Qual o impacto das eleições para os mercados e o que esperar daqui para frente?

Segundo turno deve ser marcado por maior volatilidade nos mercados, com investidores de olho nas equipes e nos programas econômicos dos candidatos

Foto: Shutterstock

O resultado apertado da disputa entre os dois principais candidatos a presidente, Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mostra que a disputa será acirrada no segundo turno, devendo trazer volatilidade aos mercados até as eleições em 30 de outubro.

O desempenho de Bolsonaro foi melhor que o indicado nas pesquisas eleitorais e deve ser bem visto pelo mercado, já que um segundo mandato na Presidência indicaria a manutenção da política econômica atual, mas também aponta um desafio para ambos os candidatos: o de conquistar o eleitor de centro.

“Os dois vão ter que amenizar o discurso. Bolsonaro na questão ambiental vai ter que dar mais acenos, e o Lula na questão econômica vai ter que dar mais pistas do que faria e tirar polêmicas como desfazer reformas e mexer nas estatais”, afirma Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos.

Embora estas eleições tenham mexido menos com o mercado em relação às últimas disputas, dada a familiaridade dos investidores com a forma de Bolsonaro e de Lula governarem, o comportamento dos ativos tende a ser mais influenciado agora pelas pesquisas e detalhes sobre as propostas econômicas, principalmente na área fiscal.

“Os dois candidatos fizeram campanha por mais gastos públicos e o futuro presidente terá o desafio de equilibrar as contas públicas e da reformulação da âncora fiscal”, afirma Pedro Patrão, economista e sócio da HCI Invest.

Para Cruz, um crescimento de Lula nas pesquisas deve contribuir para aumentar as taxas de juros no mercado de renda fixa.

“A política fiscal de Lula é mais expansionista e pode demorar mais do que o esperado para o Banco Central cortar juros”, diz Cruz.

O ex-presidente Lula já declarou que não pretende manter o teto de gastos (medida que limita o aumento das despesas do governo à inflação do ano anterior) e prometeu aumento dos desembolsos com programas sociais e investimentos em infraestrutura.

Para o Morgan Stanley, o cenário fiscal deve piorar em 2023 independentemente de quem ganhar as eleições, mas não dramaticamente. O banco prevê um déficit primário próximo a 0,25% e 0,50% do PIB em 2023 em um eventual governo Lula.

Reação das ações às eleições vai variar de acordo com o setor

O desempenho dos ativos na Bolsa deve variar de acordo com o cenário eleitoral.

Um crescimento de Lula nas pesquisas pode impulsionar as ações dos setores de educação, com expectativa de ampliação do Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), de construção civil voltada para o segmento de baixa renda e de consumo básico como Assaí (ASAI3) e Camil (CAML3), diz  Fernando Siqueira, analista da Guide Investimentos.

Em setembro, as ações  da Cyrela (CYRE3), MRV (MRVE3) e Cogna (COGN3) lideraram a alta do Ibovespa, com investidores já se posicionando para esse cenário.

as estatais como Petrobras (PETR3) e Banco do Brasil (BSAS3) devem ter desempenho oposto com o crescimento do petista nas pesquisas, diante da preocupação com uma maior intervenção do governo, e têm potencial de alta em caso de reeleição do presidente Bolsonaro, afirma Cruz.

Da mesma forma, as ações de estatais como Copasa (CSMG3) e Cemig(CMIG4), e Sabesp (SBSP3) podem andar com a eleição de Romeu Zema (Novo) em Minas Gerais e a ida de Tarcísio de Freitas (Republicanos) para o segundo turno. A expectativa é de que eles podem avançar com a privatização destas companhias, diz Cruz.

O ponto principal ao qual os investidores estarão atentos é a sinalização dos candidatos a presidente sobre a equipe econômica e o plano de governo.

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Em eventual reeleição do presidente Bolsonaro, é esperada a continuidade da política econômica de menor intervenção do Estado na economia, da agenda de reformas, de privatizações e de uma carga tributária menor,  avalia Cruz.

Já em eventual governo Lula, a reação dos mercados vai depender das indicações para a equipe econômica e do plano de governo, destaca o estrategista da RB Investimentos.

Mercado de olho na equipe econômica

Apesar de a campanha do PT ter evitado dar detalhes sobre a composição da equipe econômica, alguns nomes já estão sendo ventilados no mercado. Segundo os analistas, há duas possibilidades para o perfil do novo ministro da Economia: um nome mais político, que poderia facilitar a negociação com o Congresso para a aprovação de reformas, e um nome mais de mercado, como o de Henrique Meirelles, que foi presidente do Banco Central no governo Lula.

