Nubank estreia nos EUA, lança aposta para dinheiro sem fronteiras e testa se sua fórmula pode ganhar o mundo
O Nubank (ROXO34) passou os últimos 13 anos construindo uma das maiores histórias de disrupção do sistema financeiro latino-americano. Agora, a fintech decidiu testar se a fórmula que conquistou o Brasil, o México e a Colômbia também funciona no mercado mais rico do setor bancário mundial: os Estados Unidos.
O Nu começou a operar nos EUA nesta quinta-feira (10), com produtos bancários para o dia a dia, como conta remunerada, cartões de débito e crédito, cashback e transferências.
A estreia vem acompanhada de uma segunda aposta: o lançamento do Nu Global, uma conta multimoeda voltada a clientes que vivem, trabalham ou movimentam dinheiro entre diferentes países.
Com os dois movimentos, o Nubank começa a testar não apenas sua capacidade de conquistar clientes em um novo mercado, mas também até onde pode levar um modelo construído para funcionar sem depender de agências e fronteiras.
“Este é o próximo capítulo de algo que começamos há treze anos em uma casinha em São Paulo”, disse David Vélez, fundador e CEO do Nu, durante evento de lançamento em Miami.
No Brasil, a companhia já alcançou mais de 60% da população adulta e se tornou a maior instituição financeira privada do país. No México, é o maior banco digital; na Colômbia, se tornou a quarta maior instituição financeira em depósitos e lidera o mercado em crescimento e emissão de cartões de crédito.
Agora, a ambição é descobrir até onde consegue levar um modelo construído sobre tecnologia, baixo custo e experiência digital.
“Construir essa plataforma também significa olhar além de qualquer mercado individual para problemas que são universais”, disse Vélez.
Os novos produtos do Nu começam a ser liberados a partir desta quinta-feira. Os usuários podem se cadastrar em nu.com.
A fórmula do Nubank para entrar no quintal dos gigantes
Segundo dados citados pelo Nu, a receita do varejo bancário norte-americano cresceu a uma taxa média anual de 7% entre 2019 e 2024, chegando a cerca de US$ 1,2 trilhão, e pode se aproximar de US$ 1,4 trilhão até 2029.
Mas, diferente de boa parte da América Latina, os EUA já têm um ecossistema financeiro maduro, com grandes bancos, fintechs e cartões disputando a atenção de consumidores que já estão acostumados aos serviços digitais.
Ainda assim, há uma conta que o Nubank acredita que pode explorar. O Boston Consulting Group (BCG) estima que bancos e outras instituições financeiras cobram cerca de US$ 82 bilhões por ano em tarifas dos consumidores norte-americanos.
É nesse terreno que o Nubank tenta levar uma fórmula que já conhece: concentrar serviços no celular, reduzir a fricção para o cliente e buscar uma relação mais ampla com o usuário.
Cristina Junqueira, cofundadora e CEO do Nu US, resumiu a tese com uma história curiosa. Segundo a imprensa norte-americana, até o Papa Francisco teria enfrentado problemas com o sistema bancário norte-americano ao tentar alterar seu endereço após se mudar para o Vaticano.
“Nem mesmo o Papa Francisco é imune à burocracia e ao mau serviço”, disse a executiva. “Ele passou em todas [as perguntas de segurança], mas insistiram que deveria ir pessoalmente a uma agência em Chicago para resolver algo. Ao que ele disse que realmente não podia, pois estava no Vaticano sendo... o Papa, e desligaram na cara dele.”
O episódio ilustra o problema que o Nubank pretende atacar ao competir nos EUA: a complexidade.
“Os EUA ainda emitem mais cheques de papel do que qualquer país desenvolvido, não porque as pessoas mereçam menos, mas porque o sistema nunca teve motivo para mudar”, afirmou.
O que o Nubank oferecerá nos EUA?
A conta norte-americana do Nubank começa com rendimento (APY) de 3,50% ao ano sobre os dólares mantidos na Nu Account. Os depósitos ficam no Lead Bank, instituição parceira segurada pela FDIC, similar ao nosso Fundo Garantidor de Créditos (FGC) nos EUA.
A conta também inclui metas de economia, pagamento de contas e transferências locais e internacionais. Em breve, clientes que utilizarem o cartão de crédito Nu e cumprirem determinadas condições poderão receber 4,50% ao ano sobre o saldo destinado às metas de economia.
No cartão de crédito, a proposta inclui 1,5% de cashback ilimitado, sem anuidade, em parceria exclusiva com a Mastercard. Segundo os executivos, o cashback poderá chegar a 2% para clientes que cumprirem determinados critérios.
O cartão terá ainda benefícios da bandeira Mastercard World Elite e uma versão de metal em edição limitada, em uma proposta semelhante à do Ultravioleta no Brasil.
Nubank ainda não é banco nos EUA
Apesar de o Nubank já ter solicitado uma licença bancária nacional nos Estados Unidos em setembro de 2025 e recebido aprovação condicional da OCC em janeiro de 2026, a operação que começa agora será feita por meio de um modelo de banco parceiro.
Segundo a fintech, a estratégia permite que a companhia entre no mercado antes de concluir todas as etapas para operar com sua própria licença bancária.
Com isso, o Nubank pode começar a conquistar clientes, testar produtos e coletar feedback enquanto avança na construção de sua estrutura local.
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A segunda aposta do Nubank: dinheiro sem fronteiras
Se a entrada nos EUA coloca o Nubank diante de uma nova arena competitiva, o Nu Global aponta para uma ambição ainda maior.
Para Vélez, a conta multimoeda foi desenhada para pessoas cuja vida financeira não cabe em um único país — seja porque trabalham no exterior, viajam com frequência, estudam fora ou simplesmente precisam movimentar dinheiro entre diferentes mercados.
Segundo dados do Banco Mundial, hoje, mais de 300 milhões de pessoas vivem e trabalham cruzando fronteiras a cada ano. Em 2025, elas movimentaram cerca de US$ 800 bilhões internacionalmente, e, em média, perderam 6% desse dinheiro com tarifas e margens de câmbio.
É esse problema que a Nu Global tenta atacar. A conta permite manter saldos em dólares digitais (USDC) e euros digitais (EURC) com rendimento de 3,50% ao ano para o saldo em dólar e 2,20% ao ano para o saldo em euro.
A plataforma ainda permite enviar e receber dinheiro em mais de 35 países, começando por Europa e América Latina. Brasil, México, Colômbia e Estados Unidos estão entre as integrações previstas para os próximos meses.
O cliente ainda recebe um cartão virtual Mastercard para fazer compras internacionais sem markup cambial e poderá manter e negociar, dentro do próprio aplicativo, uma seleção de ativos digitais, incluindo bitcoin (BTC) e ethereum (ETH).
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