Word, PDFs e código: como o Banco Master fabricou documentos falsos, segundo a PF
A Polícia Federal descreveu uma espécie de linha de montagem digital dentro do Banco Master. Segundo relatório técnico-pericial cujo conteúdo veio a público nesta segunda-feira (14), funcionários combinavam dados reais de clientes, programação, ferramentas do Microsoft Office e edição de PDFs para produzir documentos em escala. O objetivo era sustentar no papel a existência de uma carteira de crédito consignado atribuída à Tirreno Consultoria.
Crédito consignado é o empréstimo com desconto direto na folha de pagamento ou no benefício do INSS. Cessão de crédito é a venda dessa carteira de empréstimos para outra instituição, que passa a receber os pagamentos dos devedores.
Segundo a investigação, a Tirreno funcionou como empresa de fachada. Ou seja, uma companhia criada apenas para dar forma jurídica a negócios que não existiam de fato. Por meio dela foram formalizados R$ 7,15 bilhões em cessões fictícias de crédito consignado com o Banco Master. O banco então usou essas carteiras sem lastro para vendê-las ao Banco de Brasília, o BRB.
Na sexta-feira (11), a Polícia Federal já havia concluído que houve fraude na compra de R$ 1,75 bilhão em carteiras do Master pelo BRB.
O documento que expôs a linha de montagem
A estrutura foi reconstruída a partir de uma apresentação interna apreendida na área de tecnologia do Banco Master. O arquivo se chamava “Investigações internas Banco Master”, tinha 30 slides e registrava atividades executadas entre 18 de junho e 24 de outubro de 2025.
O material mostra uma operação em etapas. Primeiro, dados reais eram extraídos dos sistemas do banco. Depois, esses dados alimentavam documentos produzidos em lote. Páginas de assinatura eram separadas de arquivos antigos e reaproveitadas. Datas capazes de revelar a origem eram apagadas. Por fim, tudo era reunido em um único PDF por operação.
Dados reais de clientes viraram matéria-prima
O ponto de partida eram informações de clientes que já haviam feito operações legítimas, inclusive no CredCesta, produto de consignado voltado a servidores públicos, aposentados e pensionistas.
Em 2 de julho de 2025, às 14h05, Fabrizio Pereira Alencar, coordenador de Controles do Back Office, pediu pelo Microsoft Teams que Vinicius Lucas Trentino, analista de Projetos Sênior da área de TI, levantasse uma lista de CPFs.
Vinicius reuniu os CPFs no arquivo cpf_cessao.csv. No dia seguinte, executou a consulta Contratos_Henrique_Dados.sql no banco de dados interno. SQL é a linguagem usada para buscar informações dentro de bancos de dados corporativos. O resultado foi exportado para a planilha Dados_cessão.xlsx e enviado por e-mail à equipe em 3 de julho, às 16h57.
A planilha trazia nome, CPF, data de nascimento e nome da mãe dos clientes. Esses dados passaram a servir de base para a montagem dos documentos.
A própria equipe técnica identificou problemas na lista. Em 20 de junho, Rafael Manfrin da Silva e Thiago Ramalho discutiram a filtragem.
“filtrando formalizacao só tem 328 credcesta-refin…. nao deveria ser a maioria”, escreveu Thiago Ramalho.
“ai deu merda então / pq tem um cpf nesse meio aqui que so teve 1 proposta em 2019 / ta meio furado essa lista ai”, respondeu Rafael Manfrin.
Mala direta do Word gerou 2.700 procurações em lote
Com os dados em mãos, uma das etapas era produzir procurações. Allan da Silva Machado, gerente de Operações I do Back Office, recorreu à mala direta do Microsoft Word.
A mala direta é uma função comum de escritório. Ela liga um modelo de documento a uma planilha e preenche automaticamente os campos variáveis para cada linha da base. Serve para emitir milhares de cartas ou contratos idênticos com nomes diferentes.
Allan vinculou o arquivo PROCURACAO Master.docx à planilha Base de Geração CCBS AMANHA 1.xlsx, guardada na pasta de trabalho “Demanda BRB Tirreno 2700 amostras”. O procedimento gerou 2.700 procurações de uma só vez, em 20 de junho de 2025.
Código em C# isolava as páginas de assinatura
A área de tecnologia também entrou na produção. Thiago Ramalho, Rafael Manfrin da Silva e Renato M. participaram do desenvolvimento de aplicações em C#, linguagem de programação da Microsoft, registradas no repositório GitHub do Banco Master.
Uma das funções tinha finalidade bem específica. Ela extraía de arquivos PDF apenas a segunda página, justamente onde ficava a assinatura dos documentos originais.
A perícia localizou ainda um arquivo compactado chamado erros-whatsapp.zip, enviado por Anderson Juliano Caspinelli Garcia a Moacir Lourenço da Silva Junior. Dentro dele havia 1.833 PDFs com páginas de assinatura isoladas de Termos de Consentimento. Essas páginas podiam ser reaproveitadas na montagem de novos conjuntos documentais.
Por que a assinatura digital entregou a fraude?
Outra frente envolvia as Cédulas de Crédito Bancário, conhecidas como CCBs. A CCB é o título que formaliza a dívida do cliente com o banco e serve de prova da existência do empréstimo.
