Os investimentos em produtos de renda fixa com remuneração pós-fixada ganharam atratividade com a taxa básica de juros em 13,25%. Nesse cenário, surge a dúvida dos investidores: onde é melhor deixar o dinheiro destinado ao colchão de liquidez da carteira: em fundos DI ou no papel do Tesouro atrelado à Selic?
Esses fundos possuem portfólios que buscam acompanhar o CDI (Certificado de Depósitos Interbancários) e investem em títulos de renda fixa pós-fixados, que acompanham a variação da taxa básica de juros. São aplicações que compram títulos públicos do governo atrelados à taxa Selic ou títulos privados indexados ao CDI com baixo risco de crédito.
Atualmente, apesar de muitos fundos manterem o nome “fundo DI”, essa categoria é mais um apelido do que uma classificação, já que a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) mudou a divisão. Hoje, essas aplicações estão distribuídas em diferentes segmentos da categoria renda fixa.
Olhar taxa é o 1º passo
Antes de investir em um fundo DI, a primeira coisa que o investidor tem que considerar é a taxa de administração da carteira, para evitar um retorno abaixo do Tesouro Selic.
A conta é simples: como o investidor que investe mais de R$ 10 mil no Tesouro Direto paga uma taxa de custódia semestral de 0,20%, um fundo que cobra uma taxa acima de 0,20% já passa a não ser atrativo, afirma Sandra Blanco, estrategista-chefe da Órama Investimentos.
Hoje há várias opções no mercado de fundos DI ou renda fixa simples atrelados ao CDI que não cobram taxa de administração.
Veja abaixo as opções de fundos DI com taxa de administração zero, sem carência para resgate e que bateram o CDI, que acumula alta de 5,88% no ano até 13 de julho.
Fonte: TradeMap com base de dados da Anbima. Considera fundos de renda fixa com denominação DI no nome ou da categoria renda fixa simples, com taxa de administração de até 0,1%, sem carência para resgate e classificados como longo prazo. * Até 13 de julho. | |||||
Fundos | Rentabilidade no ano*- % | Taxa de administração -% | Gestora | Classificação Anbima | Aplicação mínima |
SPECIAL RF REFERENCIADO DI FI | 6,50 | 0 | Itaú Asset | Renda Fixa Duração Baixa Grau de Invest. | R$ 20.000 |
BRAM FI RF REFERENCIADO DI CORAL II | 6,36 | 0 | Bram | Renda Fixa Duração Baixa Grau de Invest. | R$ 1 |
FUNDO TESOURO SELIC SIMPLES FI RF | 6,05 | 0 | Modal | Renda Fixa Duração Baixa Grau de Invest. | R$ 100 |
BRAM FI RF REFERENCIADO DI RUBI | 6,02 | 0 | Bram | Renda Fixa Duração Baixa Grau de Invest. | 0 |
VITREO SELIC FI RF SIMPLES | 6,01 | 0 | Vitreo Gestão de recursos | Renda Fixa Duração Baixa Grau de Invest. | 0 |
BTG PACTUAL INVESTMAIS SIMPLES FI RF | 6,01 | 0 | BTG Pactual | Renda Fixa Duração Baixa Grau de Invest. | R$ 20.000 |
TREND DI SIMPLES FI RF | 5,99 | 0 | XP Asset | Renda Fixa Simples | R$ 100 |
ÓRAMA DI- FI RF SIMPLES LP | 6,03 | 0,01 | Órama | Renda Fixa Simples | 0 |
SANTANDER RF REF DI INSTITUCIONAL FI | 6,26 | 0,05 | Santander Asset Management | Renda Fixa Simples | 0 |
ITAÚ LION RF REF DI FICFI | 6,31 | 0,10 | Itaú Asset | Renda Fixa Simples | 0 |
Variação CDI até maio | 5,88 |
Além disso, para ser mais atrativo que o Tesouro Selic, o fundo tem que render mais de 102% do CDI.
