Como um país quase desértico pretende alimentar 120 milhões de pessoas com um plano bilionário

As dunas ao redor das Pirâmides de Gizé e as areias no entorno do Vale dos Reis representam muito mais do que uma paisagem para os egípcios. Elas encobrem 96% do território de um país dependente da importação de alimentos para abastecer uma população de quase 120 milhões de pessoas.
Para contornar a escassez, a solução encontrada pelo governo do Egito é ambiciosa: investir US$ 15 bilhões para transformar 924 mil hectares de áreas desérticas em terras produtivas.
Batizado de Novo Delta, o projeto pretende ampliar a produção agrícola e reduzir a dependência alimentar do país.
Na prática, seria como converter em lavouras uma área mais de seis vezes maior do que a cidade de São Paulo. O espaço deverá ser usado principalmente para o cultivo de trigo e milho, além de frutas, vegetais e ervas.
A iniciativa começa a sair do papel em um momento crítico. Enquanto as áreas férteis do Egito encolhem cerca de 2% ao ano desde os anos 1990, a população do país deverá crescer de 120 milhões para 165 milhões de habitantes até 2050.
O plano do Egito
O Novo Delta prevê a construção de um corredor hídrico de 114 quilômetros, um pouco maior que a distância entre São Paulo e Campinas, formado por canais artificiais e tubulações subterrâneas e de superfície.
Seria como um rio artificial. Parte dessa estrutura, inclusive, já foi concluída e está em operação desde 2024.
Ao longo desse corredor, a água do rio Nilo será transportada por mais de 20 estações de bombeamento até a estação de tratamento de Al Hammam, considerada pelo governo egípcio a maior do mundo em reciclagem de água.
Depois de tratada, a água será distribuída por sistemas de irrigação, que abastecerão as novas lavouras com apoio de reservas subterrâneas.
Com isso, a área agrícola do Egito passaria dos atuais 3,97 milhões de hectares, pouco menos que o estado do Rio de Janeiro, para 6,3 milhões de hectares.
Ilustração do projeto Novo Delta. Imagem: Governo do Egito/Gerada por IA.
Por meio do Novo Delta, o governo do Egito estima obter parceria com cerca de 150 empresas e gerar por volta de 5 milhões de empregos.
Um país grande, mas ainda dependente
O projeto do Egito para ampliar a produção agrícola doméstica refletem a forte dependência do país de alimentos importados. Atualmente, cerca de 40% da demanda alimentar egípcia é atendida por compras no exterior, segundo a FAO.
A vulnerabilidade é particularmente evidente no trigo. Em 2025, o país importou 13,3 milhões de toneladas do cereal para suprir uma demanda anual de aproximadamente 20 milhões de toneladas, de acordo com dados da agência Fastmarkets.
Boa parte dessa dependência estava concentrada em Ucrânia e Rússia, responsáveis por 82% das importações egípcias de trigo entre 2017 e 2022, segundo a Reuters.
Com a guerra entre os dois países, o Egito foi obrigado a buscar fornecedores alternativos e passou a pagar cerca de 40% a mais pelo produto.
Já em relação aos demais alimentos, o Egito importou 15 milhões de toneladas em 2024, desembolsando cerca de US$ 19 bilhões, segundo dados do governo.
Para um país onde a população cresce mais rápido do que as áreas férteis, aumentar a produção local tornou-se uma questão de segurança alimentar.
Atualmente, 95% da população reside em apenas 4% do território egípcio, concentradas ao longo do rio Nilo. Imagem: Wikimedia Commons.
*Sob supervisão de Ricardo Gozzi.
The post Como um país quase desértico pretende alimentar 120 milhões de pessoas com um plano bilionário appeared first on Seu Dinheiro.




