Henrique Pupo e Henrique Gonçalves Silva extraíram lotes desses documentos do sistema idtrust. Em 20 de junho, Fabrizio montou pelo Teams uma força-tarefa de assinatura. Foram separadas 675 CCBs para cada um de quatro operadores: Fabrizio, Henrique, Allan e Daniel Guscuma.
As assinaturas foram aplicadas no Adobe Acrobat Reader com o certificado digital corporativo do Banco Master e o certificado individual de Allan Machado. O certificado digital é uma credencial criptográfica que identifica quem assinou um arquivo e registra o instante exato da assinatura.
Foi aí que a montagem falhou. Em determinados documentos, a data escrita no corpo da CCB apontava para 21 de janeiro de 2025. Já o registro criptográfico da assinatura mostrava que o arquivo havia sido assinado em 20 de junho de 2025, às 14h02min39s.
Ou seja, o texto dizia uma coisa e o carimbo criptográfico dizia outra. Esse descompasso é um dos indícios mais fortes reunidos pela perícia.
“Precisamos excluir a data”: o apagamento dos registros
A diferença entre datas também aparecia nos Termos de Consentimento. Para evitar que os arquivos exibissem registros capazes de revelar sua origem, Allan Machado pediu a Moacir Lourenço da Silva Junior que removesse data e hora.
A ordem está em uma conversa no Teams de 20 de junho.
“e o termo de consentimento”, escreveu Allan da Silva Machado. Em seguida: “e precisamos excluir a data”.
A perícia achou um exemplo concreto no Termo de Consentimento de Genilson Lima Leal. O documento trazia originalmente o registro 24/02/2023 13:05. Em uma edição feita em 3 de julho de 2025, às 15h26, esse campo foi apagado visualmente.
A alteração não eliminou todos os vestígios. O arquivo deixou de mostrar a data na imagem, mas outros registros internos e a própria assinatura digital permitiram reconstruir a cronologia.
Depois de produzidas e editadas, as peças eram unidas em um único PDF por operação com o programa PDF24. Os arquivos finais ficavam em pastas de rede chamadas “Demanda BRB Tirreno 2700 amostras”, “Demanda BRB Tirreno 299 amostras” e “Demanda BRB Tirreno 119 amostras”.
Comprovantes de Pix e SPB também foram alvo
A tentativa de apagar rastros chegou aos comprovantes bancários. Em 25 de junho de 2025, Allan Machado discutiu com Romy Goerck Gentina Klenquen a alteração de comprovantes de transferências feitas por Pix e pelo SPB, o Sistema de Pagamentos Brasileiro, usado em transferências de maior valor entre instituições.
O problema era que os comprovantes exibiam informações ligadas ao histórico original. Allan queria retirar três campos: o evento, o número do contrato e o histórico. Entre os textos que apareciam estava a expressão “LIBERAÇÃO CREDCESTA VIA PIX”.
A conversa mostra o limite da operação: a escala.
“nao da para aparecer o evento”, disse Allan da Silva Machado.
“entao esse é o melhor”, respondeu Romy Klenquen.
“porra… este aparece o numero de contrato… nao quero o numero de contrato nem o histórico”, insistiu Allan.
“entao nao tem oq fazer / um ou outro eu consigo ajustar daquela outra forma, mas impossível em 2700 comprovantes no editor”, respondeu Romy.
“tem q dar um jeito”, encerrou Allan.
Procurações podiam ser geradas em lote por automação. A edição gráfica de milhares de comprovantes, não.
O que o esquema planejaria dizer à auditoria?
As mensagens mostram preocupação também com a checagem externa. Em 23 de junho, Fabrizio comunicou a Alberto Felix de Oliveira Neto que a auditoria da Deloitte cobrava informações.
“esse tem que falar que foi erro operacional na selecao”, respondeu Alberto Felix de Oliveira Neto.
Dois dias antes, os dois haviam discutido o envio à Deloitte de documentos da carteira da Tirreno referentes ao período entre dezembro de 2024 e março de 2025. Fabrizio disse que a base já havia sido enviada, mas continha um erro a corrigir. Alberto perguntou quais documentos seriam pedidos. Fabrizio respondeu que seriam CCBs e termos.
Os documentos chegaram a Daniel Vorcaro
A investigação identificou o repasse de amostras da documentação falsificada para o topo da estrutura. Em 12 de junho de 2025, Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, pediu a Alberto Felix um “kit dos 300 com assinatura digital”.
Alberto disse que providenciaria. Minutos depois, informou que naquele momento tinha acesso apenas à CCB e que Allan enviaria os links das procurações e da assinatura. Na sequência, os arquivos foram encaminhados.
A documentação, portanto, não ficou restrita aos funcionários que a montaram.
O rastro digital que a operação não conseguiu apagar
O caso reforça um ponto que o mercado financeiro digital conhece bem. Arquivos eletrônicos carregam registros técnicos que não aparecem na tela. Assinaturas criptográficas, horários de edição e histórico de versões formam uma camada paralela ao conteúdo visível.
A operação descrita pela Polícia Federal tinha duas frentes. Uma criava documentos. A outra tentava apagar as marcas de quando e como eles haviam sido criados. A intenção era fazer com que arquivos fabricados em 2025 passassem por documentação de operações antigas.
A segunda frente falhou. Mesmo depois da retirada de datas e da edição dos PDFs, a estrutura digital dos arquivos continuou apontando a cronologia real.
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