Chuvas no Brasil reduzem oferta de café premium e pressionam Starbucks, Lavazza e Illy
Conseguir os melhores grãos de café arábica pode ficar mais difícil para torrefadoras premium e clientes, após uma onda de fortes chuvas atingir as lavouras no Brasil.As chuvas no maior produtor mundial não apenas atrasaram a colheita, como também comprometeram a qualidade em importantes regiões produtoras, restringindo a disponibilidade dos cobiçados grãos usados nas melhores combinações vendidas por Starbucks, Luigi Lavazza e Illycaffe.O café arábica premium tem sabor especialmente aromático e suave, que depende das condições adequadas. As chuvas derrubaram grande quantidade de frutos maduros dos cafeeiros, deixando no solo encharcado as cerejas que contêm os grãos e expondo-as à contaminação. Isso pode resultar em sabores indesejáveis de mofo e bolor."A grande maioria dos grãos acaba apresentando problemas de qualidade, o que resulta em um café com maior grau de fermentação e afeta significativamente a bebida", disse Simão de Lima, CEO da cooperativa Expocacer, que representa mais de 800 produtores na região do Cerrado Mineiro, no Sudeste do Brasil. “Isso teve impacto significativo.”⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.Os problemas no Brasil são particularmente relevantes para o mercado de café arábica porque o país sul-americano responde por cerca de 45% da produção da variedade. A produção foi afetada nas últimas safras, o que ajudou a levar os preços a um recorde no ano passado. Embora o Brasil caminhe agora para uma safra abundante, o desafio relacionado à qualidade torna mais incertas as perspectivas para a oferta.No Cerrado Mineiro, cerca de 600 quilômetros ao norte de São Paulo, os agricultores mal haviam começado a colheita quando as chuvas de junho derrubaram frutas maduras no cinturão produtor de arábica, e parte dos frutos caídos permaneceu encharcada durante dias.Lima estima que, em média, 20% dos frutos da safra foram derrubados dos cafeeiros pelas chuvas tropicais, ante cerca de 5% a 7% em um ano típico.Leia também: Café colombiano vive fim da bonança de dois anos. No Brasil, previsão é de safra recordeQuando os grãos finalmente foram recolhidos, uma segunda onda de chuvas, em julho, atingiu o café que havia sido colocado para secar, o que obrigou alguns produtores a reiniciar o processo de secagem e comprometeu ainda mais a qualidade.Alcançar um equilíbrio delicado entre a lavagem e a secagem dos grãos colhidos é essencial para controlar a umidade, obter os níveis adequados de acidez e preservar os compostos voláteis que conferem ao arábica suas notas características.“Você tem um café que já está secando no terreiro, aí chove novamente sobre esse café e é preciso começar toda a secagem de novo”, disse Lima.As chuvas atingiram de 250% a 500% dos níveis normais em partes do cinturão cafeeiro brasileiro em junho e julho, e algumas áreas receberam até oito vezes o volume habitual, segundo a empresa de meteorologia Vaisala.O impacto das chuvas já afetou os preços. Os futuros do café arábica subiram cerca de 35% desde junho, revertendo grande parte das quedas acumuladas neste ano. No mercado físico, cafés finos brasileiros são negociados com prêmios de até 15 centavos de dólar por libra-peso sobre os futuros de Nova York, segundo quatro corretores com conhecimento direto do assunto.Leia também: Preço do café deve seguir pressionado por até dois anos, diz presidente da LavazzaO problema de qualidade também significa que haverá menos café disponível para recompor os estoques nos armazéns certificados pela Intercontinental Exchange nos EUA e na Europa, que balizam os contratos de referência e se aproximam do menor nível deste século.Oferta está restrita nos armazéns da ICE após anos de problemas na produção.A ICE estabelece padrões verificados por profissionais especializados, que provam amostras de lotes de café e examinam as características físicas dos grãos. Segundo as diretrizes da bolsa, o café deve estar “em boas condições, livre de todos os sabores na xícara associados a café não lavado e envelhecido, ter boa qualidade de torra e apresentar tamanho e cor dos grãos de acordo com os critérios estabelecidos pela Bolsa”.Normalmente, os grãos que atendem aos critérios da ICE representam de 30% a 35% da produção, disse Lima. Com a queda incomum dos frutos neste ano, o percentual pode ficar mais próximo de uma estimativa de 10% a 15%, acrescentou.A região de Lima produz alguns dos melhores cafés do Brasil, muitas vezes chamados de semilavados por causa do processo usado para remover a polpa que envolve os grãos.Leia também: Adaptação começa no solo: como El Niño transforma a produção de café na América CentralO peso da produção brasileira é tão grande que até compradores que normalmente adquirem arábica de outras origens podem enfrentar concorrência mais intensa pelos melhores grãos, enquanto o mercado tenta preencher qualquer lacuna deixada pelos produtores brasileiros.No fim das contas, o problema é maior para consumidores que apreciam uma boa xícara de arábica do que para as grandes torrefadoras. As maiores empresas de café têm alternativas, como repassar custos mais altos aos preços no varejo, especialmente nos produtos premium, além de contar com margem de manobra para combinar cafés de diferentes regiões e níveis de qualidade.Embora as chuvas tenham reduzido a participação dos cafés semilavados em algumas áreas, a alta dos prêmios foi impulsionada em parte por produtores capitalizados que estão segurando as vendas, segundo Cristina Scocchia, CEO da Illycaffe.“Qualquer aumento moderado dos prêmios decorre mais da dinâmica do mercado e do comportamento de produtores bem capitalizados do que de problemas específicos de qualidade”, disse.Contratos futuros dispararam desde junho, uma vez que as chuvas atrasaram a colheita.O Departamento de Agricultura dos EUA projeta que a oferta de café superará o consumo em 10 milhões de sacas na temporada que começa em outubro, o maior excedente em seis anos. O resultado será impulsionado principalmente por uma safra recorde no Brasil.Mas, se Lima estiver certo, o excedente global deste ano não terá muito arábica premium da região onde atua.“Não haverá o mesmo volume de café de alta qualidade”, disse.Veja mais em bloomberg.com

























