Com a incerteza no mercado externo, com risco de recessão e alta de juros nos Estados Unidos, e no mercado interno, com a preocupação com o quadro fiscal e eleições, aumentou a procura dos investidores pela proteção contra a alta do dólar através dos fundos cambiais.
Esses fundos registram aporte líquido de R$ 1 bilhão no acumulado do ano até 18 de julho. Com a disparada do dólar, que subiu mais de 10% frente ao real em junho, esses portfólios captaram R$ 544 milhões só no mês passado. Mas com o dólar a R$ 5,42, ainda é um bom momento para entrar nesses fundos?
Para quem tem uma despesa programada em dólar, seja uma viagem, um curso no exterior ou pagamento na moeda americana, ou para quem quer ter uma proteção para os ativos locais em carteira no médio e longo prazo, faz sentido ter uma posição nesses fundos, afirma Marc Forster, head da Western Asset Brasil, que é gestor de um fundo cambial.
Isso porque a alocação em ativos em dólar é importante para diversificar o risco da carteira. E com as bolsas americanas caindo mais de 17% no ano, os fundos cambiais acabam sendo uma opção mais interessante para o investidor mais conservador por não estarem relacionados ao desempenho de outro ativo, diz Filipe Villegas, estrategista da Genial Investimentos.
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Por regra, pelo menos 80% dos investimentos de um fundo cambial devem estar atrelados à variação da moeda estrangeira. O restante (20%) normalmente é aplicado em títulos de renda fixa de baixo risco, como os papéis do Tesouro indexados à Selic e operações de curto prazo.
A maioria dos fundos cambiais replica a variação do dólar por meio da compra de contratos futuros da moeda americana.
Veja abaixo os cinco fundos cambiais que tiveram melhor desempenho no ano.
A vantagem desses fundos em relação aos minicontratos futuros de dólar é que o investidor não tem que pagar os ajustes diários desses derivativos e nem rolar os contratos no vencimento.
Em relação à compra de moeda em espécie, a vantagem é que, ao comprar o dólar turismo, o investidor acaba pagando uma taxa de câmbio mais alta que o dólar comercial, além de ter que pagar o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) de 1,10%, como aponta Carlos Eduardo Eichhorn, diretor de investimentos da Mapfre Investimentos.
Já a desvantagem é que esses fundos têm incidência de Imposto de Renda, cuja alíquota varia de 22,5% a 15% e incide sobre o lucro obtido no momento do resgate.
Dólar a R$ 5,42 ainda é um bom momento de entrada?
Após a forte valorização do dólar em junho, que subiu mais de 10% em relação ao real, a moeda americana sobe mais 2,91% em julho, até o dia 19, mas ainda acumula queda de 3,41% no ano.
Nesse cenário, a categoria de fundos cambiais acumula queda de 3,48% no ano, até 18 de julho, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira de Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).
A mediana das projeções dos analistas para o dólar no último Boletim Focus, pesquisa semanal feita pelo Banco Central com analistas, era de R$ 5,13 para o fim de 2022 e de R$ 5,10 para o fim de 2023.
Contudo, há alguns fatores que podem trazer o risco de um novo solavanco na moeda americana.
O primeiro deles é uma aceleração da alta de juros nos EUA. “Apesar da alta taxa básica de juros no Brasil limitar uma queda maior do real, se tiver um ritmo acelerado de alta de juros nos EUA pode ter uma valorização global mais forte do dólar e a moeda brasileira sofreria também”, diz Eichhorn.
No mercado interno, o aumento dos gastos do governo fora do teto de gastos (medida que limita o aumento das despesas públicas à variação da inflação do ano anterior) e a incerteza sobre a política fiscal em um próximo governo têm aumentado a pressão sobre o real.
“No Brasil, a gente vem navegando em mares incertos e faz sempre sentido alguma proteção nessa classe de ativo [dólar]”, diz Sandra Blanco, estrategista-chefe da Órama. A estrategista recomenda uma exposição em fundos cambiais de não mais do que 10% da carteira para o investidor arrojado e de 5% para o moderado.
O ideal, segundo Blanco, é o investidor aproveitar a queda da moeda americana para ir montando a posição aos poucos em fundos cambiais.
Para Luiz Sedrani, diretor de investimentos da BV Asset, se o dólar voltar para o patamar de R$ 5 pode ser um bom momento para investir olhando o cenário hoje. “Os fundos cambiais são um seguro antiestresse para momentos de maior volatilidade no mercado”, diz.