“O Meirelles seria uma surpresa positiva porque teria condições de trazer uma equipe boa e avançar com as reformas tributária e administrativa. Se for um ministro com perfil mais político, dependendo de quem for, poderia ter alguma dificuldade para a formação da equipe”, diz Siqueira.

Entre os possíveis candidatos com perfil político estariam o atual governador da Bahia, Rui Costa (PT), o ex-governador da Bahia e ex-ministro nos governos Lula e Dilma, Jaques Wagner, o governador do Piauí, Wellington Dias (PT), o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSB) e o atual candidato ao governo de São Paulo pelo PT, Fernando Haddad. Esse último é visto como o nome menos positivo para os mercados.

“Se for o Jaques Wagner ou o Rui Costa, o mercado até recebe bem, mas o Haddad seria bem mais difícil porque ele é mais alinhado com a linha da Dilma”, diz Cruz.

Cruz lembra que Costa fez um ajuste fiscal na Bahia que incluiu uma reforma administrativa com redução do número de secretarias, cargos, além de reforma da previdência do Estado.

No caso do Banco Central, o mercado não espera uma troca do atual presidente da autoridade monetária, Roberto Campos Neto, cujo mandato termina no fim de 2024.

“O mercado espera que Campos Neto continue à frente do BC e isso explica, em parte, essa menor volatilidade nessa eleição. Se ele sair. será uma surpresa negativa”, diz Evandro Buccini, sócio e diretor de renda fixa e multimercados da Rio Bravo Investimentos.

Investidores também aguardam os detalhes das propostas do PT para a área econômica.

Na visão dos analistas e gestores, ambos os candidatos teriam condições de aproveitar a lua de mel dos cem dias de governo para aprovar reformas, especialmente a tributária, cujo assunto já foi amplamente debatido no Congresso.

Para aprovar as reformas, contudo, o novo governo terá que negociar com os partidos de centro, que continuam a maioria no parlamento, com a ampliação significativa de partidos mais conservadores como Republicanos e PP.

Nesse cenário, o presidente Lula teria mais dificuldade dado o crescimento do PL, partido de Bolsonaro, no Congresso. A sigla vai ocupar a maior bancada no Senado. “Com o perfil do Congresso extremamente Bolsonarista, Lula em eventual mandato terá que se aproximar de todos partidos, inclusive de desafetos recentes, crescendo a chance de o MDB declarar apoio formal ao ex-presidente”, aponta a Ativa Investimentos em relatório.

Segundo a Ativa, isso deve conter o ímpeto de uma expansão fiscal de um governo lulista e seria visto como positivo dada a complexa situação das contas públicas.

“Terceiro turno” seria pior cenário para os mercados

Uma vitória apertada de um dos candidatos que levasse a uma contestação do resultado das urnas, como ocorreu em 2014 com a vitória de Dilma Rousseff (PT) sobre Aécio Neves (PSDB), seria o cenário mais negativo para os mercados. “A reação vai depender da magnitude desses eventos”, diz Buccini.

Apesar de ser esperada maior volatilidade na Bolsa no segundo turno, analistas veem espaço para uma recuperação do Ibovespa até o fim do ano.

O Santander projeta um preço-alvo de 140 mil para o Ibovespa no fim do ano, o que implica potencial de alta de 27% em relação ao patamar atual de 110 mil pontos.

Já o Goldman Sachs projeta um Ibovespa a 116 mil pontos no fim do ano, valorização de 5,3% em relação ao patamar atual.

No caso do câmbio, o Morgan Stanley espera que o dólar se consolide em torno de R$ 5,00, com maior dificuldade para cair abaixo desse nível dado o contexto de risco no cenário global. No entanto, o banco vê o real com performance melhor que as moedas dos pares emergentes.

Para Buccini, passada a incerteza das eleições, investidores estrangeiros podem voltar para o Brasil, mas o cenário externo deve balizar o movimento.

Já Matheus Pizzani, economista da CM Capital, afirma que o comportamento do dólar ditado mais pelo cenário externo, que não está favorável, vendo a possibilidade de fortalecimento da moeda americana.

A preocupação com um aumento maior que o esperado da taxa de juros nos Estados Unidos e o receio de uma recessão global têm aumentado a aversão a risco nos mercados e contribuiu para a alta de 4,39% do dólar Ptax frente ao real e para a alta de 0,47% do Ibovespa em setembro.

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