Considerando a simulação abaixo feita no site do Tesouro Direto, fundos DI com zero de taxa de administração com um retorno abaixo de 102% do CDI perdem para a rentabilidade oferecida pelo Tesouro Selic, já que essas aplicações possuem a cobrança do imposto automático semestral, chamado de come-cotas.
Veja a simulação abaixo.
Fonte: Tesouro Direto. Considera título Selic com vencimento em 2025 e com retorno de Selic mais 0,0952. Considera fundos DI com taxa zero de administração. *** Considera alíquota de IR de 15% para regaste após 2 anos | |||
Retorno para investimento de R$ 1.000 | |||
Retornos | Tesouro Selic 2025* | Fundo DI com retorno de 100% do CDI** | Fundo DI com retorno de 102% do CDI ** |
Bruto | R$ 1.267,37 | R$ 1.263,91 | R$ 1.269,98 |
Líquido*** | R$ 1.227,27 | R$ 1.224,30 | R$ 1.229,50 |
De olho na tributação
É por isso que um ponto importante que o investidor tem que considerar na hora de tomar sua decisão é a tributação. Uma desvantagem dos fundos DI é exatamente a incidência de come-cotas, isto é, a cobrança automática antecipada do Imposto de Renda realizada semestralmente, lembra Fernando Martin, analista da Levante Investimentos.
Além disso, o investidor tem que ficar de olho na alíquota do imposto, que depende de dois fatores. Um deles é a classificação do fundo, que varia de acordo com o prazo médio da carteira de investimentos. O outro é o tempo de permanência na aplicação, ou seja, está relacionado com o momento do resgate.
No fundo classificado como longo prazo, isto é, cujo prazo médio da carteira é superior a 365 dias, o imposto é de 15% sobre o ganho de capital. Já se o fundo for classificado como curto prazo, cuja carteira tem prazo médio menor ou igual a 365 dias, a alíquota incidente é de 20%.
Por isso, é importante levar isso em conta ao escolher um fundo DI ou de renda fixa classificado como curto prazo.
Na hora de resgatar a aplicação, o investidor precisa ter em mente que o imposto que irá pagar depende do tempo de permanência.
Nos fundos de curto prazo, a alíquota de imposto paga no resgate varia de 22,5%, para prazo inferior a 180 dias, a 20%, para prazo superior a 180 dias, e naqueles classificados como longo prazo a alíquota varia de 22,5% a 15%, a mesma aplicada para o resgate dos investimentos no Tesouro Direto.
Martin afirma que, se a aplicação for destinada a reserva de emergência ou caixa, o ideal é buscar fundo DIs sem prazo de carência para resgate.
Já a desvantagem dos títulos do Tesouro é que eles têm prazo de vencimento e também têm a cobrança da taxa de custódia de 0,20% para aplicações acima de R$ 10 mil.
Fundo DI turbinado
Para os investidores que buscam um retorno adicional ao CDI, uma opção são os fundos DI que alocam um pedaço da carteira em títulos privados de baixo risco de crédito. Em geral, eles contêm a denominação crédito privado no nome do fundo.
A Órama, por exemplo, indica na sua carteira recomendada para investidores com perfil conservador a alocação no fundo SulAmérica Premium FI RF Referenciado DI Crédito Privado. A aplicação pode destinar até 80% em ativos emitidos por instituições financeiras de baixo risco de crédito e rendia, no acumulado do ano até 13 de julho, 103% do CDI.
Já na carteira recomendada para investidores com perfil de risco moderado, a Órama indica o fundo de renda fixa Órama Liquidez RI RF, que investe até 50% da carteira em ativos de crédito de grandes instituições com baixo risco.
“O risco desse fundo é ter uma volatilidade maior em momento de disfuncionalidade do mercado, mas depois isso tende a ser corrigido, porque ele aplica em papéis de baixo risco de crédito”, diz Blanco.
Já a Ágora sugere na carteira recomendada conservadora duas opções de fundos de renda fixa com crédito privado. O primeiro é o Rio Bravo Crédito Privado FI RF, que é composto por uma carteira pulverizada de títulos de crédito privado com perfil conservador. A segunda é o Bradesco Asset Plus FIC RF CP LP.
