Para André Esteves, cenário difícil exige que empreendedores façam gestão ‘da porta para dentro’, com foco no que podem controlar
O cenário de negócios no Brasil é desafiador, mas o empreendedor não pode deixar que aquilo que está fora do seu controle determine o rumo da empresa. Essa foi uma das principais mensagens de André Esteves, chairman do BTG Pactual, durante o Fórum Empreendedor nesta quinta-feira (10), evento da divisão de empresas do banco.
Ao participar do painel sobre as perspectivas para a economia brasileira, Esteves destacou que juros elevados, incertezas fiscais e volatilidade eleitoral fazem parte da equação que os empreendedores precisam considerar.
A saída, segundo ele, é entender o que acontece "da porta para fora" e concentrar a gestão no que pode ser feito "da porta para dentro".
"A gente vive numa jurisdição em que a incerteza faz parte da nossa certeza. E, por outro lado, também é onde a gente construiu empresas maravilhosas", afirmou Esteves.
Para Esteves, o primeiro passo é entender que boa parte das variáveis que afetam os negócios não está nas mãos do empresário. Em vez de gastar energia com aquilo que não pode mudar, a gestão deve se concentrar nas decisões que estão ao alcance do negócio.
Esteves também defendeu uma mentalidade de execução, sem vitimização. Ele citou uma característica da cultura do banco: "é proibido reclamar". A lógica, explicou, é que "viajante com mochila pesada não chega longe".
Desafios domésticos como “fatores da equação” para os empreendedores
A fala de Esteves veio na mesma linha da mensagem deixada por Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual, durante a abertura do evento.
Segundo Sallouti, a proposta do Fórum Empreendedor é ajudar os empresários a potencializarem aquilo que está sob seu controle, mesmo em um ambiente de negócios mais complicado.
Para o CEO do BTG Pactual, os empresários precisam considerar os desafios domésticos como fatores da própria equação dos negócios.
É o caso dos juros. "A gente pode debater aqui como resolver a taxa de juros no Brasil, o que é relativamente simples, mas a gente tem que se preparar para seguir no ambiente desafiador de taxa de juro", afirmou.
Outras questões, como os gargalos de segurança jurídica, segurança pública e tributação, levam anos para serem resolvidas. Já a produtividade da mão de obra depende de reformas estruturantes e de educação.
O executivo também citou a reforma tributária como um elemento recente de atenção. Segundo ele, ela “é boa para umas empresas, desafiadora para outras empresas e afeta o capital de giro”.
Diante desses obstáculos cotidianos, não tem outro caminho, segundo ele: “A gente pode se lamentar ou ver isso como um fator da equação e usar isso a nosso favor”.
O cenário global está desafiador — e vai continuar
Além do panorama local, Sallouti apresentou quatro grandes transformações geopolíticas e econômicas mundiais que, na visão dele, precisam entrar na equação das empresas.
Nova ordem geopolítica: a era de integração global acelerada e tarifas reduzidas, iniciada nos anos 1990 com o fim da Guerra Fria, deu lugar a um mundo polarizado — e a uma nova Guerra Fria. O executivo ressaltou que o Brasil está em uma posição privilegiada para transacionar com todas as potências envolvidas. Como reflexo dessa dinâmica, o BTG Pactual mantém presença nos Estados Unidos, China e Europa para apoiar seus clientes nesses mercados.
Juros globais estruturalmente mais altos: o período de taxas de juros extremamente baixas observado após a crise de 2008 ficou para trás. Segundo Sallouti, esse movimento é impulsionado pelos investimentos maciços em inteligência artificial, pela dinâmica fiscal norte-americana e pelo crescimento firme da economia dos Estados Unidos.
Mudanças climáticas permanentes: episódios climáticos extremos deixaram de ser eventos isolados e passaram a constituir um novo padrão. As empresas precisam reavaliar suas cadeias de suprimentos, logística e gestão de riscos, sempre levando em conta que “o que passou nos últimos 100 anos não serão os próximos 100 anos”.
Revolução da inteligência artificial: ao fazer uma comparação com a Revolução Industrial — que transformou energia em força bruta —, Sallouti definiu a inteligência artificial como a transformação de energia em “inteligência bruta”.
Para ele, o uso planejado da tecnologia é revolucionário para otimizar a experiência do cliente, aumentar a eficiência operacional e reduzir riscos.
A mentalidade de 'disciplina e paranoia’
Para liderar em um ambiente marcado por transformações tão profundas, Sallouti defendeu que a gestão atual exige uma combinação de “disciplina e paranoia”.
