Como o Eco Invest pode transformar ciência em negócio
O Brasil ocupa hoje a 52ª posição no ranking global de inovação da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI). A posição não é acidental: apenas 26% dos pesquisadores brasileiros atuam no setor privado, contra 70% ou mais nos países líderes em inovação — desequilíbrio que se reflete direto na produção de propriedade intelectual.
O país registra só 0,13 pedidos de depósito de patente internacional por bilhão de PIB. A título de comparação, a Coreia do Sul produz 66 vezes mais, exigindo do Brasil R$ 7,5 bilhões de investimento por patente — custo que evidencia a correlação entre inovação e a maturidade institucional já consolidada nos países desenvolvidos.
E o quadro piora: pelo World Intellectual Property Indicators, o Brasil vive o terceiro ano seguido de queda de patentes concedidas, tem a maior taxa de abandono de depósito entre os escritórios avaliados (38,3%) e aprovou menos da metade das aplicações em 2024. O diagnóstico é claro: o Brasil investe em pesquisa, mas não converte esse investimento em tecnologia competitiva.
Reverter esse cenário exige integração entre poder público, setor privado, academia e sociedade — e foi para isso que o Brasil criou o Eco Invest Brasil, programa que usa capital público (catalítico) para atrair capital privado a projetos de inovação e sustentabilidade.
O país já realizou cinco rodadas. O 5º Leilão, sob o tema “Acelerar a Inovação para a Competitividade Nacional”, mira o baixo investimento em novas tecnologias, a fraca integração entre empresas e universidades e o pouco empreendedorismo de base tecnológica.
Para isso, o programa precisa superar o chamado ‘vale da morte’ — estágio em que muitos empreendimentos promissores morrem ou deixam de existir antes de provar sua viabilidade comercial.
O 5º leilão organiza esse percurso em três vales, cada um com seu instrumento e seus operadores: o tecnológico (projetos iniciais, em laboratório ou como MVP), com acesso restrito a capital de fomento; o do escalonamento (validação de mercado), dependente de capital tradicional avesso a soluções de vanguarda; e o da comercialização (tecnologias maduras), com dificuldade de crédito.
É nesse encaixe entre maturidade e tipo de capital que mora o desenho do programa — e é o BNDES, com bancos credenciados, quem viabiliza cada instrumento na prática.
Os instrumentos financeiros
Historicamente, o programa opera por leilões de linhas de crédito a instituições financeiras, com juros de 1% ao ano, concedidas a quem apresenta maior fator de alavancagem — mais capital privado mobilizado por menos capital catalítico, condicionado à comprovação de que o capital privado está de fato sendo atraído.
Até o 3º leilão, o programa mobilizou cerca de R$ 127 bilhões em cerca de 40 projetos, segundo o Monitor Eco Invest Brasil, do Tesouro Nacional. O 4º leilão, voltado à bioeconomia, ao turismo sustentável e à infraestrutura na Amazônia Legal, somou mais R$ 13,2 bilhões, elevando o total para mais de R$ 140 bilhões.
O 5º leilão traz três instrumentos.
Os Fundos de Inovação Eco Invest atendem projetos iniciais e intermediários: o capital entra via instrumentos híbridos — mútuos conversíveis em equity, venture debt —, com o capital catalítico protegendo o investidor privado e reduzindo a exposição a perdas em mais de 80% dos projetos simulados.
As linhas de crédito corporativo atendem tecnologias já validadas em escala comercial: os bancos originam as operações e se comprometem a alavancar ao menos três vezes o capital catalítico, com taxas próprias, mas custo de funding reduzido e risco cambial mitigado pelo programa.
Já o fomento à pesquisa aplicada e ao empreendedorismo tecnológico destina 0,5% ao ano do total mobilizado a pesquisa, formação de pesquisadores e apoio a startups, parques tecnológicos e ICTs — com ao menos 25% reservado a startups, aceleração, incubação e spin-offs acadêmicos.
Pelo manual operacional do 5º Eco Invest, já em vigor, os projetos devem atender critérios de adicionalidade, materialidade, vínculo com o território nacional e maturidade compatível com o instrumento, com parcerias acadêmicas obrigatórias, desembolso em três parcelas (25%, 50%, 25%) conforme a alavancagem comprovada e monitoramento anual com auditoria externa.
Do micro ao macro
O Eco Invest integra o Plano de Transformação Ecológica (PTE), ao lado da Nova Indústria Brasil, do Combustíveis do Futuro e do Fundo Clima. Segundo a Embrapii, entre 2021 e 2024 os recursos da área cresceram 30% e o investimento em P&D avançou 35% (MCTI), puxado pela recomposição do FNDCT, cujos recursos cresceram 216% no período — em 2024, os investimentos governamentais somaram R$ 88,7 bilhões em ciência e tecnologia e R$ 72,9 bilhões em P&D.
O 5º leilão reforça essa alavanca num momento em que a polarização protecionista global e o avanço de políticas de autossuficiência em grandes potências pressionam os modelos de crescimento dependentes de comércio e exportações. O Brasil não pode se dar ao luxo de ficar de fora dessa corrida.
O cenário geopolítico e a urgência de ação
O Brasil ocupa posição periférica na divisão internacional do trabalho, com modelo agroexportador e mineral: em 2024, produtos de baixa intensidade tecnológica somaram US$ 130,7 bilhões (37,5% das exportações), ante apenas 2,7% de alta tecnologia; as importações da indústria de transformação, 92,7% do comprado do exterior, subiram 8,6% em 2025, a US$ 259,7 bilhões, recorde.
É esse quadro que o Eco Invest tenta reverter, ao posicionar o Brasil na fronteira tecnológica global por meio de seis verticais prioritárias do 5º leilão — eixos que consideramos vitais tanto para a transição ecológica quanto para a competitividade e a soberania tecnológica do país: (1) Combustíveis Verdes Avançados, Biogás e Biometano; (2) Fertilizantes Verdes, Bioinsumos e Proteínas Alternativas — o Brasil consome 8% desses insumos no mundo, mas importa 80% do que usa; (3) Biomateriais e Química Verde; (4) Beneficiamento de Minerais Críticos, Baterias e Mobilidade Elétrica; (5) Circularidade de Resíduos Minerais e Industriais — 97% dos resíduos sólidos do país não são reciclados; e (6) Automação e IA para Processos Produtivos, área em que a Agência Internacional de Energia estima que a IA poderia cortar até 5% das emissões globais de energia até 2035.
O 5º Leilão Eco Invest é um movimento estratégico para o país migrar de uma economia de volume para uma de valor. Diante de potências que usam tecnologia e barreiras comerciais como instrumento geopolítico, a passividade seria regressão. Ao fomentar tecnologias próprias em bioinsumos e minerais críticos, o Brasil reduz sua vulnerabilidade externa e constrói bases de soberania tecnológica.
Mas capital catalítico bem desenhado não basta: é preciso um pipeline de projetos maduros, prontos para recebê-lo. Esse é o verdadeiro teste do Eco Invest e do Plano de Transformação Ecológica: transformar recursos em tecnologia, e tecnologia em competitividade, antes que a janela geopolítica se feche.
* Gabriela Bonotti, é co-CEO do Quintessa
* Caroline Gibim é especialista em deeptechs do Quintessa




















