Cleusa Maria: a empresária que nunca tinha provado um bolo na vida e criou um império de R$ 800 milhões
“Por que Deus me escolheu? É porque eu acho que, além de acreditar em Deus, eu acredito em mim.” É o que Cleusa Maria, aos 60 anos, afirma pensar sobre o fato de hoje comandar uma rede de confeitaria artesanal quase bilionária sem jamais ter concluído os estudos.
Para ela, o sucesso não pode ser explicado pela sorte. Nem a fortuna que construiu, nem a expansão da marca para mais de 370 lojas pelo país e duas no exterior.
“O que sobra em mim é o que falta em milhões de pessoas. É olhar para o futuro e acreditar”, disse ela em entrevista recente ao portal UOL.
Não é difícil encontrar uma loja da Sodiê nas ruas das maiores cidades o Brasil. O que talvez poucos saibam é que cada bolo exposto nas vitrines carrega o gosto do suor de uma ex-boia-fria com um objetivo simples: experimentar a vida que nunca teve.
Infância tirada
Cleusa é uma entre dez filhos de uma família de Bandeirantes, no norte do Paraná.
Após a morte do pai, quando tinha 13 anos, ela precisou abandonar os estudos e trabalhar como boia-fria. Cortava cana-de-açúcar das 4 da manhã até a noite e voltava para casa para dividir um quarto com os outros nove irmãos.
“Para eles estava tudo bem, mas qualquer ser humano tem que querer o melhor. As pessoas e as gerações se conformam com a vida que têm.”
Algo dentro dela buscava mais. Ao saber que um tio precisava de ajuda em Osasco, na Grande São Paulo, prontamente se ofereceu para ir. Tinha 15 anos.
E foi quando descobriu um novo mundo, embora ainda difícil.
Sem nunca ter visto um bolo
“Por que eu tenho que servir?” Esse foi o pensamento que a acompanhou durante os três anos em que trabalhou como empregada doméstica em São Paulo.
A vida a levou de volta ao interior. Aos 18 anos, conseguiu emprego em uma fábrica de alto-falantes em Salto. Anos mais tarde, já em outra empresa do setor, conheceu dona Rosa — esposa de seu chefe e que dominava a arte da confeitaria.
“Não, dona Rosa. Eu nem sei fazer bolo. Nunca tinha visto um bolo na vida. Nem bolo de aniversário eu tive”. Foi o que ela disse ter respondido quando lhe pediram que assumisse a produção dos bolos.
Mas o que não sabia, aprendia. E aprendeu.
O começo do império
A jornada dupla de trabalho, de dia como operária de fábrica e, à noite, como confeiteira, levou Cleusa a abrir sua primeira loja, de apenas 20 m², em Salto.
Com o dinheiro da rescisão trabalhista dela e do irmão, nasceu a Sensações Doces.
O diferencial? “Qualidade acima de tudo. Produto excepcional”, disse ela na entrevista ao UOL.
Segundo Cleusa, era possível chegar à loja com a família, sentar-se para comer uma fatia de bolo ou encomendar um produto pronto em apenas dez minutos.
Por cinco anos, ela comandou apenas uma unidade.
Franchising foi uma palavra que Cleusa ouviu pela primeira vez de um cliente paulistano, quando tinha 35 anos. Após seis meses de insistência, decidiu transformar o negócio em franquia, em 2006.
Em 2009, a marca já operava 50 lojas em São Paulo. Vendia franquias e reinvestia todo o dinheiro na empresa. Ela conta, inclusive, que manteve o seu carro: um Gol 1000.
Mas um detalhe inicialmente despercebido a faria passar anos no vermelho.
De Sensações Doces a Sodiê
Quando a rede já contava com 74 lojas franqueadas, a Sensações Doces precisou se tornar Sodiê: uma combinação dos nomes de seus filhos, Diego e Sofia. O motivo da troca foi o uso do nome “Sensação”, marca registrada da Nestlé.
A mudança custou caro. Sem repassar despesas aos franqueados, Cleusa arcou com a troca da identidade visual de todas as unidades da rede. O processo a manteve no vermelho por quatro anos.
Paralelamente, o boca a boca continuava impulsionando o negócio. Cada vez mais clientes passavam a conhecer seus produtos por recomendação de amigos e familiares.
Em 2025, a Sodiê faturou R$ 800 milhões. Sem recorrer a grandes empréstimos, Cleusa diz ter construído a rede trabalhando com os recursos que tinha à disposição.
Até hoje, cada loja mantém sua própria cozinha, e nenhum produto é congelado. A receita continua sendo a de dona Rosa, embora tenha sido adaptada ao longo dos anos.
Hoje, Cleusa comanda uma das maiores redes de bolos do país. Ainda assim, diz não olhar para a própria trajetória com sofrimento.
“Eu sempre fui feliz”.
*Sob supervisão de Ricardo Gozzi.
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