No balanço dos frigoríficos, Minerva (BEEF3) ganha moral e BRF (BRFS3) perde pontos – entenda

Setor sofre com aumento dos custos de produção, mas nem lockdown na China ou guerra na Europa diminui preços

Reprodução: TradeMap

Com o fim da temporada de balanços, o mercado começa a reajustar suas posições. Os investidores alocados em frigoríficos acompanham atentamente o desenvolvimento do setor em um momento de perspectiva futura de arrefecimento dos preços e contração monetária.

JBS, BRF, Marfrig e Minerva outrora já sofreram com a alta alavancagem em momentos de reversão do ciclo para os frigoríficos, em função da contração de dívidas para o crescimento enquanto nos tempos de bonança. 

Hoje, majoritariamente, os frigoríficos sofrem menos desse mal. O segundo trimestre marcou um aumento da alavancagem em três das quatro empresas, mas o cenário ainda é benigno nesse sentido.

Os players brasileiros do setor aprenderam com os erros passados e têm procurado utilizar os bons momentos de alta da commodity para reduzir seu endividamento – sem deixar de crescer o top line

Esse talvez tenha sido o principal legado do segundo trimestre deste ano: os frigoríficos não deixaram de vender mais durante as intempéries do ciclo e devem sair melhor do que entraram.

Com modelos de negócio particulares, as empresas sofreram com o aumento dos custos de produção no período, mas nem o lockdown na China, tampouco a guerra entre Rússia e Ucrânia, derrubaram de forma intensa os números  considerados sólidos e dentro do esperado pelo mercado. 

JBS: o maior dos frigoríficos

Pela ordem de valor de mercado, a JBS (JBSS3) lidera não só o mercado brasileiro mas também o mundo. Durante o segundo trimestre, a companhia ultrapassou a Nestlé e figura no topo das empresas de alimentos no planeta em termos de faturamento.

No segundo trimestre deste ano, a empresa reportou uma receita líquida de R$ 92,1 bilhões, alta de 7,7% em um ano. No acumulado dos últimos 12 meses, a companhia tem faturamento de R$ 372,8 bilhões (ou cerca de US$ 72 bilhões), acima de qualquer outra companhia do setor.

No segundo trimestre, alguns pontos chamaram atenção. Entre eles, a contínua alta do CPV (custo dos produtos vendidos), que avançou em proporção maior do que a receita no período entre abril e junho deste ano.

O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado recuou 11,5% na base anualizada, após ter crescido 46,7% no trimestre anterior, no ano contra ano.  

O indicador, que mostra uma aproximação da geração de caixa da empresa, passa por um forte arrefecimento por conta da normalização do ciclo de gado nos Estados Unidos. O ponto mais baixo do trimestre foi a JBS Beef North America (maior unidade de negócio), que desde o primeiro trimestre não agrega os números da JBS Australia. 

O ponto positivo para a companhia, inclusive, se concentrou na operação australiana,  com os números de Huon e Rivalea. No país, a receita cresceu 22,5% em 12 meses e 18,1% em três meses, para R$ 8,2 bilhões.

Nesse sentido, o mercado doméstico foi um grande catalisador dos resultados, com a força dos canais de varejo e food service. Atualmente, a Austrália equivale a cerca de 8% da receita total da JBS.

O mercado asiático continua sendo o comprador mais importante, notadamente a China, que mesmo diante dos lockdowns durante o período manteve os volumes de compra elevados

O balanço da JBS, como um todo, foi fomentado por alta dos preços médios, tanto em Seara como Austrália, acima dos volumes, o que denota o repasse de preços e força da demanda em meio ao aumento dos preços.

BRF: alavancagem volta a ser problema

Com mais de R$ 19 bilhões em capitalização de mercado, logo atrás vem a BRF (BRFS3). Todas as multinacionais do setor reportaram avanço no top line do balanço, e com a BRF não foi diferente, visto que observou sua receita líquida variar positivamente 11,2%, para R$ 12,93 bilhões, mesmo com os volumes estacionados.

O problema é que o CPV cresceu ainda mais, para 15%. Com isso, o lucro bruto já foi menor na comparação anual e, no fim das contas, a empresa teve um prejuízo líquido de R$ 468 milhões, quase dobrando as perdas na comparação com o mesmo período do ano passado. 

Nesse meio, o Ebitda societário caiu 30,7%, para R$ 897 milhões, no pior resultado operacional dentre as quatro multinacionais brasileiras do setor.  

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Por um lado, a companhia consumiu muito menos caixa do que no segundo trimestre do ano passado, na ordem de R$ 12 milhões. Por outro, tornou-se mais alavancada e reacendeu a discussão da capacidade de fazer frente ao endividamento.

Nesse sentido, a operação da companhia sofreu com o desempenho ruim do Ebitda, que é o denominador da relação com a dívida líquida, já que em um ano a dívida líquida pouco se mexeu. 

A alavancagem financeira está em 3,1 vezes, muito menor do que os 6,74 vezes de quatro anos atrás, mas que representa um aumento em relação ao primeiro trimestre deste ano e um entrave ao plano da empresa em procurar desalavancar sua operação. 

