O risco da blusinha: roupas da Shein estão ainda mais baratas, e desafio para Renner (LREN3), C&A (CEAB3) e Riachuelo (RIAA3) fica maior

As roupas da Shein estão ainda mais baratas para os brasileiros, enquanto Renner (LREN3), C&A (CEAB3) e Riachuelo (RIAA3) viram os preços subirem. Segundo relatório do BTG Pactual, que compara 72 mil itens à venda em todos esses sites, o ambiente que já era difícil ficou ainda mais competitivo.
"A leitura clara é que a vantagem de preço da Shein aumentou", dizem os analistas no relatório.
Esse é a segunda edição do relatório sobre preços de vestuário no Brasil do banco. São analisadas 11 categorias de vestuário, como blusas, calças, jeans, vestidos, saias e outros, disponíveis nas quatro varejistas, com mais de 72 mil itens avaliados.
Na Shein, o custo da cesta de produtos analisados caiu de R$ 939 em junho para R$ 756 em agosto. Já no varejo nacional, essa cesta ficou em R$ 1.344, ante R$ 1.427 há dois meses.
A C&A está com os maiores preços, em uma média de R$ 1.439,90, e Renner logo atrás, com R$ 1.327. A Riachuelo, que em junho tinha a cesta mais cara, ficou em terceiro, com um preço médio de R$ 1.265,90 ao considerar todos os produtos.
Ou seja, preencher seu guarda-roupa com produtos da Shein é 44% mais barato do que comprar nas varejistas nacionais — em junho, essa diferença ficou em 34%.
No entanto, é importante notar que essa cesta da Shein não distingue entre os produtos que vêm do exterior e os vendidos por vendedores locais. As tarifas de importação também não estão incluídas, bem como o valor do frete.
O BTG também destaca que essa é uma análise de preço e não de participação de mercado.
A taxa das blusinhas e o IPO da Shein
Essa competição mais acirrada por preço vem em um momento em que a Shein ganha ainda mais poder de fogo, no Brasil e no mundo.
Em maio, o governo federal decidiu zerar o imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50, conhecida como “taxa das blusinhas”. "A forte aceleração dos volumes de importação confirma que a redução da tributação rapidamente reacendeu a demanda por compras internacionais", diz o relatório.
Mesmo com essas constatações, a análise de agosto demonstra como a pressão para as varejistas locais de moda está cada vez maior.
A gigante chinesa está se preparando para um IPO, buscando uma faixa de avaliação de US$ 25 bilhões a US$ 28 bilhões. É um quarto do que ela já valeu no auge: US$ 98,2 bilhões, em uma rodada privada de investimentos em 2022.
A listagem em Hong Kong deve consolidar a Shein como uma das maiores varejistas de moda do mundo. Em vez de tentar competir apenas por preço, as varejistas brasileiras terão de acelerar o desenvolvimento de produtos, fortalecer suas marcas, investir em canais integrados de venda (omnichannel), ampliar o uso de inteligência artificial para personalização e melhorar a experiência do consumidor.
O efeito da Shein nos resultados das varejistas nacionais
E essa pressão já apareceu nos resultados das empresas. A guerra de preços mais forte piora a situação para as varejistas, que já vêm sofrendo com taxas de juros altos e menos renda disponível para gastos extras, com dívidas e inadimplência em alta e crescimento das apostas em bets.
Com a mudança na "taxa das blusinhas", as empresas de moda viram a concorrência aumentar ainda mais, mas mantiveram o foco na rentabilidade, sem entrar na guerra de preços promocionais.
A Lojas Renner (LREN3) teve um resultado fraco no segundo trimestre, com vendas em lojas já estabelecidas praticamente estáveis. Mas o maior problema é que essa fraqueza contaminou os resultados do ano, e a empresa cortou o guidance para 2026.
Para o CEO da Lojas Renner, Fabio Faccio, a Copa do Mundo, bets e o fim da taxa de importação afetaram os resultados.
Já a C&A viu o lucro líquido cair 11% e Ebitda praticamente estável. A companhia reiterou que não pretende sacrificar margens e que busca se diferenciar pelos seus produtos, qualidade e proposta de valor.
Por fim, a Riachuelo bateu recordes de lucro e margens, embora ainda ligeiramente inferiores a de seus concorrentes. Segundo o CFO Miguel Cafruni, o resultado veio da consistência de sua estratégia.
A Riachuelo está respondendo ao fim da taxa de importação com tecnologia, inteligência de precificação e verticalização, com a ajuda de sua fábrica própria, de acordo com o banco.
"Os comentários da administração sobre o aumento da atividade de compras transfronteiriças (cross-border) e sobre um ambiente de consumo mais fraco sugerem que a pressão sobre preços está se tornando uma variável cada vez mais relevante a ser monitorada", diz o BTG em relatório.
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