Apesar do período eleitoral trazer maior volatilidade para os papéis de estatais, analistas e gestores veem algumas ações de saneamento como tendo um potencial de retorno interessante. Depois da desestatização da Eletrobras (ELET3), a Copasa (CSMG3), de Minas Gerais, é vista por especialistas como a empresa com maior chance de ser privatizada depois que a turbulência das eleições ficar para trás.
A despeito do risco regulatório se manter como um ponto de atenção para o setor – especialmente para a Sanepar (SAPR4), já que a agência reguladora do Paraná anunciou recentemente um reajuste abaixo do valor devido – analistas veem um cenário mais positivo com a melhora dos níveis dos reservatórios.
Além das trocas de governo, que podem acelerar os processos de privatização, a demanda por investimentos para cumprir os requisitos do Novo Marco do Saneamento deve somar R$ 620 bilhões, segundo o UBS, que prevê o lançamento de novas concessões.
A nova regulação prevê a universalização de serviços de água e esgoto até 2033, e Sanepar e Sabesp (SBSP3) são consideradas as mais adiantadas nesse processo.
Veja abaixo a perspectiva para as principais empresas de saneamento.
Copasa é “bola da vez” para privatização
A empresa de saneamento de Minas Gerais Copasa estava entre os ativos no radar do atual governador de Minas Gerais, Romeu Zema Neto (Novo) para serem privatizados e analistas veem chance de isso acontecer se ele for reeleito.
A última pesquisa do Datafolha, realizada em 1º de julho, mostrava Zema à frente na corrida eleitoral no Estado com 48% das intenções de voto, seguido pelo ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PSD), com 21%.
“Os planos de privatização da Copasa estão em vigor desde 2019 e acreditamos que o governo poderia impulsionar o projeto motivado pelo sucesso dos leilões de saneamento em outros estados”, aponta o Safra em relatório. O banco está com recomendação de compra para o papel, com preço-alvo de R$ 18.
O analista de utilities (empresas de serviços públicos) da Genial Investimentos, Vitor Sousa, também vê a Copasa como a empresa de saneamento que mais tem chance de ser privatizada em um eventual segundo mandato de Zema.
A privatização da Copasa teria que ser aprovada pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais. O partido de Zema tem uma representação pequena na Câmara, mas o analista da Genial acredita que de ele teria condições de construir apoio em um segundo mandato.
É a mesma avaliação do UBS. “Acreditamos que o governador [de MG] ainda pretende privatizar a Copasa”, diz o UBS em relatório. O banco mantém recomendação de compra para o papel com preço-alvo de R$ 18.
O UBS espera que em um outro cenário, a Copasa poderia devolver a concessão da subsidiária Copanor, que presta serviços de saneamento no norte e nordeste de Minas Gerais, recebendo uma indenização pelos ativos regulatórios (RAB).
Ao todo, a empresa opera serviços de água em 640 concessões e serviços de esgoto em 310 concessões.
Como fator positivo da empresa, o Inter destaca o fato de que o vencimento médio de seus maiores contratos é de longo prazo e uma política de distribuição de 50% de seu lucro líquido em dividendos. O dividend yield esperado para a Copasa ao final de 2022 era de 7%.
Como pontos de atenção, o Inter destaca a eficiência de sua operação e alto custo, o que penaliza as suas margens operacionais, e a posição de dívida em moeda estrangeira, que representava 6% do endividamento no primeiro trimestre. Além disso, a empresa apresentou uma queda de 24% no lucro líquido no primeiro trimestre e tinha um dos menores índices de eficiência do setor.
Privatização da Sabesp é dúvida
Depois de várias discussões do governo do Estado de São Paulo para privatizar a companhia de saneamento do Estado, a Sabesp (SBSP3), a chance de isso acontecer após as eleições traz dúvidas no mercado.
O ex-governador de São Paulo, João Doria, chegou a discutir um plano de privatização da estatal, que acabou não saindo.
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“O atual governador de São Paulo Rodrigo Garcia [do PSDB, candidato à reeleição] parece ter menos disposição ainda, já que congelou as tarifas de pedágio das rodovias estaduais neste ano”, diz Gustavo Cruz, estrategista da RB Investimentos.
