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Com escudo contra calotes, bancos não baixam guarda e esperam crescimento; veja análise

Com escudo contra calotes, bancos não baixam guarda e esperam crescimento; veja análise

Passada a temporada de balanços do setor bancário, as cartas estão dadas e as expectativas, traçadas

Com a alta capacidade de pagamento dos consumidores, os últimos dois anos foram bons para os bancos. E agora?

Foto: Shutterstock

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Atípica. Esta é a definição dos últimos dois anos da economia brasileira. Enquanto 2020 marcou a chegada da maior pandemia do último século, o ano seguinte foi inundado por políticas de incentivo monetário, beneficiando balanços de bancos no Brasil e no mundo. 

Com a alta capacidade de pagamento dos consumidores, puxada pela liquidez financeira, os bancos viram suas carteiras de crédito crescerem de forma consistente, acompanhada por calotes tímidos. 

Afinal, esse era o incentivo do governo. O fomento para a atividade econômica e, em grau também relevante, a garantia da subsistência de parte da população, porém, não se repetirá em 2022. 

Passada a temporada de balanços do quarto trimestre de 2021 do setor bancário, as cartas estão dadas e as expectativas, traçadas. 

A maior parte dos bancos brasileiros mantém o radar alerta neste ano, com a possibilidade de desaceleração das boas marcas atingidas em 2021. Entre elas, estão o crescimento da carteira de crédito e os patamares dos índices de inadimplência, cuja tendência é de alta. 

Enquanto o Banco do Brasil tem fortes garantias nos empréstimos e o Itaú ultrapassou a marca de R$ 1 trilhão na carteira de crédito, o Bradesco e o Santander terão que mostrar que as coberturas mais enxutas darão conta do cenário econômico desafiador em 2022.

No dia seguinte à divulgação de cada um dos balanços, as ações do BB subiram 4,74%; o Itaú teve alta de 5,91%; ao passo que o Bradesco tombou 8,58% e o Santander recuou 2,99%.

PROJEÇÕES REFINITIV/2022 RECOMENDAÇÕES COMPRA MANTER VENDA ALVO MEDIANO UPSIDE 
ITAÚ 16 11 5 0 R$ 31 17%
BRADESCO 15 13 2 0 R$ 29 38%
SANTANDER 15 4 10 1 R$ 42,50 33%
BANCO DO BRASIL 16 12 4 0 R$ 44 32%

Banco do Brasil

Em termos de operações e qualidade de crédito, o Banco do Brasil (BBAS3) foi a grata surpresa do trimestre entre os bancos. A companhia conseguiu expandir todas as linhas de seu balanço – inclusive as despesas. 

O índice de inadimplência acima de 90 dias ficou em 1,75%, o menor da indústria. Enquanto isso, a cobertura para os contratos deste mesmo período atingiu em 325%, 77,2 pontos percentuais acima da média do setor. 

Essa segurança abriu caminho para o banco reduzir a PCLD (Provisão para Créditos de Liquidação Duvidosa), que foi de R$ 3,8 bilhões no quarto trimestre, queda de 26,5% na comparação com o mesmo período anterior. No acumulado de 2021, as provisões somaram R$ 13,1 bilhões.

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A carteira de crédito do BB saltou 17,8%, para R$ 874,9 bilhões, na comparação entre dezembro de 2020 e dezembro de 2021. 

O Banco do Brasil prevê um crescimento de 8% a 12% de sua carteira em 2022, ritmo levemente mais devagar que os demais grandes bancos, mas ainda assim representaria um sólido avanço. 

Para a instituição, o cenário econômico é desafiador e prevê mais riscos à tomada de crédito, mas a carteira está bem defendida, afirma.

Uma característica importante é que a carteira da instituição tem forte presença do agronegócio, setor econômico que tem tido bom desempenho, chova ou faça sol, mantendo, assim, a capacidade de pagamento.

Além disso, a carteira de crédito do banco também é banhada ao crédito consignado, com grande participação de funcionários públicos. 

O BB tem 20% de market share nesta categoria, que equivale a 12% de toda a carteira de crédito do banco. As operações colaterizadas, com garantia de pagamento, trazem segurança adicional à instituição. 

Dentre os grandes bancos, o Banco do Brasil parece ser o mais conservador em suas premissas para este ano, embora seja o mais preparado para poder conceder mais crédito e suportar uma normalização das taxas de inadimplência. 

As ações da instituição estatal, respondendo a essa solidez, sobem mais de 20% em 2022.

Itaú

O Itaú (ITUB4) foi um dos destaques do setor bancário no quarto trimestre de 2021. O maior banco do Hemisfério Sul superou as expectativas dos investidores e apresentou fortes números, com crescimento sólido em todas as linhas de negócio.

As atenções, porém, ficaram voltadas à operação de crédito da companhia. A carteira desse segmento ultrapassou o patamar de R$ 1 trilhão, avanço de 45% em dois anos, com a melhor diversificação dos produtos e maior margem com os clientes.

Os índices de inadimplência, que demonstram a qualidade do crédito do banco, permaneceram comportados. O NPL (crédito não produtivo, na sigla em inglês) de 90 dias – e que não deve gerar mais retorno – ficou em 2,5%, queda de 0,1 ponto percentual na comparação com o mesmo período de 2020.

O banco, que sempre mostrou-se conservador nas projeções micro e macroeconômicas – haja vista a estimativa de retração do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro em 0,5% neste ano – surpreendeu os investidores com a projeção de crescimento contínuo em 2022.

Em meio ao cenário econômico mais duro, mas com risco recompensador, o Itaú mostrou em seu guidance que prevê um avanço de 9% a 12% na carteira de crédito total. 

