Protestos aumentam cautela de estrangeiros com Brasil, mas foco continua na agenda econômica

Na primeira semana do governo Lula, houve saída líquida de R$ 766,7 milhões de recursos estrangeiros da Bolsa

Foto: Shutterstock/MillaF

As manifestações políticas, que culminaram com a invasão da Praça dos Três Poderes no domingo (8), devem aumentar a cautela dos investidores estrangeiros com o Brasil e podem trazer maior volatilidade para os mercados no curto prazo, mas o foco dos gringos deve continuar na agenda política do novo governo, especialmente em relação ao novo arcabouço fiscal.

A entrada de recursos estrangeiros na Bolsa, que somou R$ 119,8 bilhões no ano passado considerando o fluxo para os mercados primario e secundário, sendo R$ 18 bilhões após o segundo turno da eleição presidencial, impediu uma queda maior do Ibovespa, já que os investidores locais estavam mais pessimistas.

Em janeiro, contudo, o humor dos investidores estrangeiros mudou, dado o aumento da preocupação com a política fiscal no Brasil e com a sustentabilidade das contas públicas, bem como diante de declarações de integrantes da equipe econômica que trouxeram dúvidas em relação ao risco regulatório no País.

Entre segunda-feira passada (2) e a última quinta-feira (5), os estrangeiros retiraram R$ 766,7 milhões em recursos da Bolsa, segundo dados da B3.

Embora nenhum banco veja o risco de uma ruptura institucional no Brasil, os protestos políticos comandados por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro podem aumentar a cautela dos investidores internacionais com o País no curto prazo.

“Dada a forte cobertura da mídia internacional sobre os tumultos, esperamos que os investidores estrangeiros reduzam um pouco seu otimismo”, destacou o banco Julius Baer em relatório.

Segundo o JP Morgan, diferente da invasão do Capitólio nos Estados Unidos, em janeiro de 2021, na qual apoiadores do ex-presidente Donald Trump invadiram o congresso do país para impedir a chegada de Joe Biden nas à Presidência americana, no Brasil os manifestantes invadiram e depredaram os prédios da Praça dos Três Poderes depois da posse de Lula e da nomeação do gabinete, com o governo funcionando há oito dias.

“Há uma diferença crucial de que os edifícios estavam praticamente vazios no momento da invasão, limitando assim os danos em termos de número de feridos e perdas de vidas. Foi mais um evento midiático do que qualquer outra coisa”, diz o JP Morgan em relatório.

Para os analistas do JP, a reação negativa dos mercados deve ser de curto prazo. “À medida que o trabalho diário do governo é retomado, a atenção deve ir de volta às questões macro que estiveram no topo da mente e, lenta mas certamente, ganhando importância, as mudanças micro regulatórias que estão começando a ganhar mais espaço nas discussões governamentais”, apontou o banco.

O UBS tem a mesma avaliação. “Embora esse evento possa trazer maior volatilidade para os ativos brasileiros no curto prazo, assim que a poeira baixar, o foco dos investidores provavelmente se voltará às iniciativas de política econômica do governo Lula”, disse em relatório.

Entre as medidas econômicas no radar dos investidores o JP Morgan destaca o novo arcabouço fiscal que deve ser discutido pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a partir de abril, a proposta da reforma tributária e a substituição de dois diretores do Banco Central cujos mandatos expiram em 28 de fevereiro.

Para o JP Morgan, assim que o mercado tiver uma visibilidade mais clara em termos das políticas macroeconômicas e fiscais, o cenário global, influenciado pela reabertura da China e pelo pico de alta da taxa de juros nos EUA, deve voltar a determinar os preços nos mercados.

“O cenário político parece bem precificado, mas a incerteza doméstica faz com que ativos tenham maior volatilidade por enquanto”, apontou o JP.

Início de governo frustrou investidores estrangeiros

Segundo o UBS, ao contrário do que o banco esperava, o governo recém-empossado deixou de lado o pragmatismo da política econômica até agora.

“Seus planos [do governo Lula] sobre como enfrentar os desafios fiscais do Brasil e administrar empresas estatais têm sido decepcionantes. O Congresso também falhou em agir como uma força de equilíbrio nessas áreas, em nossa opinião. Portanto, reduzimos nosso entusiasmo por ativos brasileiros ultimamente”, disse o banco em relatório.

Em relação ao câmbio, o modelo do UBS aponta que o real tem um valor justo em torno de R$ 5,25 em relação ao dólar norte-americano, em linha com o patamar atual de R$ 5,255.

“No entanto, prevemos que o real será negociado perto de R$ 5,5 contra o dólar nos próximos trimestres, refletindo os altos níveis de incerteza da política econômica”, disse o UBS.

Em relação aos investimentos em renda fixa, o UBS espera que os títulos soberanos brasileiros denominados em dólares estão com preços justos a caros, mas o banco mantém uma visão positiva sobre a dívida corporativa brasileira.

O UBS também avalia que risco de intervenção do governo em empresas estatais pode ter aumentado, mas o aprimoramento dos padrões de governança corporativa após o escândalo Jato deve mitigar esse risco.

O UBS destaca que as ações brasileiras estão sendo negociadas com valuations descontados. “A relação de preço/lucro de 12 meses do MSCI Brasil está abaixo de 7 vezes, o que está bem inferior às médias históricas”, destacou o banco.

As ações brasileiras também estão sendo negociadas com um desconto de 42% em relação aos mercados emergentes, o que é consideravelmente maior do que a média de 9% da última década, aponta o UBS.

Para o UBS, as ações brasileiras poderiam se beneficiar de um ambiente de preços elevados de commodities, mas a frágil perspectiva fiscal e política doméstica no curto prazo provavelmente continuará a pesar sobre a classe de ativos.

“Portanto, esperamos que as ações brasileiras sejam negociadas em linha com seus pares de mercados emergentes nos próximos meses”, disse o UBS.

Já o JP Morgan tem preferido, nesse cenário, ações do setor financeiro, bens de consumo discricionários, alimentos e bebidas e materiais básicos na Bolsa doméstica.

O JP está mais cético sobre o investimento em títulos públicos, dado o cenário dos economistas do banco que agora esperam um corte de apenas 1 ponto da taxa básica, hoje em 13,75%,  em 2023.

Atos de vandalismo podem fortalecer Lula

Os atos de vandalismo registrados ontem podem acabar enfraquecendo a oposição e fortalecendo  o presidente Lula, que poderia tender a ampliar a agenda das pautas de esquerda, o que poderia implicar em mais gastos fiscais, avaliam o JP Morgan, Capital Economics e UBS.

“E parece provável que o prêmio de risco se torne maior se os eventos de ontem levarem Lula a mudar para a esquerda”, aponta a Capital Economics.

Para o UBS, os protestos de domingo parecem mobilizar a sociedade contra movimentos violentos de extrema-direita e fortalecer a legitimidade do governo Lula.

O JP aponta que é preciso observar se esses protestos aparecerão novamente, e se sim, a intensidade deles. “Os protestos de ontem foram centralizados em Brasília e é fundamental que não se espalhem em larga escala para outros estados ou que não causem um efeito cascata, como uma greve de caminhoneiros”, destacou o JP Morgan em relatório.

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