Estrangeiros retiram dinheiro da Bolsa na véspera da eleição e com piora do cenário global

Depois de três meses de aporte líquido, investidores estrangeiros retiraram R$ 2,3 bilhões da Bolsa em setembro até o dia 23

Foto: Shutterstock

Depois de três meses de aporte líquido na Bolsa, investidores estrangeiros retiraram recursos do mercado acionário brasileiro em setembro, até o dia 23. O movimento ocorre na véspera da eleição no Brasil e diante da piora do cenário global, com o aumento do temor de uma recessão em função de um aperto mais forte das taxas de juros.

Neste mês, até o dia 23, o saldo líquido de investimentos estrangeiros na Bolsa estava negativo em R$ 2,35 bilhões, considerando a negociação dos papéis no mercado secundário e em ofertas de ações, segundo dados da B3. O dado reverte um fluxo positivo de R$ 16,4 bilhões registrado em agosto, que tinha sido o maior desde março.

Já os investidores pessoas físicas aproveitaram os preços descontados dos papéis para comprar mais ações e registraram aporte líquido de R$ 2,2 bilhões no mercado secundário no período, enquanto os institucionais, representados pelos fundos de investimento,  colocaram o pé no freio e registraram saída líquida de R$ 3,9 bilhões.

No ano, o fluxo de investimento estrangeiro para a Bolsa é recorde e soma saldo positivo de R$ 84,7 bilhões, entre recursos direcionados para as compras de papéis no mercado secundário e para ofertas de ações.

gráfico saldo de estrangeiros na Bolsa

Temor de recessão leva a aversão global a risco

A expectativa de um aperto mais forte das taxas de juros nos mercados desenvolvidos para controlar a maior alta da inflação em 40 anos aumentou o temor de uma recessão econômica global, elevando a aversão a ativos de maior risco, como ações.

Só na sexta-feira (23), houve a saída líquida de R$ 2,05 bilhões de investimentos estrangeiros da Bolsa, o que contribuiu para a queda de 2,06% do Ibovespa, liderada pelos papéis da Petrobras (PETR3), que recuaram 7,06%. “O estrangeiro costuma investir em papéis blue chips [de empresas de maior capitalização de mercado e liquidez] como Vale [VALE3] e Petrobras”, diz Rodrigo Barreto, analista da Necton.

Na semana passada, o Federal Reserve, o banco central americano, elevou a taxa básica de juros em 0,75 ponto porcentual pela terceira vez consecutiva, para uma faixa entre 3% e 3,25%, o maior patamar desde 2008, quando eclodiu a crise financeira mundial.

A autoridade monetária americana ainda sinalizou a necessidade de um ciclo de alta de juros maior que o esperado pelo mercado para trazer a inflação, que está em 8,3% em 12 meses até agosto, para a meta de 2%.

No Reino Unido, o anúncio do novo plano fiscal pelo governo na segunda-feira (26) levou o mercado a apostar em uma alta expressiva dos juros na Inglaterra, provocando o derretimento da libra, que caiu para o menor nível da história e provocou uma saída global de ativos de risco.

Soma-se a isso a aproximação das eleições no Brasil, em 2 de outubro, que contribuiu para os investidores ficarem mais cautelosos e evitarem o aumento das posições.

“Vejo essa saída de estrangeiros como um ajuste pontual provocado muito mais pelo cenário externo que por uma saída da Bolsa por causa da eleição”, diz Barreto. Segundo ele, os dois principais candidatos à Presidência – Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) – já são conhecidos dos investidores e a eleição já está em grande parte refletida nos preços das ações.

Brasil deve ir melhor que emergentes

Apesar da saída pontual de investimentos estrangeiros da Bolsa em setembro, analistas acreditam que o Brasil deve ter um desempenho melhor que os pares emergentes e até que os mercados desenvolvidos.

“Se olharmos para outros emergentes, a Rússia está em guerra com a Ucrânia, a China está com problemas no mercado imobiliário, o México é muito dependente da economia americana e os mercados de ações desenvolvidos devem sofrer com a alta de juros. Então, o Brasil acaba se sobressaindo nesse cenário”, assinala Barreto.

O Goldman Sachs vê espaço para o Ibovespa alcançar 121 mil pontos no fim de 2022, o implica um potencial de alta de 10,10% em relação ao patamar atual de 109 mil pontos.

O UBS, por sua vez, acredita que as ações do Brasil podem ter desempenho superior ao dos papéis de outros países emergentes nos próximos 12 a 18 meses. As razões para isso são os preços ainda altos das commodities, indicadores sugerindo que as ações brasileiras estão baratas e a expectativa de queda de juros ano que vem.

Em seu cenário base, o UBS espera que o índice MSCI Brasil, que engloba 48 empresas de capital aberto com valor de mercado alto e médio, supere em 10% a 15% o índice MSCI EM, de mercados emergentes, nos próximos 12 a 18 meses.

As ações brasileiras já têm apresentado um desempenho melhor que seus pares neste ano. Em 2022, o índice MSCI Brasil acumula alta de 2,1%, contra a queda de 27,6% do índice MSCI de mercados emergentes e a desvalorização de 24,9% do índice MSCI de mercados desenvolvidos.

“Mesmo com essa alta no ano, as ações brasileiras ainda estão baratas e não voltaram aos níveis pré-pandemia”, avalia Barreto.

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