Pode parecer estranho dizer que bancos tradicionais, como Itaú e Bradesco, estão correndo atrás das fintechs. Afinal de contas, são eles que enfileiram lucros bilionários há décadas e contam com um patrimônio de fazer inveja a qualquer empresa de qualquer setor, enquanto as instituições financeiras digitais ainda precisam provar a investidores que são companhias capazes de operar no azul.
Por outro lado, fintechs como Nubank e Inter têm dado uma aula aos bancos quando o assunto é atrair novos clientes e lançar produtos de sucesso. Ao longo da última década, dezenas de milhões de brasileiros se renderam às facilidades oferecidas por elas, como contas digitais fáceis de serem abertas, cartões de crédito sem anuidade e empréstimos aprovados em minutos, enquanto bancões acompanham as novidades do mercado sem conseguir se mexer na mesma velocidade.
O ano de 2022, porém, deve trazer um cenário mais favorável aos bancos tradicionais, segundo analistas ouvidos pela Agência TradeMap. Não só porque as fintechs já não conseguem crescer com tanta rapidez e devem passar por um período de consolidação, mas também porque os investimentos feitos pelos bancos em tecnologia e os esforços para reduzir custos devem gerar frutos mais visíveis em 2022.
A conjuntura econômica, de juros mais altos, também favorece os bancões, porque as fintechs, em geral, são empresas que precisam se financiar no mercado para conseguir acelerar a expansão. Quando os juros sobem, a captação de novos recursos com investidores se torna mais cara. De 2020 para cá, a taxa básica de juros do Brasil, a Selic, saiu de 2% ao ano para 9,25% e deve continuar a subir em 2022, segundo as projeções do mercado.
Além disso, os bancos tradicionais, por terem negócios mais robustos de concessão de crédito, se beneficiam do avanço do juros, que viabiliza trabalhar com margens maiores. Para as fintechs, o aumento da Selic também representa um desafio a mais para lidar com o esperado crescimento da taxa de inadimplência, uma vez que essas instituições estão menos acostumadas a lidar com os ciclos negativos da economia.
“A taxa de juros cresceu muito rápido. Talvez fique mais difícil para as novas empresas aparecerem, esses novos unicórnios [startups que crescem e passam a valer mais de US$ 1 bilhão]”, afirmou, ao TradeMap, o diretor sênior da Fitch Ratings, Claudio Gallina.
Com isso, as fintechs, que no passado formavam a maioria dos unicórnios brasileiros, começam a ter menor participação entre as grandes startups que despontam.
Em 2021, das dez novas empresas que se tornaram unicórnios no país, apenas duas eram fintechs: Mercado Bitcoin e CloudWalk. Em 2020, haviam sido três: C6 Bank, Creditas e Ebanx.
Nesse ambiente, as fintechs que largaram na frente também deve reduzir o ritmo de expansão. O próprio Nubank, por exemplo, já mostrou essa tendência no ano passado. A companhia, que ao longo de 2020 viu sua base crescer cerca de 50%, teve uma expansão de 37% em 2021, para 48 milhões de usuários.
Aos poucos, porém, a empresa começa a mostrar que é sustentável do ponto de vista financeiro, até mesmo como resultado do amadurecimento da sua base de clientes, que estão se tornando mais “antigos” e mais engajados.
No primeiro semestre do ano passado, a empresa anunciou seu primeiro lucro para o período, de R$ 76 milhões, meses antes de realizar o seu IPO em Nova York, em dezembro. A expectativa do mercado, agora, é pelo primeiro balanço que o Nubank vai divulgar após ter aberto capital.
Não quer dizer, é claro, que a empresa vai estacionar. Segundo as previsões de alguns dos principais bancos globais que acompanham a ação da empresa e com participação na coordenação do IPO, o Nubank deve superar a marca de 100 milhões de usuários ao longo dos próximos cinco anos, mas, claro, a taxas de expansão mais lentas.
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Briga acirrada
Além de acirrar a disputa dos bancos digitais e tradicionais, o ano de 2022 deve consolidar as “fintechs vencedoras” na briga entre os gigantes.
O Itaú BBA, o banco de atacado do Itaú Unibanco, publicou um relatório na última terça-feira (25) em que sustenta essa posição. “O ano será desafiador em muitas frentes, desde custos de financiamento até a inadimplência do consumidor. Acreditamos que essas pressões induzirão muitos bancos digitais a se consolidarem, diminuindo a captação de clientes, e adotando abordagens mais segmentadas e focando internamente”, diz a nota.
Os analistas da instituição também acreditam que 2022 será um ano de melhores ganhos e temas mais favoráveis para grandes bancos, em oposição aos players digitais.
Fabrício Winter, sócio da consultoria Boanerges & Cia, divide a linha do tempo na disputa entre serviços bancários pelos bancos tradicionais e fintechs em três momentos. No primeiro, os bancões olharam para as entrantes e acreditaram que poderiam ser uma ameaça, mas, pelas suas estruturas já consolidadas, não se preocuparam com isso.
No segundo momento, começaram a ver as fintechs no mesmo ecossistema, podendo fazer parcerias e administrar a situação. Hoje, os bancos começam a enxergar perdas no mercado para essas empresas, o que causa uma movimentação e um aumento nos investimentos para se colocarem em patamares de igualdade em algumas searas competitivas.
