Como este restaurante montou a carta de vinhos portugueses mais completa de São Paulo
"Boa é a vida, mas melhor é o vinho." Com uma citação de Fernando Pessoa na abertura e 47 páginas, fica até destoante falar que estamos diante de uma carta de vinhos. Mais correto seria dizer que estamos diante do livro de vinhos do Rancho Português, em São Paulo.
Se disséssemos, nem estaríamos tão errados. Trata-se, afinal, de um documento detalhado, que conduz o cliente/leitor para dentro de um universo cheio de detalhes, mapas e explicações. Em seus 22 "capítulos", listados em um índice, fica fácil entender seu propósito:
"Nossa carta é praticamente a única do país com maior número de rótulos portugueses", diz Leandro Bernardo Silveira Melo, Head Sommelier do Rancho Português São Paulo, em entrevista ao Seu Dinheiro. "A ideia é mostrar aos clientes brasileiros a qualidade e trazer Portugal mais próximos deles."
De fato, me sinto mais próximo de Portugal enquanto espero meu (excelente) bolinho de bacalhau. Folheando as muitas páginas, descubro que o Vinho Verde, por exemplo, não é uma tradição de todo o país, mas sim de uma produção concentrada principalmente na região do Minho, noroeste de Portugal. E que sua acidez e refrescância caem bem, veja você, justamente com o bolinho que vai chegando à mesa.
Da adega à importação
Acontece que o Rancho Português não tem apenas um Vinho Verde: tem 16. Falando em preços, a seção de estende de R$ 155 a R$ 699 a garrafa, com opções especialmente feitas a partir de Alvarinho, mas não apenas. Em uma virada inesperada, por exemplo, a casa inclui um Vinho Verde tinto, o Adega de Monção (R$ 188), feito com Alvarelhão de Vinhão.
Essa variedade de opções, que se estende a todas as regiões presentes na carta, é surpresa apenas para quem não conhece o espaço do restaurante na Vila Olímpia. Com movimento constante, e elevado especialmente aos domingos, trata-se de um complexo que reúne, além do salão, um empório, onde Portugal aparece desde azeites e castanhas, até louças e lembranças.
O destaque, porém, fica por conta de uma extensa adega, onde o cliente encontra grande parte dos rótulos da carta. A oferta inclui 700 opções, desde Vinhos do Porto clássicos, como o Quinta da Romaneira Fine Tawny, até os rótulos da Terra dos Alves.
Para fora do salão
Mais que uma marca, a Terra dos Alves carrega em si um "símbolo" dos vinhos no Rancho Português, como define Silveira Melo. Isso porque são vinhos exclusivos, desenvolvidos especialmente para o restaurante e distribuídos pela Importadora Alves, braço do empreendimento instalado em 2023, com atuação B2B e B2C.
"Nossa importação abriu um caminho muito bom pois isso nos permitiu ter preços acessíveis e competitivos no mercado", explica o Head Sommelier. De acordo com ele, foi a abertura da importadora que permitiu o aumento de vendas dos rótulos no Rancho, seja no empório ou no salão.
Hoje a importadora atende principalmente as lojas próprias do Grupo Graal. Além das cinco unidades do próprio Rancho Português, ele ainda contempla o Due Cuochi, o Barbacoa e os empórios Graal – eles mesmos, das estradas. Apenas na unidade Vila Olímpia do Rancho, são 1.000 garrafas vendidas todos os meses. De acordo com Leandro Bernardo, hoje já se estuda um projeto para expandir as vendas para outros estabelecimentos em breve.
Navegando pela carta de vinhos
Se a importação e a distribuição ajudam a tornar acessíveis alguns dos rótulos, o Rancho Português não limita sua carta à entrada. Na realidade, conhecedores da tradição vinícola do país deverão encontrar ali algumas "joias", que não se orientam por tíquete.
Exemplo maior talvez seja o Barca Velha, da Casa Ferreirinha, um dos vinhos mais cobiçados de Portugal. Considerado o primeiro grande tinto da região do Douro (a "casa" do Vinho do Porto), ele passa por uma seleção tão rigorosa que, desde a criação da marca, em 1952, ela só produziu 21 safras.