Mesmo o ex-ministro de Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, candidato pelo Republicanos, não quis se comprometer com a privatização. Em palestra promovida pela ACSP (Associação Comercial de São Paulo) em maio, Tarcísio afirmou que é preciso “avaliar o quadro da empresa”.
Ou seja, se seria melhor uma Sabesp pública ou privada para atingir os objetivos impostos pelo Novo Marco do Saneamento, que prevê a universalização total dos serviços de água e de 90% para esgoto até 2033.
Para o UBS, se Tarcísio vencer a eleição as ações poderão ter um desempenho positivo, uma vez que os investidores precificam maior probabilidade de privatização, dado o histórico de atuação do ex-ministro nos leilões e concessões à iniciativa privada, aponta o banco em relatório.
A última pesquisa Datafolha, de 30 de junho, mostra Tarcísio com 12% das intenções de voto, com Fernando Haddad (PT) liderando a corrida eleitoral com 28% das intenções.
Já o Inter acredita que, das empresas de saneamento, a Sabesp é que teria maior chance de ser privatizada, uma vez que já há um estudo de capitalização da empresa, afirmou Rafael Winalda, analista do Inter, à Agência TradeMap.
Como fator positivo da empresa, o Inter destaca a previsibilidade da receita, já que os seus dez principais contratos apresentam prazo médio de aproximadamente 25 anos.
“Em termos de preço versus o valor justo, a Sabesp é a empresa de saneamento mais preparada para destravar tais valores devido à sua localização, ao elevado nível de atividade econômica da região e ticket médio das famílias”, diz Winalda.
O Inter está com recomendação de compra para o papel com preço-alvo de R$ 52. Já o Safra está com recomendação de outperform (acima da média do mercado) com preço-alvo de R$ 64,60.
Em relação ao seu desempenho operacional, o Inter destaca que a empresa já tem o serviço de abastecimento de água e esgoto universalizado. A empresa ainda tem interesse em disputar contratos fora do Estado de São Paulo.
A Sabesp é a principal escolha do UBS para o setor de saneamento, principalmente
devido ao seu múltiplo atrativo, negociando a 0,6 vezes o EV/RAB (valor de mercado sobre a base de ativos regulatórios), abaixo do nível de crise hídrica de 2014, e em função de potencial melhora de eficiência.
A empresa apresentou um crescimento anual de 96% do lucro no primeiro trimestre.
Risco regulatório na Sanepar
No caso da Sanepar (SAPR4), o risco regulatório de intervenção no reajuste das tarifas ainda é ponto de atenção em relação à empresa.
As ações da companhia tiveram forte queda em dezembro de 2020 após a Agepar (Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados do Paraná) ter anunciado um reajuste tarifário abaixo do valor devido.
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A companhia ainda aguarda a conclusão da segunda etapa do processo de revisão tarifária periódica, que foi adiado para abril de 2023 pela Agepar. “Esse é o principal risco do nosso modelo e nos fez revisar nossa recomendação de compra para neutra, com preço alvo em R$ 27 por ação”, afirma Winalda.
Como ponto positivo, a empresa conta com a universalização no abastecimento de água e com um índice de atendimento da sua rede de esgoto em 77,5%, dos quais 100% são tratados.
Para buscar a universalização do serviço de esgoto, a empresa vai lançar sua primeira PPP (Parceria Público Privada), que deve ficar para 2023. O plano é buscar um operador privado para a operação de 16 cidades, localizadas na microrregião Centro-Litoral do estado.
“Em termos de fundamento, a Sanepar até é a melhor empresa do setor, com rentabilidade saudável, mas negocia com desconto por causa dessa maior percepção de risco regulatório”, diz Sousa. A empresa apresentou um crescimento anual de 18% do lucro no primeiro trimestre.
Na Sanepar, as discussões sobre privatizações não ganharam força e ela não está entre as grandes apostas do mercado, já que a expectativa é de que o atual governador Ratinho Jr. (PSD), à frente nas pesquisas, seja reeleito.
“O atual governador não tem intenção de privatizar as estatais Copel e Sanepar”, aponta o UBS em relatório.
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