Empresas com dívidas elevadas, varejistas e de tecnologia encaram desafio com piora fiscal

Piora do cenário fiscal pressiona empresas que aumentaram dívidas recentemente

Foto: Shutterstock/AlvaroMP

Quando o “risco fiscal” cresce e os juros aumentam, empresas mais sensíveis à economia interna, como as de varejo, construção civil e educação, e as de tecnologia são afetadas negativamente. Mas o forte impacto do patamar elevado dos juros não se restringe apenas a esses segmentos.

A compra de concorrentes ou realização de investimentos num cenário em que os juros estavam em patamares de baixa recordes no país criaram, agora, uma situação desfavorável para companhias com alavancagem alta – quando dívidas representam grande percentual da geração de caixa de uma empresa.

As companhias que ampliaram o endividamento nos últimos anos lidam atualmente com a pesada carga de financiamentos atrelados à taxa básica de juros em nível elevado.

Para o analista da INV, João Abdouni, empresas que fizeram aquisições nos últimos anos e ainda não obtiveram o retorno do investimento feito e não compensaram o endividamento para a compra podem ser grandes perdedoras diante desse contexto.

Ele cita a Hapvida (HAPV3), que realizou uma operação de fusão com a NotreDame Intermédica no início do ano passado. No terceiro trimestre de 2022, a companhia teve uma despesa financeira de R$ 579,3 milhões, um avanço de 628,68% frente ao montante do mesmo período de 2021.

De acordo com a companhia, houve um incremento de R$ 344,2 milhões nessa linha por conta de juros sobre empréstimos, financiamentos e debêntures no intervalo de julho a setembro. A dívida bruta da empresa encerrou o período em R$ 10,8 bilhões.

No negócio, vale ressaltar, os acionistas da Intermédica receberam R$ 5,24 por ação ordinária mais R$ 6,45, e a Hapvida passou a ter 53,6% da companhia combinada, e a Intermédica, 46,4%.

Outra empresa que Abdouni coloca neste mesmo balaio é a Natura (NTCO3), que além de sofrer por atuar no varejo, pagou US$ 2 bilhões pela Avon em janeiro de 2020. A BRF (BRFS3), que se juntou com a Marfrig (MRFG3) também chama a atenção, segundo ele. No momento, a Marfrig possui um terço da BRF e o controle do conselho de administração.

Essas companhias tomaram uma decisão de se alavancar numa taxa de juros baixa. Isso pode ser um problema agora”, com os juros elevados, destaca o analista.

A Selic passou por um ciclo de queda de 2018 a 2020, e ficou num patamar de 2% durante todo ano de 2020, mas do início de 2020 até setembro de 2022 passou de 2% ao ano para os atuais 13,75%.

Desde o final das eleições presidenciais de 2022, o mercado passou a ficar reticente com o andamento da política fiscal brasileira. Isso ocorreu porque o novo governo venceu o pleito com um discurso de mais expansão fiscal e transferência de renda, o que poderia estressar curvas de juros e mexer com a inflação no país.

Essa perspectiva de piora do cenário fiscal impactou a visão sobre juros para os próximos anos. Profissionais do mercado financeiro preveem que a Selic, atualmente em 13,75% ao ano, permaneça em patamares elevados por mais tempo do que o previsto no ano passado.

No último Boletim Focus, os analistas consultados pelo BC projetaram que a taxa básica encerre 2023 em 12,5% e 2024 em 9,75% ao ano. Além disso, voltaram a elevar as projeções para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) de ambos os períodos, para 5,78% e 3,93%, respectivamente.

Junto na questão das dívidas, o analista Sidney Lima, da casa de análise Top Gain, destaca que companhias que possuem despesas atreladas ao dólar podem sofrer ainda mais nesse cenário.

Ele destaca que, quando há uma perspectiva de piora fiscal acontece uma “fuga” de investidores estrangeiros do país, o dólar fica mais restrito no mercado interno e, portanto, mais caro. Diante disso, Lima acredita que empresas aéreas como Gol (GOLL4) e Azul (AZUL4) podem se prejudicar com esse cenário.

“Grande parte das receitas do setor são comprometidas por despesas com combustíveis, que são atreladas ao dólar. Um dólar mais alto tende a tornar esses suprimentos mais caros, o que impacta a margem”, explica.

Bancos e varejistas

Para Idean Alves, sócio e chefe da mesa de operações do escritório de investimentos Ação Brasil, o setor bancário também pode se prejudicar com a piora do cenário fiscal no Brasil. Ele prevê que essas instituições podem sofrer com o aumento dos calotes, ou seja, a taxa de inadimplência. Isso pode fazer essas empresas aumentarem seu provisionamento para devedores duvidosos (PDD).