Onde um ganha, o outro perde. Por enquanto…
Winter assinala que os serviços financeiros possuem três pilares: rentabilidade, estrutura e produto. “Os bancões, de uma forma geral, sempre investiram muito em infraestrutura própria, não para prover para o mercado, mas para ter isso como base. Eles também sempre se destacaram por terem um portfólio completo de produtos e um amplo canal de distribuição”, afirma.
Ele complementa dizendo que, no caso dos bancos digitais, como nascem “do zero”, eles não conseguem ser bons nos três itens, e devem escolher um. “Dificilmente, a fintech nasce boa em distribuição. Por isso, o seu diferencial de mercado é o produto, inovando na experiência e na customização”, ressalta.
Para Mariana Pereira, analista sênior da Fitch Rating, por serem gigantes, bancos tradicionais oferecem uma gama de produtos mais ampla. “Nisso, as fintechs atacaram em pontos específicos em que viam alguma ineficiência, ou em que o preço do produto era muito caro. Acho que um dos primeiros segmentos que vimos nessa competição foi a aquisição de novos clientes”, afirma Pereira.
No terceiro trimestre de 2021, os cinco maiores bancos do varejo brasileiro – Itaú (ITUB4), Banco do Brasil (BBAS3), Bradesco (BBDC3), Caixa Econômica Federal e Santander (SANB3) – apresentaram, somados, lucro líquido de R$ 26,2 bilhões, um aumento de 36% no ano.
É nesse ponto que mora um dos grandes desafios das fintechs: dar lucro. O Nubank só conseguiu operar no azul no oitavo ano de existência. O Banco Inter registrou lucro líquido de R$ 19,2 milhões no terceiro trimestre de 2021, longe do valor projetado pelos analistas consultados pela Refinitiv à época, de R$ 34 milhões. No ano anterior havia tido prejuízo de R$ 8,060 milhões.
Com dinheiro em caixa, fica mais fácil investir em novas tecnologias e novos serviços, em que as fintechs se destacam. Porém, os bancos tradicionais terão que suar para fazer bem-feito nesse mundo digital.
Bancos tradicionais “virando fintechs”
Para Pereira, da Fitch Ratings, os bancos precisam agilizar a atração de novos clientes e modernizar os produtos, principalmente em relação aos cartões e em opções de investimentos.
Nos últimos anos, houve algumas movimentações nesse sentido. Em 2017, o Itaú se juntou à XP (XPBR31) para reforçar sua presença no universo dos investimentos. Em 2020, começou a se desfazer da parceria, mas continua a oferecer serviços do setor, além de ter criado um banco digital, o Iti.
Contudo, a sensação do mercado é de que essas iniciativas não estão completamente maduras. Para Winter, da consultoria Boanerges & Cia, o Bradesco, apesar de ter um perfil mais “tradicional” dentre as instituições, consegue prosperar com o Next, com uma alta gama de clientes e uma melhor experiência. O Next e o Iti possuem 10 milhões de clientes cada.
Segundo uma pesquisa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) de 2021, os investimentos em tecnologia cresceram 8% em 2020. Inteligência artificial, segurança cibernética e trabalho remoto são as prioridades destacadas pelos bancos.
O montante total desses investimentos foi de cerca de R$ 26 bilhões, dos quais R$ 9 bilhões são focados em machine learning, e outros serviços analíticos. “É muito interessante ver que os bancos tradicionais têm muita capacidade. Por mais que para algumas coisas eles sejam um pouco resistentes à mudança, podem desenvolver novos produtos e competir com essas fintechs”, afirma Pereira, da Fitch Ratings.
Pandemia
A crise gerada pela Covid-19 acelerou parte dessa transformação digital. Até o terceiro trimestre de 2021, os grandes bancos fecharam 1,8 mil agências em 12 meses.
Winter, da Boanerges & Cia, afirma que as medidas restritivas de mobilidade instauradas pelos governos “forçaram” boa parte da população a ir para o mundo digital, e mexeu com uma questão histórico-cultural de frequentar as sedes físicas dos bancos.
“A pandemia colocou as pessoas numa situação em que não era nem aconselhável sair de casa. Com isso, acabou trazendo um estímulo para utilizar os aplicativos. Eu costumo brincar: uma vez que você tira a pessoa da fila da lotérica, você não a coloca de novo lá”, comenta.
Esse movimento beneficiou as fintechs, que já são nativas digitais, porém também trouxe vantagens para os bancões, que já vinham num movimento de fechar agências desde antes da pandemia. Em 2020, foram fechadas 1,3 mil unidades. Em 2019, antes das medidas restritivas de mobilidade, 430.
E o futuro?
Gallina, diretor sênior da Fitch, vê uma movimentação de aquisições e parcerias entre fintechs, que ajuda mais ainda nessa consolidação de alguns players. “Uma coisa que a gente começa a ver agora também são as pequenas empresas se juntando. Com isso, essas fintechs podem se ajudar em escalabilidade, por exemplo.”
No futuro, o executivo acredita que a disputa acontecerá entre bancos grandes, além das fintechs que se consolidarem, e avalia que quem sairá vitorioso são os clientes. “Os bancos grandes, vendo seus concorrentes tomando uma série de medidas para se proteger das fintechs, terão que correr atrás. Se não, vão perder os clientes para outro bancão, pois esse outro está ‘virando uma fintech'”, finaliza.