Caso o centro da previsão seja atingido, com crescimento de 10,5%, a carteira consolidada terminaria o ano em R$ 1,13 trilhão. 

O banco argumenta que a visão audaciosa, bem acima dos 6,7% que a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) estima para o mercado, é possibilitada pelas sólidas coberturas e provisões da instituição e capacidade de pagamento ainda elevada com a poupança acumulada. 

O Itaú está certo em prometer isso aos investidores? A tendência econômica é que sim. Com o nível de desemprego ainda elevado e a liquidez emergencial da pandemia interrompida, os clientes do banco tendem a fazer mais uso do cartão de crédito, crédito pessoal e crédito consignado para dar conta do dia a dia.

Essas três linhas juntas equivalem a 21,1% da carteira consolidada da instituição e mais de um quarto da carteira de crédito do Itaú no Brasil. Outras linhas como crédito imobiliário e de veículos, que trazem um relacionamento de médio e longo prazos do cliente com a instituição, devem cair, mas têm menor participação.

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Dado o processo de alta da taxa básica de juros da economia, a margem com clientes deve crescer, com a trajetória do spread bancário favorável ao banco. A previsão de crescimento dessa margem entre 22% e 25% no Brasil é factível com o cenário. 

Os índices de inadimplência também devem voltar a crescer, mas chegando ao patamar anterior à crise do coronavírus, com a normalização econômica. O Itaú voltará ao jogo da economia brasileira no pós-pandemia mais robusto. 

As ações do Itaú sobem pouco menos de 25% no acumulado de 2022, destaque do setor bancário na Bolsa. Um ano atrás, porém, os papéis negociavam próximos do mesmo patamar.

Bradesco

No Bradesco (BBDC4), o crédito é visto como uma alavanca ou o freio do crescimento do banco. 

Entre dezembro de 2020 e dezembro de 2021, a carteira de crédito expandida da instituição aumentou 18,3%, para R$ 812,7 bilhões. O índice de cobertura para mais de 90 dias caiu de 402,8% para 260,8%, com o patamar para os contratos renegociados recuando mês após mês. 

Com a perspectiva do aumento do risco de crédito, dadas as linhas mais agressivas que devem ser mais demandadas ao longo do ano, a conjuntura do banco mostra que algumas provisões devem ser adicionadas, o que prejudica o resultado líquido aos acionistas. 

O saldo de PDD (Provisão para Devedores Duvidosos) terminou dezembro em R$ 45,2 bilhões, o maior patamar desde o primeiro trimestre de 2021. A relação entre PDD Expandida e a carteira expandida também voltou ao maior nível desde março do ano passado, de 2,1%. 

O índice de inadimplência para atrasos acima de três meses ficou em 2,8%, o maior patamar desde dezembro de 2019.

Se por um lado a expectativa dos investidores é a de que novas provisões sejam criadas, dado o crescimento da carteira de crédito e queda dos índices de cobertura, por outro o Bradesco quer manter a liderança no segmento de veículos e seguir expandindo a atuação no setor rural. 

Em financiamentos de veículos, o market share do Bradesco atingiu 15,9%, 2,6 pontos percentuais acima do patamar de dezembro de 2020.

Nesse segmento, os produtos do banco combinam tudo o que gira em torno do carro do cliente, como financiamento de IPVA, seguro e blindagem, fazendo a instituição surfar o aquecimento do mercado de veículos usados.

O saldo da carteira é de R$ 56 bilhões, sendo que apenas 40,5% é ligado a pessoas físicas. O volume, porém, ainda é pouco relevante para os negócios de crédito da companhia. 

Nos últimos 12 meses, as ações do Bradesco recuam cerca de 8%. Neste ano, por outro lado, ainda sobem pouco menos de 8%. 

Santander

Logo na teleconferência de resultados do quarto trimestre, o Santander (SANB11) assumiu que a qualidade do crédito deve piorar ao longo dos próximos trimestres. 

De acordo com os executivos do banco, essa deterioração deve acontecer de forma gradual, com os níveis de crédito e inadimplência voltando ao patamar de 2018 e 2019 após dois anos de patamares positivos sem precedentes na economia brasileira. 

O índice de inadimplência de curto prazo, entre 15 e 90 dias, do Santander ficou praticamente estável no quarto trimestre do ano passado, em 3,5%. Já o indicador acima de 90 dias, subiu 0,3 ponto percentual, para 2,7%.

O patamar ainda é considerado saudável, abrindo margem para o banco correr mais riscos, com a diminuição do índice de cobertura de 297%, em dezembro de 2020, para 220%, no último mês do ano passado. 

De acordo com Sergio Rial, que ocupava a cadeira da presidência até o fim do ano passado, o Santander permanece preparado para lidar com as intempéries econômicas deste ano, pois 67% dos empréstimos a pessoas físicas possuem garantias de pagamento. 

A performance sólida do banco, por mais que tenha sido vista com ceticismo pelo mercado, coloca o Santander em rota de crescimento assim como seus pares. 

O ROAE (Retorno Sobre Patrimônio Líquido Médio) da instituição atingiu 21,2% em 2021, o segundo maior patamar da história do banco. O que não vai para o investimento em canais digitais, onde o Santander está cada vez mais presente, volta aos investidores na forma de dividendos. 

As ações do Santander ainda custam a acompanhar a visão positiva dos executivos do banco.

As units SANB11 sobem cerca de 4% no ano e caem aproximadamente 18% nos últimos 12 meses, tendo o pior desempenho dentre os bancos nos mesmos períodos.

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