando a alta da taxa do título americano de 10 anos. O DI para 2027 avançou de 11,12% para 11,17%.

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