A disciplina se aplica ao cumprimento do rumo estratégico, ao conservadorismo nas decisões e à rigorosa gestão de riscos. Já a paranoia funciona como o motor que impede a estagnação tecnológica.
“A gente não precisa ser o primeiro, mas a gente não pode ser o último a adotar essa mudança tecnológica”, alertou.
Em relação à histórica volatilidade do mercado brasileiro, o CEO compartilhou a resposta que costuma dar a investidores internacionais impressionados com a trajetória do banco no país.
“O Brasil vai ser volátil, a gente sempre soube. A gente usa isso a nosso favor.”
Juros altos ainda são um problema para as empresas
No painel de conjuntura, Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, aprofundou a discussão sobre os efeitos dos juros elevados na economia.
Embora o Brasil tenha registrado crescimento médio do Produto Interno Bruto (PIB) de 3,3% ao ano entre 2021 e 2025 e reduzido o desemprego de 15% para 5,3%, a percepção de consumidores e empresários continua pressionada pelo alto custo de vida e pelo encarecimento do crédito.
Para Mansueto, os juros serão um dos principais determinantes do crescimento brasileiro.
"O grande determinante de crescimento do Brasil que vai afetar é juros. E será o sexto ano seguido de juros no Brasil acima de 10%. Isso machuca o balanço das empresas, isso tem machucado o orçamento das famílias e vai levar a um ano de crescimento muito baixo", explicou.
Para permitir uma queda sustentável desses juros, Mansueto defendeu que o governo precisa sinalizar controle sobre o crescimento dos gastos públicos. Segundo ele, não seria necessário fazer cortes dramáticos no orçamento, mas controlar o ritmo de expansão das despesas.
"O desafio não é cortar 20, 30, 50, 100 bilhões. O desafio é segurar o crescimento do gasto; se fizer isso, muda totalmente o cenário que hoje está precificado no mercado", afirmou.
Eleições também entram na equação
A corrida eleitoral e seus possíveis efeitos sobre os mercados também fizeram parte da discussão.
Esteves classificou o cenário político como uma disputa bastante equilibrada, em um cenário de "50 a 50" ou "51 a 49", com forte possibilidade de segundo turno.
Apesar disso, o chairman do BTG Pactual observou que os ativos financeiros locais têm apresentado relativa estabilidade e baixa volatilidade extrema em comparação com outros períodos eleitorais.
Para ele, a disciplina fiscal também não deveria ser tratada como uma questão de esquerda ou direita.
"Ter disciplina com as suas contas não deveria ser um tema de esquerda ou de direita. Deveria ser um tema de bom senso, um tema de compromisso com a sociedade, um tema de responsabilidade com as futuras gerações", defendeu.
Mansueto destacou que a aprovação de reformas estruturais depende de diálogo e da construção de consensos entre o Executivo, o Congresso, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal de Contas da União (TCU).
"Em Brasília tem todo um ritual e eles prezam muito pelo diálogo", afirmou, lembrando da aprovação da Reforma da Previdência em 2019 e de outras matérias econômicas que dependeram de articulação técnica e política.
Brasil tem pontos fortes
Apesar das incertezas de curto prazo, Esteves e Mansueto também destacaram os fundamentos que consideram positivos na economia brasileira.
Entre eles estão as reservas internacionais líquidas, de cerca de US$ 370 bilhões, o mercado de capitais funcional e o baixo desemprego.
Mansueto também destacou a força do agronegócio, cuja produção saltou de 100 milhões para 350 milhões de toneladas em 20 anos, além da posição do Brasil como exportador líquido de petróleo.
A expectativa apresentada pelo economista-chefe é de um saldo comercial de US$ 85 bilhões no ano, dos quais US$ 45 bilhões viriam do setor petrolífero.
"Quando você coloca tudo isso em perspectiva, não está tão difícil", disse Mansueto. “Olhando isso em perspectiva, eu acredito que a gente sim pode melhorar. Então assim, por incrível que pareça, apesar de tanta confusão, eu não estou pessimista com o Brasil, não."
Esteves também apontou uma oportunidade no cenário internacional. Segundo ele, o Brasil e a América Latina estão em uma posição privilegiada para atrair a realocação de capitais globais, especialmente por serem provedores de segurança alimentar e energia limpa e por terem estabilidade geopolítica.
"Nossos temas são mais previsíveis", disse.
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