"O Rancho Português hoje tem uma frequência de clientes bem exigentes com paladar apurado", explica Silveira Melo. "Isso nos permite ter vinhos como Barca Velha, pois uma casa dessa magnitude não pode deixar de ter essa experiência para os mais conhecedores."
Vendido a R$ 15 mil, o Barca Velha ocupa local de destaque em uma carta que ainda possui outros highlights portugueses, como o Pêra-Manca (tinto Aragonês do Alentejo, R$ 8.200).
Os segredos bem guardados
Já entre os vinhos mais vendidos da casa estão o Quinta da Romaneira Dona Clara IGP (R$ 379) e o Marquês de Borba (R$ 255). Já o "tesouro" da carta, segundo o sommelier, seria o Monte São Sebastião Grand Reserva (R$ 486), tinto encorpado feito com Touriga Nacional, Tinta Roriz e Tinta Barroca vindas de vinhas velhas.
Fora dos "hits", porém, o Leandro Bernardo reforça que, para conhecer Portugal, vale experimentar os rótulos de uma subestimada região do Dão. Longe da fama de seus conterrâneos Douro e Alentejo, ela concentra o que o profissional classifica como "uma expressão de terroir única" no país. Uma espécie de "Borgonha portuguesa", diz.
É do Dão, inclusive, uma das três garrafas que ele crê sumarizarem a oferta do Rancho Português: o branco da Quinta do Covão Branco (preço sob consulta). "É um encruzado incrível, bem sedoso e muito fresco", diz o especialista. Além dele, Melo ainda indica um Mouchão (R$ 1.240), tinto emblemático do Alentejo. Por fim, cita um clássico Vinho do Porto do Douro, o Porto Quinta do Noval 40 Anos (preço sob consulta).
E, para quem quer uma dica de harmonização imperdível, Silveira Melo indica combinar o Reguengos Garrafeira (R$ 678) com a famosa Chanfana de Cordeiro do restaurante. O preparo consiste em uma paleta de cordeiro cozida ao vinho tinto, shoyu, batata, louro, azeite, alho, cebola e caldo de carne. À mesa, ela chega servida com torradas fritas ao azeite).
Além-mar e além-taça
Fora dos 99% de Portugal, a carta de vinhos do Rancho Português faz brilhar opções de luxo da Espanha, como o Pingus Tempranillo (R$ R$ 18.480), e até clássicos franceses, como o Château Margaux (R$ 18.980) e a safra histórica Château Petrus 1981 (R$ 65 mil). Rótulos da Itália também estão presentes, além de vinhos dos Estados Unidos e do Brasil, presente em com o Tannat Lidio Carraro (R$ 171), do Vale dos Vinhedos (RS), e com os ótimos Guaspari Vista da Mata (R$ 425) e Guaspari Vista do Chá (R$ 658), de Espírito Santo do Pinhal (SP).
E como nem só de vinho vive o Rancho, destaques do cardápio ainda incluem o Leitão à Bairrada. Crocante e macio, o prato é servido com diversos acompanhamentos. Mas destaque mesmo é o bacalhau, que chega ao menu em superlativos 21 preparos – vale surpreender-se com o À Barreirense.
Farta ainda é a oferta de sobremesas – como não podia deixar de ser em um restaurante onde brilha o Vinho do Porto. À mesa, elas vêm em apresentação volante, com 16 receitas lado a lado, de creme brulée a torta de nozes, da pera ao vinho ao mousse de chocolate – sem deixar de lado outro preparo favorito de quem certamente entendia de comida portuguesa, “arroz doce / com as linhas de canela”, também imortalizado nas letras de um certo Fernando Pessoa.
Rancho Português: Avenida Dos Bandeirantes, 1051 - Vila Olímpia, São Paulo/SP. Fone: 11 2639.2077. Seg-Sáb. 11h30 às 22h30/Dom. 11h30 -17h30. Rolha R$130.
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