As dúvidas sobre o tamanho real da dívida da Americanas (AMER3) atingiram em cheio fundos de renda fixa e DI que investiram nas debêntures da companhia. Diante dos problemas que a companhia enfrenta, estes fundos passaram a esperar perdas de pelo menos 50% no valor destes ativos, gerando perdas aos cotistas.
Nesta segunda-feira (16), 42 fundos de renda fixa informaram que constituíram provisão para devedores duvidosos (PDD) para os ativos de emissão da Lojas Americanas S.A., Americanas S.A. e B2W Companhia Digital.
Esta provisão equivale a um dinheiro reservado pelas instituições financeiras para cobrir perdas com calotes, dado que é alto o risco de a Americanas não conseguir pagar as próprias dívidas.
Este risco, inclusive, levou o BTG Pactual, um dos credores da empresa, a tentar cobrar na marra e de forma antecipada dívidas da Americanas, mas a companhia recorreu aos tribunais para evitar o pagamento e deve entrar com pedido de recuperação judicial ao longo das próximas semanas para se proteger de novas cobranças.
Um dos fundos que constituiu PDD para os títulos de dívida da Americanas foi o Nu Reserva Imediata Master FI RF, gerido pela Nu Invest.
Usado pelos investidores para montar reserva financeira de emergência, o fundo tinha 0,27% do patrimônio de R$ 743,5 milhões investido em debêntures da Americanas ao final de setembro, segundo levantamento do TradeMap. Na última sexta-feira (13), o Nu Reserva apresentou retorno negativo de 0,75%.
A gestora informou que a provisão impactará, em caráter excepcional, os critérios de conversão originalmente previstos em regulamento, tanto em relação a aplicações quanto em relação a resgates feitos pelos investidores, n dia 16 de janeiro.
Fundos DI, como o Nu Reserva, podem investir parte da carteira em papéis de crédito privado. O fundo Nu Reserva Imediata pode investir até 50% do portfólio em títulos emitidos por bancos e empresas.
Outros fundos DI são afetados
A desvalorização dos papéis da Americanas afetou outros fundos além do Nu Reserva.
O Western Asset DI Max Renda Fixa Referenciado FIC informou que passou a considerar desvalorização de 50,03% nas debêntures da Americanas em carteira, o que resultou em queda de 0,34% no preço da cota em 12 de janeiro.
O Banestes divulgou que onze de seus fundos tinham uma exposição somada de 10,51% em debêntures da Americanas, que incluía fundos DI cuja cota foi impactada pelo investimento.
O fundo com maior posição nos papéis da empresa, neste caso, é o Banestes FI RF Crédito Privado, que tinha 4,4664% do patrimônio em debêntures da Americanas em 12 de janeiro.
O Credit Suisse também informou que os fundos CS Evolution DI Private FC FI RF, CS Evolution DI Plus e CS Evolution DI Max tiveram queda de 0,11% no valor da cota no dia 12 de janeiro em função da marcação da desvalorização de 49,56% dos papéis da Americanas.
No caso do fundo CSHG New DI Max Private RF, o impacto negativo foi de 0,51%. A gestora informou que segue acompanhando a situação no melhor interesse dos cotistas.
O Itaú Unibanco também informou que, em função do impacto da provisão para o investimento em papéis da Americanas, os critérios de conversão originalmente previstos em regulamento dos fundos Special Renda Fixa Referenciado DI e Itaú Wealth Master Renda Fixa Referenciado DI para aplicações e resgates serão alterados no dia 16 de janeiro.
O banco informou que fez a provisão para perdas nos investimentos em papéis da Americanas nos fundos de renda fixa geridos pela instituição.
Porto Seguro e Western Asset também divulgaram que fizeram a provisão para perdas dos investimentos em títulos da Americanas em fundos de renda fixa e DI.
A BV Asset também informou que seis fundos de renda fixa voltados ao crédito privado tiveram impacto negativo na cotas na semana passada em função da desvalorização dos papéis da varejista.
