A febre Raphael Montes: o sucesso, o cinema e seu novo romance, ‘Uma Estranha na Cama’
Polêmico e adorado, Raphael Montes é o escritor mais vendido da Companhia das Letras, a maior casa editorial do país. Leitor ávido, começou a escrever ainda na adolescência e terminou de escrever Suicidas, seu primeiro romance, aos 19 anos. À época, conta, ele já tinha lido mais de dois mil romances policiais e thrillers.
A carreira de roteirista se ergue em cima da própria obra literária, quase sempre adaptando os próprios livros ou casos reais que já cobria como autor de suspense e true crime. Como roteirista, Montes já assinou Bom Dia, Verônica (Netflix, 2020), adaptação do romance que escreveu com Ilana Casoy (2016, R$74,90) e que ficou três temporadas no ar. Também produziu de dois longas sobre o caso Suzane von Richthofen para a Amazon Prime Video. Sua grande obra até agora é Beleza Fatal (2025), primeira novela brasileira do HBO Max, que lhe rendeu o Prêmio Platino de Melhor Série.
Como foi o início da carreira de Raphael Montes?
Suicidas (2012, R$ 74,90) é um calhamaço de mais de 400 páginas que conta a história de um grupo de jovens da elite carioca descobertos num porão com evidências de um macabro jogo de roleta russa. A obra só saiu após ser finalista do prêmio Benvirá de 2010, que levou o romance para a editora Saraiva. Raphael, então, tinha 22 anos. Suicidas também chegou a ser finalista do Prêmio São Paulo de Literatura na categoria autor estreante, mas não levou.
Foi, no entanto, Dias Perfeitos (2014, R$ 74,90), seu segundo romance, que o elevou ao nível de autor internacional. O livro conta a história de Téo, estudante de medicina, que se apaixona e sequestra Clarice. O romance acompanha a obsessão doentia dele e a luta dela para sobreviver ao cativeiro. Em 2025, o livro ganhou uma adaptação para a Globoplay.
Sobre o livro publicado em mais de 22 países, Raphael Montes disse recentemente em entrevista à Rolling Stone: “Foi [meu] livro mais publicado internacionalmente, pelo menos até agora, e foi ele que me permitiu viver exclusivamente da literatura. Como eu não teria um carinho enorme por ele?”
Um banquete para os fãs
Se, para Raphael Montes, Dias Perfeitos é o seu romance favorito, Jantar Secreto (2016, R$ 69,90) é o preferido dos leitores.
Com mais de 300 mil exemplares vendidos, conta a história de quatro amigos que se veem em apuros para pagar o aluguel e acabam criando um esquema macabro de jantares onde se serve carne humana para a alta sociedade carioca. Eles perdem o controle e o negócio toma proporções monumentais nas mãos de Umberto, um dos ricaços presentes no primeiro jantar. Descobre-se que ele é apenas uma marionete de alguém muito mais perigoso, alguém que industrializou o consumo de carne humana predando os rejeitados pela sociedade.
É um livro forte. Narrado em primeira pessoa por Dante, um jovem gay, trata de um dos maiores tabus, o canibalismo. Além disso, toca em questões estruturais, como o fato de que essa indústria se sustenta com o sequestro, tortura e assassinato de gente marginalizada. Na internet inúmeros leitores relatam ter se tornado vegetarianos e veganos após a leitura.
Mas também é um livro divertido e irônico. Quando se refere, por exemplo, à cidade fictícia de Pingo d’Água — não confundir com a verdadeira Pingo d’Água em Minas Gerais —, referência à expressão “dar nó em pingo d’água”, a astúcia usada para passar a perna nos outros. É o que o vilão secreto faz do começo ao fim da narrativa, enganando Dante — e ao leitor —, até o final, quando revela seu artifício.
O livro acaba de completar dez anos e recebe uma edição especial da Companhia das Letras, que também homenageia o escritor com uma Coleção Raphael Montes, de clássicos e novos nomes do suspense. Ele também ganhou uma edição nos Estados Unidos pela Celadon Books, um selo da gigante Macmillan, em agosto.
Raphael Montes, o reconhecimento e o ressentimento
Jantar Secreto pode ter sido o livro que conquistou o leitorado brasileiro e estrangeiro, mas o reconhecimento da crítica veio com o prêmio Jabuti por Uma Mulher no Escuro (2019, R$69,90). O prêmio veio, no entanto, com o amargor da adjetivação: Raphael Montes recebeu o Jabuti de melhor romance de entretenimento, categoria pela qual Montes expressou um certo ressentimento em sua entrevista no programa Roda Viva em 2025, afirmando que queria fazer uma literatura que entretesse, mas que também levasse à reflexão, em suma, que não fosse descartável.
Talvez o seu público-alvo, porém, seja o que mais o distancie da crítica. Raphael Montes escreve romances de suspense para um público jovem-adulto, leitores em formação e muito apaixonados, que adoram inflamar polêmicas sobre o escritor no booktok.
É preciso esclarecer: seus romances não são literatura young adult, um gênero à parte, voltado para a formação de leitores. O que Montes faz é literatura adulta para um público jovem, o grosso do leitorado brasileiro. Dessa maneira, seus livros ficam sempre distantes das possibilidades literárias — mesmo como entretenimento —, de um autor maduro como Rubem Fonseca, um dos ídolos de Raphael.
A Estranha na Cama
Agora Raphael Montes lançou A Estranha na Cama, seu nono livro e primeiro romance erótico. O thriller parte da admiração do escritor por expoentes do gênero dos anos noventa como Instinto Selvagem e De Olhos Bem Fechados.
A obra conta a história de Laura e Diego Guimarães Prata, um casal que convida uma desconhecida para um ménage à trois em sua cobertura em Ipanema. Durante o encontro, a mulher pede, por prazer, para ser sufocada. Dias depois, Laura chega a uma delegacia escoltada por policiais e com roupas ensanguentadas, enquanto Diego, advogado criminalista, presta depoimento em outra sala. O livro reconstitui, pelas duas versões, o que aconteceu naquela noite fatídica. Assim, revela a rede de mentiras que o casal monta para proteger o nome e o legado da família.
A adaptação para cinema começou mesmo antes do lançamento do livro, um longa da Netflix, com direção de Esmir Filho (Homem com H) e roteiro do próprio autor. A obra é estrelada por Paolla Oliveira, Bella Campos e Emilio Dantas, com participações de Vera Fischer, Paulo Betti e Kelner Macêdo.
O filme tem estreia prevista para 2027. Já o livro chegou às livrarias em 1º de setembro, com o lançamento oficial na Bienal do Livro no dia 4, em uma conversa sobre os bastidores da escrita e o processo de adaptação para o audiovisual.
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