No caso dos fundos de renda fixa do Santander da família DI Crédito Privado Equilíbrio, as carteira investem mais de 50% em títulos bancários, como CDBs e letras financeiras, ou debêntures de baixo risco de crédito atreladas ao CDI.
Fundos DI Turbinados | Retorno no ano* | Taxa de administração | Aplicação mínima |
SulAmérica Premium FI RF Referenciado DI Crédito Privado | 6,67% | R$ 1 mil | |
Órama Liquidez RI RF | 7,28% | 0,25% | 0 |
Rio Bravo Crédito Privado FI RF | 6,46% | 0,39% | R$ 1 mil |
Bradesco Asset Plus FIC RF CP LP | 6,57% | 0,25% | R$ 1 mil |
Santander RF DI Crédito Privado Equilíbrio TOP | 6,17% | 0,50% | R$ 50 mil |
Santander RF REF DI Crédito Privado Equlíbrio Ultra | 6,24% | 0,50% | R$ 100 |
CDI | 5,88% | ||
Fonte: Corretoras. *Até 13 de julho |
Se a ideia é investir para a sua reserva de emergência, o analista da Nord Research, Christopher Galvão, indica fundos de renda fixa simples, que investem no mínimo 95% da carteira em títulos públicos atrelados à Selic ou emitidos por instituições financeiras de mesmo grau de risco, com taxa zero de administração.
Quanto investir em papéis pós-fixados?
A parcela da carteira do investidor destinada às aplicações pós-fixadas vai depender do perfil e objetivo de cada investidor.
A Órama indica uma alocação de 50% em investimentos pós-fixados (CDBs, fundos DI e Tesouro Selic) na sua carteira recomendada para investidores com perfil conservador, e de 25% para as carteiras moderada e arrojada.
Já a Levante recomenda a alocação de 75% em investimentos pós-fixados na carteira Levante Corp com perfil conservador, sendo 45% em fundos DI. Essa parcela em investimentos pós-fixados cai para 55% na carteira com perfil moderado, sendo 35% em fundos DI, e para 37% na carteira com perfil agressivo, sendo 22% em fundos DI.
Como opção de alocação em fundos DI, a Levante sugere o portfólio Trend DI Simples (veja na lista acima) e o Trend Pós-Fixado Simples, que tem 0,15% de taxa de administração e aplicação mínima de R$ 100.
A gerente de estratégia e especialista de investimentos da Ágora, Ellen Regina Steter Hanna Farath, sugere que o investidor separe a parcela dos recursos destinada à reserva de emergência da carteira de investimentos, que também deve contar com um pedaço em produtos pós-fixados.
No caso da reserva de emergência, Farath recomenda ter uma poupança entre 6 a 12 meses de salário, dependendo dos gastos, que deve ser aplicada em opções de investimento pós-fixados e com liquidez imediata.
Vale lembrar que os CDBs contam com a cobertura do FGC (Fundo Garantir de Créditos) até R$ 250 mil por CPF e por instituição financeira.
A parcela em produtos pós-fixados também varia de acordo com o perfil do investidor. Na carteira recomendada com perfil conservador, a Ágora recomenda a alocação de 69% em investimentos pós-fixados. A corretora sugere três opções de alocação: o fundo Bradesco FIC FI RF REF DI Liquidez Ágora, que tem taxa de administração de 0,25% e aplicação mínima de R$ 1 mil, o Rio Bravo Crédito Privado FI RF – “Conta e Ordem” e Bradesco Asset Plus FIC RF CP LP.
Já na carteira com perfil moderado, a Ágora sugere a alocação de 40% em investimentos pós-fixados através dos fundos de renda fixa Bradesco FIC FI RF REF DI Liquidez Ágora e Rio Bravo Crédito Privado FI RF.
Para a carteira com perfil arrojado, a Ágora recomenda uma exposição de 10% da carteira por meio da alocação no CDB Banco Bradesco com liquidez diária.