No Brasil, a empresa reportou aumento de volumes em suínos in natura, que são a menor operação da companhia no país mas que tem potencial de melhora. Com os ajustes de preços, a receita líquida avançou 12,4%, mas o Ebitda, por sua vez, tombou 19,1%.

No exterior, o desempenho muito negativo na Ásia foi compensado pela operação Halal (Oriente Médio), uma das especialidades da BRF. Os volumes cresceram 13,4%, com destaque para processados, e o CPV por quilo vendido se manteve praticamente estável. Com o aumento dos preços, o Ebitda mais do que dobrou em 12 meses. 

Marfrig: Brasil compensa EUA

No segundo trimestre, a Marfrig (MRFG3) enfrentou uma forte desaceleração no mercado americano, que foi parcialmente compensado pelo bom desempenho da operação na América do Sul.

Entre abril e junho deste ano, os Estados Unidos eram responsáveis por 38% do mercado consumidor dos produtos da Marfrig, sendo que no segundo trimestre de 2021, a proporção era de 69%. 

Essa dinâmica mostra a intensificação do mix de receitas da Marfrig e menor dependência exclusiva de um mercado, diversificando a origem do resultado. Sinal disso é a origem de receita por moeda, que agora se tornou mais “brasileira”.

O volume total na América do Sul cresceu 11,7%, mas a receita líquida avançou ainda mais: 41,6%, chegando ao recorde de R$ 7,11 bilhões, e crescendo acima do CPV. O Ebitda disparou 275,3%, para R$ 678 milhões, explicado pelo maior preço médio de vendas e exportações à Ásia. 

Na América do Norte, a receita praticamente não saiu do lugar, o que fez com que o CPV corroesse todo o resultado. A menor demanda não impulsionou os volumes, levando a companhia a um Ebitda de R$ 388 milhões, recuo de 46,2% em 12 meses. 

O resultado consolidado da empresa apontou para um lucro líquido de R$ 4,3 bilhões, anabolizado pelo cálculo do valor justo do investimento na BRF, que contribuiu com R$ 3,8 bilhões.

O Ebitda consolidado permaneceu estável, portanto, de forma normalizada, a empresa teria queda no lucro. Evidentemente, as margens também acabaram caindo.

A alavancagem financeira da Marfrig fechou o segundo trimestre em 2 vezes (em reais), contra 1,45 vez do mesmo trimestre do ano passado. 

O crescimento da dívida é explicado pela variação cambial no período, já que parte dos compromissos está em dólar, mas a relação entre dívida líquida e Ebitda ainda está dentro do considerado prudencial. Além disso, a empresa também pagou dividendos, o que a deixa menos capitalizada.

 

Minerva: o melhor dos frigoríficos?

A Minerva (BEEF3), a menor das quatro grandes companhias, também teve o maior destaque operacional do setor. 

Em todas as linhas do balanço houve forte avanço, desde a receita líquida (+34,7%), o Ebitda (+42,8%) e até o lucro (+264%), que atingiu R$ 424,7 milhões.

A margem líquida da companhia, que mostra quanto sobra de forma líquida da receita líquida, saiu de 1,85% para 5,01% em um ano. A margem Ebitda, que apresenta a eficiência operacional da empresa, cresceu 0,5 ponto percentual, para 9,2%. 

Como a Marfrig já havia experimentado, o ciclo de gado do mercado brasileiro de carne bovina está altamente aquecido, ao contrário do americano. Isso estimulou o desempenho da Minerva no período entre abril e junho, já que a empresa possui 22% de market share das exportações da América do Sul. 

Pouco mais de 41% da capacidade de abate da empresa está no Brasil e o maior destino dos embarques foi a China (equivalente a 36% do faturamento total), uma dinâmica positiva no trimestre.

A receita bruta por origem mostrou forte crescimento sobretudo no Brasil, Argentina e Uruguai. O mercado colombiano teve retração em volume de vendas e receita, enquanto o paraguaio também, mas em menor grau.  

A Minerva foi a única dos frigoríficos que conseguiu diminuir sua alavancagem financeira líquida, de 2,4 vezes para 2,3 vezes. No período, a empresa contraiu R$ 1,2 bilhão a mais em dívida total e pagou sólidos dividendos, mas a estrutura de capital não saiu das rédeas. 

A sólida demanda chinesa tem ligação com a força da economia do país. Mesmo que desacelerada pela conjuntura global, a China viu o PIB per capita da população saltar 124% entre 2011 e 2021, para US$ 12,6 mil, segundo dados do Banco Mundial. 

Com mais renda disponível, os chineses tendem a consumir carnes de maior qualidade. Além disso, nos últimos meses, o país tem procurado se recuperar de um surto de peste suína africana, que dizimou boa parte do rebanho que abastecia a população com carne de porco.

O ambiente ainda parece positivo para os frigoríficos, com a perspectiva de arrefecimento dos custos de produção, principalmente insumos ligados ao gado. Uma reversão nos ciclos podem pressionar o preço de venda dos volumes, mas o setor está majoritariamente preparado para lidar com esse futuro contexto.

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