Outro ponto que pode ser prejudicial neste segmento é a chamada “margem com o mercado”, empréstimos tomados por bancos de outras instituições financeiras e que geralmente possuem prazos menores do que os praticados em contratos com pessoas físicas, e assim são mais sensíveis a um aumento da Selic.

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Em 2022, os dois bancos que tiveram o maior aumento da inadimplência foram Bradesco e Santander, justamente as duas instituições que mais estão expostas a clientes pessoa física, mais sensíveis à piora dos juros.

No balanço mais recente do Santander (SANB11), por exemplo, divulgado na semana passada, o banco apontou uma taxa de inadimplência de 3,1% no quarto trimestre de 2022, ou 0,06 ponto porcentual maior que a observada no período imediatamente anterior. No terceiro trimestre, a taxa era de 3%, um leve aumento em relação ao segundo trimestre, quando o índice ficou em 2,9%.

Somado a isso, Alves, da Ação Brasil, cita que o caso do rombo contábil da Americanas (AMER3) ligou um “sinal de alerta” ao setor, já que os bancos são os principais credores da varejista.

“Se outras empresas de ‘qualidade’ estiverem na mesma situação, o risco e o prejuízo podem ser sem precedentes. Tudo isso deixou um luz amarela sobre o setor.” Tanto é que na última quarta (8), a Marisa (AMAR3) informou que seu diretor-presidente Adalberto Pereira dos Santos renunciou à presidência da empresa.

De acordo com informações do Estadão, a empresa possui cerca de R$ 600 milhões em dívida. Para tal, a Marisa contratou a BR Partners para assessorá-la no processo de renegociação de endividamento financeiro e a Galeazzi Associados para apoio no aperfeiçoamento da estrutura de custos da companhia.

Setor de transporte e bens de capital

Na visão do BofA (Bank of America), as empresas do setor de transporte e de bens de capital que possuem dívidas atreladas à Selic também podem se prejudicar no futuro. Em relatório enviado à clientes no início desta semana, o banco afirmou que leva em conta a manutenção dos altos patamares de juros.

A equipe econômica do BofA revisou, no final de janeiro, a projeção para a Selic. A estimativa foi a 11,75% ao ano no fim de 2023 e a 9,50% ao ano, no fim de 2024, devido a uma “deterioração recente no cenário fiscal”. Antes, as projeções eram de 10,5% e 8%, respectivamente.

A instituição financeira, na ocasião, elegeu a Movida (MOVI3) e a Ecorodovias (ECOR3) como as mais impactadas do segmento. 

No caso da Movida, o BofA vê um cenário de rentabilidade difícil nos próximos trimestres após uma “correção de estoque recente”, já que comprou veículos com a taxa de juros já elevada. 

“Esperamos que os resultados continuem pressionados nos próximos trimestres até que a Movida renove sua frota em melhores condições de juros e com um mix melhor. Isso também aumenta as preocupações de alavancagem, que está em cerca de quatro vezes o Ebitda da companhia”, comentam os analistas Rogério Araújo e Gabriel Frazão, que assinam o relatório. 

Por sua vez, a Ecorodovias deve reportar resultados pressionados pelo vencimento de algumas concessões e uma alta alavancagem, na visão do banco.

Os analistas citam que, até 2029, a situação financeira da companhia deve estar mais complicada. Segundo eles, parte dos investidores está preocupada com a possibilidade de a companhia aderir a mais leilões no futuro, o que pode fazer a alavancagem aumentar ainda mais.

Varejo e tecnologia continuam no radar

Mas por que as empresas ligadas à tecnolgia e à economia interno sofrem mais? As techs tendem a ter um impacto negativo maior da alta de juros porque o mercado vê o segmento como mais arriscado, uma vez que a maioria delas chega à B3 como um negócio que ainda precisa se provar lucrativo.

Se os juros estão maiores, o que pressupõe um ambiente de mais risco, os investidores preferem passar longe desses ativos e dão prioridade às ações de empresas de segmentos mais consolidados, a exemplo de infraestrutura básica, mineração e petróleo.

No caso do varejo e de outros setores mais ligados à economia doméstica, o ponto negativo tem relação à dificuldade de o consumidor obter crédito quando as taxas de juros são elevadas. Nesse contexto, a inadimplência também aumenta, exatamente porque as dívidas ja tomadas se tornam maiores com o aumento dos juros.

Do lado das empresas, as barreiras para levantar recursos também se tornam maiores. O financiamento da operação é algo fundamental para o setor de varejo, que necessita de alto capital de giro para manter as atividades.

“As empresas com mais dívida, como varejistas e empresas de tecnologia, naturalmente sofrem bem mais em cenários de juros altos. Como aumenta a pressão sobre o caixa e as margens, são obrigadas a se endividarem mais ou a elevarem o capital para terem fôlego”, afirma Alves, da Ação Brasil.

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