Dados de inflação piores do que o esperado nos Estados Unidos assustaram os mercados ao redor do globo, sentimento que foi refletido no Ibovespa, que perdeu o marco de 111 mil pontos.
O principal índice da Bolsa brasileira fechou o pregão desta terça-feira (13) em baixa de 2,3%, aos 110.793 pontos, com R$ 20,13 bilhões em volume negociado. A performance do mês de setembro, no entanto, segue de alta de 1,16%, enquanto a valorização acumulada desde o início do ano agora é de 5,7%.
O banho de sangue nas Bolsas foi em escala global. Em Nova York, o S&P 500 teve baixa de 4,32%, o Dow Jones caiu 3,94% e o Nasdaq recuou 5,16%. Na Europa, o índice Euro Stoxx 50 somou perdas de 1,65%.
Inflação americana assusta mercados
O mercado queria acreditar em um cenário em que a inflação americana perde força, mesmo que em um passo lento, evitando que os juros dos Estados Unidos subissem tanto. Mas o CPI (índice de preços ao consumidor) de agosto mostrou um avanço de 0,1% nos preços em agosto ante julho, ante uma queda de 0,1% esperada pelo mercado.
A principal preocupação, porém, é com o núcleo, que exclui itens com maior volatilidade de preços (energia e alimentos). Sem considerar a forte queda da gasolina, essa medida de inflação mostrou alta de 0,6%, o dobro do projetado por analistas.
Para a economista-chefe do banco Inter, Rafaela Vitória, o dado mostrou que o processo de aumento dos preços nos EUA ainda não dá sinais de inversão do sinal.
“A medida de núcleo, excluindo energia e alimentos, ficou bem acima do esperado, em 0,6% em agosto, e no ano houve aceleração de 5,9% para 6,3%, sinalizando um processo inflacionário que ainda não tem clara reversão”, avaliou em relatório.
A especialista lembrou que o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, já havia indicado que a batalha contra a inflação não está ganha, e que será necessário um processo de aperto monetário mais longo para combatê-la.
Assim, essa alta de preços reacendeu as expectativas de que o Fed seja mais duro na alta dos juros. Agora, o mercado já considera um novo aumento de 0,75 p.p (ponto percentual) praticamente certo, enquanto algumas projeções já apostam em 1 p.p.
Banho de sangue no Ibovespa
Ainda que quase todas as ações do Ibovespa tenham fechado o dia no vermelho, os papéis que mais caíram foram os de empresas ligadas à economia doméstica e à tecnologia, refletindo o cenário de juros mais altos.
No fechamento, as maiores baixas eram de Hapvida (HAPV3), Natura (NTCO3) e Qualicorp (QUAL3), com recuos de 6,71%, 6,49% e 6,15%, respectivamente.
A baixa da Natura ocorre diante da possibilidade de a companhia fundir as marcas Natura e Avon e abandonar a ideia de ser uma plataforma global.
A notícia sobre as mudanças veio do site Reset. Segundo a publicação, o conselho de administração da empresa se reunirá na quarta e quinta-feira para discutir o futuro do modelo de negócio da empresa.
Fábio Barbosa, executivo-chefe da companhia há três meses, havia dito na época da divulgação dos resultados que os números apresentados pela Natura eram reflexo de “questões estruturais” da empresa que haviam sido identificadas e começariam a ser alteradas dali para frente.
As poucas altas do pregão
No fechamento, as únicas ações que conseguiram segurar altas foram MRV (MRVE3) e BB Seguridade (BBSE3), com avanços de 0,9% e 0,67%, nesta ordem.
Apesar de ter fechado no vermelho, as ações da 3R Petroleum (RRRP3) ficaram entre as que perderam menos no dia de hoje, com baixa de 0,3%.
A petrolífera divulgou produção de 16,2 barris de óleo equivalente (boe) por dia em agosto, alta de 33% na comparação com o registrado em julho, devido à entrada de dois novos polos no portfólio de companhia, Polo Areia Branca e Polo Peroá, e da melhora na produção dos polos Rio Ventura e Recôncavo.
“A entrada dos novos polos de produção no portfólio da companhia já era esperada, mas acreditamos que esta forte evolução de produção com a melhora de produtividade dos campos existentes pode repercutir positivamente nas ações da companhia”, afirmaram analistas da Eleven, em comentários ao mercado.
Bolsa ignora dados domésticos positivos
O derretimento do Ibovespa parece ignorar dados positivos da economia brasileira divulgados ao longo do dia, como o desempenho do setor de serviços. O setor avançou 1,1% em julho, na comparação com junho, e registrou o terceiro mês seguido de aceleração. Na base anual, a atividade teve alta de 6,3%.
Os dados foram uma surpresa positiva para o mercado. Analistas consultados pela Reuters previam avanço de 0,5% no mês e de 5,8% na comparação anual.
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Em outra frente, as vendas no varejo medidas pelo ICVA (Índice Cielo do Varejo Ampliado) cresceram 2,8% em agosto deste ano frente o mesmo mês de 2021, já descontado o efeito da inflação. Sem este ajuste, o ICVA teve alta de 15,8% no mesmo comparativo.
Criptomoedas
O mercado de criptoativos também desabou nesta terça após dados da inflação americana virem acima do esperado. O Bitcoin (BTC) reverteu a trajetória de alta e passou para o campo negativo, perdendo o suporte dos US$ 21 mil.
Por volta das 16h55, a maior cripto do mundo registrava queda de 7,5%, negociada a US$ 20.360, segundo dados da Binance disponíveis na plataforma TradeMap.
A fuga dos investidores repete o movimento visto nos últimos meses com as expectativas de que o aumento dos juros americanos se dará de uma forma mais rápida do que o esperado, o que aumenta as chances de a maior economia do mundo entrar em recessão.
O cenário macro também derruba o Ethereum (ETH) às vésperas da atualização da blockchain, que deve ocorrer entre amanhã e quinta-feira.
Na mesma hora, a cripto tinha queda de 5,5%, vendida a US$ 1.612.
O mercado acompanha de perto o processo de fusão após anos de expectativa. A mudança impacta principalmente o modelo de verificação da rede, abrindo espaço para a entrada de novos investidores, além de ser um importante passo para futuras melhorias.