O mercado mundial está fugindo de ativos arriscados e este movimento ganhou mais força nesta semana, depois de o banco central dos Estados Unidos acelerar o ritmo de alta de juros no país. O cenário, porém, ainda está positivo para commodities – o que pode beneficiar as ações relacionadas à produção de matérias-primas no Brasil – e para investimentos indexados aos juros ou à inflação, segundo especialistas.
Para outros ativos, dizem os gestores, o cenário está pouco promissor há algum tempo, e vários fatores contribuem para isso:
– a aceleração da alta de juros nos Estados Unidos, que deve frear a atividade econômica por lá e diminuir o apelo do investimento em ações americanas;
– a desaceleração econômica na China, que deve prejudicar o comércio mundial e o crescimento de vários outros países;
– e a nova escalada nos preços do petróleo, que contribui para alimentar as expectativas de inflação mais alta e de juros maiores ao redor do mundo.
O S&P 500, um dos principais índices acionários dos EUA, caiu 3,6% na quinta-feira (5) e encerrou a semana em queda de 0,2% diante da expectativa de que o Federal Reserve (o banco central americano) vai continuar subindo a taxa de juros para combater a alta inflação. Seu desempenho há meses mostra que o sentimento do mercado é de aversão ao risco – em abril, o indicador teve a pior performance desde o início da pandemia, e no acumulado do ano registra perda de 14%.
Já o dólar, que tende a subir quando os investidores estão em busca de investimentos considerados seguros, tem ganhado força. O Dollar Index (DXY), índice que mede o desempenho da moeda diante de uma cesta com as principais divisas, acumula alta de 5,76% desde abril.
No Brasil, não tem sido diferente. O Ibovespa cai 2,54% na semana, a quinta consecutiva, enquanto o dólar Ptax encerrou a primeira semana de maio em alta de 1,74% frente ao real.
Nesse cenário, os gestores de fundos multimercados e estrategistas de investimentos dos bancos têm buscado ganhar com o movimento global de alta de juros e acham que as bolsas americanas podem ter desempenho pior que o da Bolsa brasileira, que ainda pode se beneficiar de um cenário positivo para as commodities.
Confira abaixo o cenário para os mercados, na visão dos gestores.
Mercados já refletem cenário de juros maiores nos EUA
Algumas instituições financeiras acreditam que boa parte da alta de juros pretendida pelo Federal Reserve já está refletida nos preços do mercado.
Um exemplo disso é a taxa do título de 10 anos do Tesouro americano (Treasuries), que negocia perto de 3,10%. Outro é o fato de o mercado futuro dos EUA já refletir a possibilidade de o país terminar 2022 com taxa de juros entre 3% e 3,25% ao ano, segundo dados dos CME Group,
A gestora Kinea ganhou com a aposta na alta das taxas de juros americanas neste ano, mas encerrou a posição no mês passado por acreditar que o Fed não deve ir muito além do que está precificado no mercado, com o crescimento econômico global devendo começar a desacelerar.
“Achamos que o ciclo já está precificado com a atividade econômica começando a ceder”, afirma Marco Freire, gestor de Multimercados da Kinea.
O fundo multimercado Kinea Atlas acumula ganho de 7,13% no ano, até abril, o equivalente a 217,59% do CDI.
A gestora do Opportunity também tem ganhado com posições que apostam em juros maiores. “No ano passado exploramos mais o tema de alta de juros nos mercados emergentes, principalmente no Leste Europeu, e neste ano migramos para os países desenvolvidos”, diz Marcos Mollica, gestor do fundo multimercado Opportunity Total, que acumula alta de 5,29% no ano.
Embora espere que o Fed possa subir a taxa básica para além de 4%, o fundo do Opportunity reduziu a posição em juros americanos. “Estamos tentando explorar mais os efeitos do Fed sobre os ativos de risco e estamos vendidos [apostando na queda] em bolsa americana”, diz Mollica.
Bolsas americanas têm espaço para cair mais
A queda do índice S&P 500 no acumulado de 2022 é grande – equivale ao pior desempenho desde 1939 -, mas os gestores não acreditam que é um bom momento para aumentar a posição em ações americanas.
A Kinea segue apostando na queda das ações dos EUA. “Diminuímos um pouco essa posição, mas ainda estamos vendidos. Os valuations das bolsas americanas ainda estão altos e o cenário é de desaceleração econômica com alta de juros”, diz Freire.
O Opportunity também estava com posição vendida em bolsa americana.
Já o Santander Private Banking está com recomendação neutra para alocação no mercado de ações americano.
Commodities ainda são boa opção?
As notícias de lockdowns na China em função do aumento dos casos de Covid-19 aumentaram a preocupação com uma desaceleração mais forte da economia por lá, o que acabou se refletindo na queda dos preços de algumas commodities, principalmente metálicas, em abril.
Os gestores, contudo, acham que esse movimento negativo terá vida curta. “Vemos essa questão na China como uma coisa temporária”, diz Mollica.
O país é a segunda maior economia do mundo e o principal importador de commodities metálicas, como o minério de ferro. Uma desaceleração econômica por lá tem impacto direto sobre as exportações brasileiras de matérias-primas.
No entanto, os gestores acreditam que o cenário continua positivo para commodities porque há pouca diferença entre a oferta e a demanda destes produtos. A perspectiva é de que os preços devem se manter em patamares historicamente altos.
“Geralmente, os lockdowns na China afetam mais os setores domésticos e não industrial e vemos isso como um ruptura de curto prazo e não um problema estrutural”, diz Freire.
