Protesto causa briga física na passarela da Semana de Moda de NY. Relembre outras polêmicas dos ativistas
Um protesto da Peta interrompeu neste domingo (13) o desfile da COS durante a Semana de Moda de Nova York. O que começou como uma manifestação contra o uso de lã terminou em uma cena de confronto físico entre ativistas e o principal executivo do Council of Fashion Designers of America (CFDA), entidade responsável pela organização da fashion week americana.
Pelo menos cinco ativistas da organização de defesa dos animais participaram do protesto. Alguns conseguiram chegar à passarela com cartazes que diziam: “Ovelhas espancadas e ensanguentadas por lã. Não compre”. A segurança retirou parte dos manifestantes do local. No entanto, Steven Kolb, CEO do CFDA, também interveio pessoalmente para conter alguns dos ativistas.
Imagens que circularam nas redes sociais mostram Kolb agarrando uma das manifestantes e tentando imobilizá-la no chão. Em outro momento, aliás, ele segura o rosto de uma segunda ativista que registrava o protesto. Segundo a Peta, Kolb também cobriu a boca e o nariz de uma das mulheres com as mãos.
A organização afirmou que pretende registrar um boletim de ocorrência e buscar acusações criminais contra o executivo. Em declaração à WWD, Kolb reconheceu que sua reação foi desnecessária. “Eu reagi de maneira inadequada a um incidente no desfile hoje. Não era meu lugar fazer isso. Eu deveria ter deixado a equipe de segurança cuidar da situação”, afirmou. Kolb, inclusive, não apareceu em outros desfiles realizados no restante do domingo.
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Por que a PETA protestou contra a COS?
O alvo da manifestação foi o uso de lã pela COS, marca pertencente ao grupo H&M que, aliás, chegou no Brasil no ano passado. A Peta passou a pressionar a companhia depois de uma investigação da Peta Asia sobre uma operação de lã na África do Sul.
Segundo a organização, imagens da investigação mostram trabalhadores chutando, golpeando e arrastando ovelhas durante o processo de tosquia (processo de cortar a lã de animais). A entidade também afirma que alguns ficaram com ferimentos após cortes provocados pelas máquinas.
A fazenda investigada faz parte da cadeia de fornecimento de lã sul-africana que atende ao grupo H&M, segundo a Peta. A organização vem pressionando a empresa desde então para abandonar o material.
Durante décadas, a principal batalha da Peta (sigla para People for the Ethical Treatment of Animals) contra a indústria da moda foi o uso de peles. Com a redução do espaço do material na moda, porém, a organização passou a mirar outros tecidos de origem animal, como couro, lã, cashmere, angorá e peles exóticas. Neste contexto, algumas dessas campanhas ficaram marcadas por cenas bastante controversas.
PETA já invadiu passarelas, usou nudez e até se passou por modelo
Uma das estratégias mais conhecidas da organização é interromper desfiles. Em 1991, durante um desfile de Oscar de la Renta, uma ativista participou de um protesto nua, algemada a uma faixa com a mensagem “We'd Rather Go Naked Than Wear Fur” (“Preferimos ficar nuas a usar pele”, em tradução livre).
A ação chegou à capa do caderno de estilo do New York Times e se tornou um dos símbolos da campanha da Peta contra o uso de peles. Três décadas depois, em 2021, Oscar de la Renta anunciou que deixaria de usar o material.
Outro episódio aconteceu em 2002, quando ativistas interromperam o desfile da Victoria's Secret para protestar contra a participação de Gisele Bündchen em uma campanha da Blackglama, marca de peles.
Segundo relato reproduzido pela própria Peta, a modelo afirmou anos depois que o episódio a fez entrar em contato com imagens sobre a indústria e repensar sua participação em campanhas de fur.
A organização também já protagonizou invasões em desfiles de grifes como Burberry, Christian Lacroix e Alexander McQueen.
Em 2006, três ativistas entraram na passarela do desfile da Burberry em Milão carregando cartazes contra o uso de peles. Mais de uma década depois, em 2018, a marca anunciou o fim do uso de pelagem e angorá.
No caso de Alexander McQueen, em 2008, dois integrantes da Peta subiram à passarela com as mãos cobertas de tinta vermelha e cartazes com a frase “Fur on your back, blood on your hands” (“Pele nas suas costas, sangue nas suas mãos”). A segurança retirou os manifestantes do desfile.
Até Anna Wintour entrou na mira
Um dos alvos mais famosos da Peta é Anna Wintour, figura central da indústria da moda e então editora-chefe da Vogue americana.
Em 1993, ativistas ocuparam o escritório de Wintour na sede da revista em Nova York para protestar contra a promoção de peles nas páginas da publicação. Segundo a própria Peta, os manifestantes chegaram a atender telefones no escritório antes de serem retirados pela polícia.
Em um dos momentos mais discutidos, por exemplo, em 2005, Wintour foi atingida por uma torta de tofu jogada por um ativista da Peta quando saia de um desfile da Chloé durante a Paris Fashion Week. Em 2025, a organização voltou a pressionar a Vogue depois da chegada de Chloe Malle ao comando editorial da edição americana. O pedido era para que a revista não apresentasse peles de animais em seu conteúdo.
Da pele ao couro: a nova batalha da Peta
Nos últimos anos, o foco mudou. Depois de décadas de campanhas contra a pelagem, a organização passou a tratar o couro como “a nova pelagem”.
A ofensiva ganhou força em 2023. Durante a Semana de Moda de Nova York daquele ano, uma ativista invadiu o desfile da Coach usando apenas pintura corporal para simular músculos, tendões e carne exposta. No corpo, a mensagem: “Coach: Leather Kills”.
A manifestação interrompeu a apresentação e colocou o uso de couro no centro das atenções durante um dos principais eventos da moda americana.
Na mesma temporada, a Peta também interrompeu apresentações da Burberry, em Londres, Gucci, em Milão, e Hermès, em Paris. No desfile da Hermès, uma ativista entrou na passarela com um cartaz pedindo que a grife abandonasse as peles exóticas.
A estratégia chegou até mesmo a outros materiais. No desfile da Michael Kors em 2023, ativistas protestaram contra o uso de angorá e cashmere e, depois da apresentação, confrontaram o próprio estilista em uma festa. Um dos manifestantes acabou sendo carregado para fora pela segurança.
Em 2024, durante a Semana de Moda de Nova York, a atriz Caylee Cowan e outros ativistas participaram de uma ação em parceria com Stella McCartney. Os participantes apareceram praticamente nus, com placas cobrindo partes do corpo e a mensagem “No Leather Ever”.
A estratégia da Peta funciona?
Não dá para atribuir uma decisão da indústria exclusivamente à pressão da Peta, afinal. Ainda assim, a própria organização coleciona mudanças de grandes marcas que ocorreram depois de anos de campanhas.
A Coach, por exemplo, anunciou em 2018 que deixaria de usar fur após mais de uma década de protestos, reuniões e pressão de ativistas. A Oscar de la Renta também abandonou as peles em 2021, depois de décadas de pressão e protestos da Peta e de outros grupos. A organização também afirma ter pressionado marcas como Gucci, Burberry, Versace, Michael Kors e outras a abandonar o material.
Em 2025, por exemplo, a Semana de Moda de Nova York passou a proibir o uso de pele de animais reais no calendário oficial, em uma mudança anunciada pelo CFDA. Agora, porém, a Peta quer levar a mesma discussão para materiais que continuam profundamente incorporados à indústria, como couro e lã.
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