Após dois meses de saída de investimentos estrangeiros da Bolsa brasileira, o fluxo “gringo” no mercado secundário de ações voltou a ficar positivo em junho, com as compras superando as vendas em R$ 427 milhões no período.
Já os gestores de fundos locais continuam pessimistas com alocação em Bolsa, e registraram saque líquido de R$ 9,06 bilhões, enquanto que as pessoas físicas ficaram no azul em R$ 3,5 bilhões, acima dos R$ 2,61 bilhões registrados em maio.
Olhando os dados do mercado primário, também houve forte entrada de investidores estrangeiros nas ofertas de ações: o saldo ficou positivo em R$ 12,6 bilhões até 29 de junho, segundo dados da B3.
A volta das emissões de ações, que somaram R$ 35,1 bilhões em junho em três operações, sendo a maior delas a da Eletrobras (ELET3), e os preços descontados dos papeis das empresas brasileiras contribuíram para atrair o capital externo para a Bolsa.
Para o segundo semestre, contudo, o risco de recessão global, a alta de juros nos EUA e as incertezas no cenário político e fiscal no Brasil podem reduzir o fluxo de recursos para o país.
Para o analista da Necton, Rodrigo Barreto, a Bolsa tem atraído fluxo estrangeiro porque ainda está com múltiplos historicamente descontados. Enquanto isso, as bolsas americanas, apesar de registrarem a maior queda desde 1970, com recuo de 20,58% do S&P 500 no primeiro semestre, ainda estão negociando acima dos patamares pré-pandemia.
“A Bolsa brasileira hoje negocia cerca de 10% abaixo do nível pré-pandemia, mesmo com as empresas tendo apresentado aumento de lucros”, avalia.
Segundo o JP Morgan, as bolsas de mercados emergentes negociam com desconto de 29% (quando se olha para o múltiplo preço sobre lucro projetado para 12 meses) em relação aos mercados desenvolvidos. Esse percentual de desconto está acima da média histórica, de 22%.
O banco está com recomendação acima da média do mercado (overweight) para a Bolsa brasileira e vê potencial para as ações alcançarem as máximas vistas no primeiro semestre, quando o Ibovespa atingiu um pico de 121.570 pontos em 1º de abril. Mas essa recuperação só será alcançada após as eleições, segundo a instituição financeira.
Barreto destaca que o Brasil está se aproximando do fim do ciclo de alta de juros, enquanto lá fora os bancos centrais ainda estão subindo as taxas, o que aumenta a pressão sobre as ações nos mercados desenvolvidos.
Além disso, com a guerra na Ucrânia, o Brasil passou a ser um dos mercados emergentes mais atrativos, dado o envolvimento da Rússia no conflito e os impactos com a política de Covid zero sobre a economia chinesa.
No ano, o saldo de investimentos estrangeiros na Bolsa está positivo em R$ 51,9 bilhões no mercado secundário. Boa parte desse fluxo foi para ações de empresas de commodities e bancos, com grande concentração no índice Ibovespa, afirma Barreto.
“A tendência é do fluxo positivo de estrangeiro para a Bolsa se manter, mas de forma mais moderada diante da eleição e do risco fiscal mais elevado no Brasil”, diz.
Risco fiscal e eleição devem impactar fluxo para Brasil
Apesar da forte entrada de investimentos estrangeiros para a Bolsa no primeiro semestre, que limitou uma queda maior do Ibovespa, o gestor da estratégia macro da Claritas Investimentos, Damont Carvalho, vê um potencial de redução desses recursos para o Brasil no segundo semestre diante da incerteza eleitoral e da alta de juros nos Estados Unidos e na Europa.
“Para ter um novo fluxo de capitais estrangeiro para a Bolsa brasileira, precisamos de uma agenda clara do novo presidente, que sinalize um viés mais pró-mercado e a favor de reformas, além da indicação do crescimento do Brasil no médio prazo”, diz Carvalho.
O gestor da Claritas vê uma desaceleração do crescimento em 2023 para perto de 1% – para este ano, a expectativa é de uma alta de 1,5% a 2% no PIB (Produto Interno Bruto).
Para Barreto, da Necton, o que mais preocupa o investidor estrangeiro é o risco fiscal. A aprovação da PEC dos Combustíveis no Senado, que prevê um gasto de R$ 41 bilhões fora do teto de gastos (mecanismo que restringe o aumento de despesas do governo à inflação do ano anterior), aumentou ainda mais a preocupação do mercado com o quadro fiscal.
“Em relação à eleição não vejo grande impacto, dado que não tem um risco de rompimento institucional”, diz. O risco de acordo com ele, é de a PEC abrir uma porta para mais aumentos de gastos do governo em ano eleitoral.
Local mais pessimista que estrangeiro
Já os gestores de fundos brasileiros estão mais pessimistas com as alocações em Bolsa desde o início do ano, e o crescimento da preocupação fiscal com o anúncio da PEC dos combustíveis aumentou ainda mais esse ceticismo.
“O investidor local já estava mais pessimista que o estrangeiro e a aproximação da eleição aumenta ainda mais a incerteza. Já o investidor estrangeiro está procurando alfa [retorno adicional] ao redor do mundo”, diz Vinicius Alves, estrategista-chefe da Tullett Prebon.
Para Barreto, da Necton, os investidores institucionais brasileiros estão reduzindo posição porque tiveram saques no período: os fundos de ações e multimercado registravam resgate líquido de R$ 4,5 bilhões e R$ 4,3 bilhões, respectivamente, em junho até o dia 28.