O fundo do BTG Pactual INT Z Multimercado Crédito Privado IE informou que teve queda de 5% no preço da cota no dia 12 de janeiro com o impacto do investimento em papéis da Americanas.
Segundo levantamento do TradeMap, que levou em conta a 5ª, 13ª, 14ª, 15ª e 16ª emissões de debêntures da varejista, a gestora com maior posição em debêntures da Americanas em setembro era a Western Asset, que tinha R$ 236,9 milhões em papéis da varejista, o equivalente a 1,2% do total sob gestão.
Já a gestora com maior exposição aos papéis em relação ao patrimônio, em setembro, era a Amazônia Investimentos, que tinha 5,85% dos R$ 207,9 milhões sob gestão em títulos da Americanas.
O fundo com maior posição em debêntures da Americanas, em setembro, era o Olian FI Mult Cred Priv Ie, gerido pela Prada Administradora de Recursos que tinha, em setembro, 7,37% do patrimônio de R$ 14,5 milhões em papéis da varejista.
Veja as gestoras com maior posição em debêntures da Americanas segundo levantamento do TradeMap.
A gestora AF Invest informou que já precificou uma desvalorização de 50% do valor de face das debêntures da Americanas em carteira dos fundos, mas que o impacto para os portfólios é pequeno, dada a baixa exposição a debêntures do setor de varejo em geral, afirmaram Ana Bottaro e Paulo Vasconcelos, gestores dos fundos de crédito privado da AF Invest, que tem R$ 3,5 bilhões sob gestão, à Agência TradeMap.
Segundo Vasconcelos, a gestora está acompanhando o caso e deve fazer uma nova remarcação dos papéis em carteira.
A Western Asset informou que está monitorando o desdobramento das notícias envolvendo a Americanas e aguarda mais informações sobre os próximos passos a serem adotados pelos controladores para ter a dimensão do impacto nos papéis da companhia, segundo nota enviada a Agência TradeMap.
Evento impactou fundo de debênture incentivada
O impacto da desvalorização das debêntures da Americanas atingiu até mesmo os fundos de debêntures incentivadas, que contam com benefício fiscal.
O fundo Órama FICF Inc de Inv em Infraestrutura (OGIN11) informou que tinha posição equivalente a 2,9% da carteira em debêntures da Americanas em 11 de janeiro. O fundo teve um impacto negativo de R$ 0,17 na cota patrimonial em 13 de janeiro.
Segundo a gestora, o fundo pode alocar parte da carteira de forma transitória em ativos não incentivados por serem mais líquidos, para, posteriormente, conforme as oportunidades, fazer a troca por ativos incentivados.
Fundo fecha para aplicação
A gestora Augme Capital resolveu fechar por prazo indeterminado para novas aplicações os fundos de crédito privado Augme 45 Advisory, Augme 90, Augme 180 e Augme Previdência Fife e Augme Institucional para preservar o valor do investimento detido pelos cotistas atuais, que foi impactado pelas marcações dos títulos devidos pela Americanas.
A Americanas reportou ter uma dívida de R$ 40 bilhões – cerca de duas vezes maior que a reportada no último balanço – após divulgar que contabilizou de forma errada operações financeiras com fornecedores.
A Americanas tinha, em setembro, R$ 4,3 bilhões em debêntures, sendo R$ 1,29 bilhão com vencimento no curto prazo, em até 12 meses, incluindo duas emissões de R$ 500 milhões cada que vencem em maio e junho deste ano.
Alguns desses papéis possuem covenants – cláusulas que protegem os credores caso a companhia descumpra algumas obrigações, como limite de alavancagem, e que podem disparar uma cobrança antecipada de dívidas.
Está prevista uma primeira assembleia com debenturista no início de fevereiro para tratar da quebra dos covenants. Nesse caso, a empresa deverá pedir aos debenturistas para não anteciparem a dívida em troca de oferecer uma remuneração maior para os papéis ou aumento do prazo da dívida, segundo apurou a Agência TradeMap.
Procurados, os demais gestores não retornaram até o fechamento da matéria.
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