Mollica espera valorização das commodities no curto prazo, uma vez que a guerra na Ucrânia trouxe restrições na oferta de commodities energéticas e de grãos. “Os preços devem se manter elevados por mais tempo.”
O gestor do Opportunity vê um risco para o segundo semestre se vier uma desaceleração econômica mais forte, que possa impactar os preços.
No caso do petróleo, os gestores acham que o valor do barril deve permanecer em patamar elevado mesmo com uma desaceleração do crescimento global. “Devemos ter um problema ainda maior na oferta com as sanções às exportações da Rússia e achamos faz sentido ter petróleo na carteira”, diz Freire.
A Kinea mantém a visão positiva para as ações de empresas de energia, incluindo da cadeia de petróleo tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. “Ainda estão com valuations muito atrativos”, diz Freire.
Como fica a Bolsa brasileira?
Apesar de investidores estrangeiros terem retirado R$ 7,7 bilhões da Bolsa em abril, os gestores ainda veem um cenário positivo para as ações brasileiras atreladas a commodities, que continuam baratas.
“Temos um viés mais positivo para o setor de commodities. Já nas empresas voltadas para o mercado doméstico ainda estou bastante negativo, uma vez que o Banco Central não tem espaço para voltar a cortar os juros tão cedo e a inflação ainda está elevada e disseminada”, diz Mollica.
Ele acrescenta que o BC deve manter a taxa básica de juros em patamar elevado por muito tempo, o que terá impacto no crescimento do ano que vem. A gestora reduziu a posição na Bolsa brasileira desde o ano passado.
Já a Kinea começou a olhar mais as ações voltadas para o mercado doméstico, com o ciclo de aperto monetário se aproximando do fim. A gestora tem visto boas oportunidades nos setores de infraestrutura como a Vamos (VAMO3), varejo, serviços financeiros, como XP (XP) e BTG (BPAC11), e energia elétrica.
“Achamos que o papel da Eletrobras (ELET6) está interessante com a privatização”, diz Freire.
O TCU (Tribunal de Contas da União) definiu para o dia 18 de maio a retomada do julgamento da modelagem das ofertas primária e secundária de ações da União na privatização da Eletrobras. “Se não sair, o preço da ação vai cair, mas se sair tem muito upside [potencial de alta]”, diz Freire.
O Bank of America adicionou o papel da Eletrobras à carteira trimestral TOP 10 Latam do banco. “Achamos que o processo de privatização da Eletrobras está no caminho de ser concluído em junho de 2022, o que poderia ser o principal ‘catalisador’.”
Já em petróleo, a Kinea tem preferido se posicionar em ações de empresas privadas. “A Petrobras (PETR4, PETR3) está muito barata, vai pagar um rendimento de dividendos de 30%, mas é uma empresa que a eleição vai influenciar mais. Há dúvidas sobre o que o próximo governo vai fazer com o caixa da empresa, se poderá usar para investimentos com taxa de retorno duvidosa”, diz Freire.
Dólar deve continuar a subir ?
Com a alta da taxa de juros nos Estados Unidos, os gestores acreditam que a tendência do dólar é para cima, com os investidores devendo sair de ativos de maior risco para investir nos títulos do Tesouro americano, considerados um porto seguro.
A Kinea tem apostado na alta do dólar frente o euro e a libra esterlina, prevendo um crescimento maior nos EUA em relação à Europa. A gestora também chegou a comprar o real quando o dólar passou de R$ 5, mas é uma posição mais tática (de curto prazo). “O real é uma moeda boa para ter porque é ligada a commodities e o nível de taxa de juros no Brasil está muito alto”, diz Freire.
Já o Opportunity também vê uma tendência de dólar forte, principalmente frente às moedas do G10, grupo que engloba os países desenvolvidos.
O fundo do Opportunity também tem uma posição de curto prazo vendida [apostando na queda] em dólar frente ao real, mas Mollica vê pouco espaço para uma valorização maior da moeda brasileira dado o ambiente de aumento de aversão a risco e de eleição no Brasil. “Minha impressão sobre eleição é que o mercado ainda não está olhando esse risco de perto, o que ainda pode gerar volatilidade”, diz.
Como se proteger nesse cenário?
Com a inflação ainda em patamar elevado e incertezas em relação ao cenário eleitoral, o executivo-chefe de investimentos do Santander Private Banking, Christiano Clemente, recomenda que o investidor aplique seus recursos em títulos indexados à inflação.
Para os portfólios de risco moderado, o Santander tem uma recomendação de alocação em torno de 25% a 26% da carteira nesses ativos.
Os títulos Tesouro IPCA+, por exemplo, estão pagando uma taxa de juros prefixada acima de 5,5% mais a variação do IPCA, o índice oficial de inflação do Brasil.
Outra forma de proteger a carteira em tempos de volatilidade é manter uma posição em caixa, em aplicações pós-fixadas atreladas ao CDI, com liquidez em D1, diz Clemente. “Recomendamos ter uma posição de caixa de pelo menos 20% da carteira”, diz.
O Santander mantém uma recomendação neutra para a posição em Bolsa brasileira – o que, para um perfil moderado, significa de 8% a 10% da carteira.
O banco também tem recomendação neutra para alocação em ativos internacionais. “Eu tendo a preferir a alocação em hedge funds lá fora que na bolsa americana”, diz Clemente.
O investidor também pode investir em fundos multimercados brasileiros que alocam em ativos no exterior para aproveitar o movimento de alta global de juros.