Americanas (AMER3) na berlinda, de novo: o que mudou no fim de semana?

"Do dia para a noite", a dívida da empresa dobra e atinge cerca de R$ 40 bilhões

Foto: Shutterstock/ImagensstockBR

Após a revelação de uma das maiores controvérsias contábeis da história do mercado de capitais brasileiro, o caso da dívida bancária da Americanas (AMER3) teve novos desdobramentos no fim de semana.

Na última sexta-feira (13), a companhia entrou com um pedido para suspender a penhora de bens da empresa em face do endividamento maior do que o reportado nos últimos meses. Nesse processo, a Americanas disse ter uma dívida de aproximadamente R$ 40 bilhões.

No balanço auditado do terceiro trimestre de 2022, a empresa dizia ter R$ 19,32 bilhões em endividamento bruto. 

Os R$ 20 bilhões da “inconsistência contábil”, aparentemente, seriam incluídos a este montante, embora o ex-CEO, Sergio Rial, tenha dito que os valores passaram pelo balanço da empresa, apenas não haviam sido contabilizados no lugar certo. 

A Americanas, que já é alvo de investigações do Ministério Público por causa da confusão nos resultados, está avaliando pedir recuperação judicial. Seria um dos maiores do tipo na história do país. Os próximos 30 dias serão cruciais.

Por volta das 14h25 desta segunda-feira (16), os papéis da Americanas estavam em queda de 40%, chegando a R$ 1,90, tombo de 84,1% ante a última quarta-feira (11). 

O que muda para os investidores?

Como a Agência TradeMap publicou na última sexta, existem muitas questões nebulosas envolvendo uma potencial fraude contábil na Americanas.

Com mais de 146 mil investidores pessoas físicas (ao menos até a semana passada), a empresa era uma das que mais possuía acionistas minoritários no Brasil. Diferentemente dos credores, que podem recuperar o capital emprestado à empresa depois de um longo e tortuoso processo, os pequenos investidores podem ficar a ver navios. 

Vale recapitular o que acontece num processo de recuperação judicial.

Basicamente, essa é uma forma de a empresa evitar a falência, o fim do negócio e, consequentemente, demissão em massa e falta de pagamentos a credores, fornecedores e funcionários.

A RJ, como também é chamada a recuperação judicial, consiste na suspensão das dívidas e na apresentação de um plano de reestruturação e pagamento dos compromissos, seguido de medidas que façam com que a empresa não retorne àquela condição.  

O caso da Oi (OIBR3) é o mais recente. A empresa teve sua recuperação judicial iniciada em 2016, após acumular R$ 65 bilhões em dívidas. Teve de diminuir seu tamanho e vender operações que não eram prioridade. 

Hoje, com sua RJ finalizada, a Oi tem 10% do número de clientes que registrava em 2016, após vender sua operação móvel, que tinha mais de 40 milhões de usuários.

Outra famosa varejista, a Ricardo Eletro, estava em recuperação judicial desde 2020 e teve sua falência decretada duas vezes no ano passado, mas conseguiu reverter as decisões. O caso está sendo analisado.

A companhia continua operando no e-commerce, mas não tem mais nenhuma loja física. Em julho de 2022, possuía R$ 4 bilhões em dívidas. 

A Mappin, famosa varejista brasileira, faliu em 1999 após ter gravíssimas fraudes comprovadas, e chegou a dever R$ 9,4 bilhões em valores corrigidos pela inflação, segundo cálculo da Folha de S.Paulo.

O caso da Americanas, portanto, trata-se de algo sem precedentes na história do varejo brasileiro. A lista de empresas do setor que quebraram nas últimas décadas é vasta, mas de proporções totalmente diferentes. 

Num eventual processo de RJ, a empresa seria forçada a vender algumas de suas marcas que não representam o core business. Entram nessa lista Submarino, Shoptime e até a Ame. 

Além disso, podem ser fechadas muitas lojas físicas. Atualmente, existem mais de 1.700 unidades da Americanas espalhadas pelo Brasil, então além das lojas tradicionais, podem ser minadas as Americanas Express e Local Americanas, que têm o conceito de “vizinhança” e conveniência e podem agregar margens melhores. 

No fim das contas, serão menos caminhos para que a empresa continue a gerar valor aos investidores, com a diminuição da capilaridade e amplitude país afora. 

De acordo com o art. nº 61 da Lei nº 11.101/2005, a recuperação judicial deverá ter o prazo máximo de dois anos. Na prática, porém, esse prazo pode ser estendido com autorização da Justiça.

Injeção de recursos pelos donos da Americanas

Em uma tentativa de acelerar o recebimento dos recursos e anular a proteção judicial concedida à Americanas na última sexta, o BTG notificou a varejista de que declararia o vencimento antecipado de dívidas e que restringiria R$ 1,2 bilhão em forma de garantia.

A Justiça carioca, entretanto, decidiu impedir que os credores da companhia pudessem antecipar a cobrança.

Com um agravo de instrumento na segunda instância do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, o BTG alegou que a empresa praticamente teria confessado uma fraude contábil após revelar as inconsistências e que, com isso, não era passível de proteção do Estado.

O banco de investimento credor ressalta, ainda, o patrimônio dos acionistas de referência. Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira possuem R$ 180 bilhões.

Em reunião com grandes bancos credores na última sexta-feira, a Americanas sinalizou que os acionistas estavam dispostos a injetar R$ 6 bilhões do próprio dinheiro para salvar a empresa. Os bancos não aceitam menos que R$ 10 bilhões, segundo o Brazil Journal.

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O montante pedido pelas instituições é praticamente igual ao valor de mercado da Americanas antes de todo o alvoroço iniciado na última quarta-feira. Há de ser analisado pelos bilionários.

Com uma dívida bruta de R$ 40 bilhões, que segundo informações passadas pela Americanas à Justiça é quase inteiramente coberta por covenants, fica praticamente inviável que a operação se pague. 

O Ebitda ajustado da Americanas nos 12 meses anteriores terminados em setembro de 2022 foi de R$ 3,15 bilhões. Esse é o valor aproximado de geração de caixa da empresa no período de um ano.

Considerando uma taxa de juros de mercado de 13,75% ao ano e uma dívida de R$ 40 bilhões, a companhia teria despesas financeiras de aproximadamente R$ 5,5 bilhões por ano. Ou seja: não há como pagar. 

O abastecimento do caixa da Americanas por meio da injeção de recursos dos acionistas de referência é uma saída para que a empresa consiga respirar e não se afogue com o endividamento. 

Dúvidas e mais dúvidas

Pelo desenrolar dos fatos, o caso da Americanas ainda está muito obscuro e o mercado pouco sabe o que esperar nos próximos capítulos.

O ex-CEO Sergio Rial frisou consistentemente na reunião fechada com investidores que os valores já haviam passado pelo balanço. Agora, eles praticamente entram como dívida nova, dobrando o endividamento da empresa do dia para a noite.  

Há ainda desdobramentos sobre outros agentes econômicos que podem gerar um efeito cascata negativo. Podem ser prejudicados, por exemplo, os detentores dos papéis de crédito privado da Americanas; quem aluga imóveis em que a varejista opera e pequenos fornecedores que tinham na empresa a maior parte de sua receita.

Não há muito o que fazer senão aguardar por uma comunicação mais clara e elucidativa por parte da Americanas

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