Com US$ 94 bi, gestora Ashmore vê bolsa brasileira surfando onda de dinheiro gringo em emergentes

Gustavo Medeiros, da Ashmore, vê oportunidade em ações do setor de commodities no Brasil e vê reeleição de Bolsonaro como pior cenário

Após 10 anos de tendência de baixa nos mercados emergentes, a gestora inglesa Ashmore espera aumento do fluxo de investimentos em ações destes países, que estão com preços muitos descontados,  e o Brasil deve se  beneficiar desse movimento, afirma Gustavo Medeiros, chefe de pesquisa global da Ashmore em entrevista à Agência TradeMap.

Segundo ele, o aumento esperado da volatilidade na bolsa brasileira por conta das eleições limita o aumento das posições da gestora em Brasil, e a reeleição do presidente Jair Bolsonaro seria o pior cenário para o mercado local por causa da inclinação do governo atual a uma política fiscal mais “populista”.

Com US$ 94,4 bilhões de ativos sob gestão no fim de 2021, a Ashmore é uma das maiores gestoras que investem em mercados emergentes. A instituição está com posição comprada em bolsa brasileira e no real. Confira abaixo a entrevista.

A bolsa brasileira ainda está barata? Qual a sua perspectiva para o mercado de ações com eleição no Brasil em 2022?

O Brasil hoje é um dos mercados acionários mais baratos do mundo em termos de valuation. Olhando para a métrica de preço sobre lucro do Ibovespa, a bolsa brasileira negocia 2 desvios-padrão abaixo da média dos últimos 15 anos. Só tem um mercado com múltiplo parecido, que é a África do Sul, e agora a Rússia está chegando lá por conta de riscos geopolíticos e fiscais. Vemos mais fluxos para mercados emergentes neste ano e o Brasil deve se beneficiar.

Temos um viés comprado em Brasil, que é mais uma posição tática comprada em real, no mercado acionário brasileiro e em títulos de dívida corporativa. Nesse nível de preço, ter uma posição vendida em Brasil pode machucar bastante e rápido. Quando o fluxo para emergentes voltar podemos ter um rali grande nos preços como vimos no começo do ano.O país está barato, mas achamos que vai ter muita volatilidade por conta da questão política.

A alocação em Brasil vai depender do cenário eleitoral, de como os atores principais vão se posicionar na eleição, principalmente se o Lula vai sinalizar que vai ter um time mais pragmático como ele teve com Meirelles [Henrique Meirelles ex-presidente do BC no governo Lula] e Palocci [Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda no governo Lula], e não com Mantega [Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda no governo Lula e Dilma] e Barbosa [Nelson Barbosa, ex-ministro do Planejamento e da Fazenda no governo Dilma] e isso pode ser até positivo.

O pior cenário é o Bolsonaro ser reeleito. O Bolsonaro mudou o foco de uma política econômica conservadora de redução de gastos para uma política expansionista em 2022 para tentar se reeleger e o mercado acabou penalizando com um prêmio de risco maior.

O Bolsonaro está mais populista, mesmo o Lula deve ser mais responsável que Bolsonaro do ponto de vista fiscal. O Lula vem com um discurso mais populista de que vai gastar mais, mas provavelmente vai ser mais pragmático se ganhar a eleição. E ainda temos a possibilidade de uma terceira via talvez com Lula no segundo turno.

Quais setores você vê como mais atrativos na bolsa brasileira?

Vemos oportunidades em alguns setores que estão muito descontados como o de commodities e bancos.  Na parte de consumo cíclico, a taxa Selic deve continuar alta e a economia já está sentindo esse impacto junto com a perda do poder de compra. Em algum momento, próximo do fim do ciclo de alta de juros, pode ter oportunidade de rotacionar a posição para a parte mais cíclica, quando o mercado passar a focar no crescimento de 2023.

Pensando no crescimento de longo prazo, há vários fatores pesando a favor. A produção de petróleo, agrícola e de minério de ferro deve gerar um ciclo virtuoso para a economia brasileira nos próximos cinco anos e, dado a alta dos preços de commodities, tem bastante potencial de valorização das ações desse setor, que estão com preços muito descontados.

A taxa de juros no Brasil, que deve alcançar dois dígitos neste ano, atrairá investimentos externos para a renda fixa? Como fica o real nesse cenário?

Temos uma pequena posição comprada no real. Achamos que a Selic deve vir para algo entre 11% e 12%. O fim do ciclo de alta de juros está próximo. O Banco Central deve elevar a Selic em 150 pontos-base [1,5 ponto percentual] em fevereiro e a partir da reunião de março pode começar a discutir a interrupção do ciclo de alta.

A taxa de juros real dos mercados emergentes já teve um ajuste agressivo e vai ser difícil não ver a inflação cair nos próximos 12 meses. O Brasil tem capacidade ociosa de capital e mão de obra e, nesse cenário, um aumento de juros forte impacta a inflação de forma mais efetiva. E alta dos preços das commodities é favorável ao real, o que pode ajudar na convergência da inflação para a meta.

Além disso, o fluxo para carry trade [aposta buscando ganhar com o diferencial de juros entre o mercado local e externo] pode gerar apreciação do real.

Temos visto uma alta mais forte dos preços das commodities, principalmente de minério de ferro e petróleo. Esses preços altos devem se sustentar?

O mercado de commodities veio de um ciclo de bear market [tendência de baixa] nos últimos dez anos e a reversão desse ciclo começou há pouco mais de um ano e temos um ambiente estruturalmente altista pela frente. O preço das commodities deve permanecer elevado por um tempo longo, dado que temos gargalo de oferta nos principais setores e um aumento da demanda.

A política contracíclica na China, que começou a acelerar o investimento em infraestrutura, tem sustentado o preço das commodities metálicas. Na parte de energia e commodities agrícolas, a questão climática deve favorecer a alta dos preços. A maioria dos países desenvolvidos e também a China estão focando na redução da desigualdade social e isso tende a gerar aumento da demanda por produtos básicos e serviços e favorecer o preço das commodities.

A ata da última reunião do Federal Reserve indicou que o banco central americano deve subir a taxa de juros neste ano e começar a reduzir seu balanço patrimonial. Qual o impacto dessas medidas para os mercados emergentes?

Quando se olha os dados desde 2000, os mercados emergentes têm um desempenho outperform (acima da média do mercado) durante os ciclos de alta de juros nos EUA, uma vez que o movimento de alta já está em boa parte precificado. O desempenho underperform (abaixo da média) ocorre quando o mercado começa a precificar o início da alta de juros pelo Fed.

Em 2021, vimos parte desse movimento, que foi bem negativo, e achamos que 2022 pode ser um ano positivo para mercados emergentes. Estamos vindo de 10 anos de bear market [tendência de queda] em mercados emergentes. A alocação nesses países está muito baixa e isso tem se refletido em preços de ações e moedas, que estão próximos das mínimas históricas, enquanto as ações americanas brilharam nos últimos cinco anos, muito por conta de estímulos fiscais agressivos adotados pelos dois últimos governos americanos.

Essas políticas pro-cíclicas agora estão terminando, porque o governo não pode mais continuar estimulando a economia dado o patamar elevado da inflação. Com isso, o dólar deve se enfraquecer porque você tem uma fuga de capital dos EUA para os mercados de ações emergentes, que estão operando com nível de desconto alto, principalmente os exportadores de commodities como Brasil e Rússia.

Além disso, a China está começando a sinalizar a flexibilização da política monetária, que começamos a ver com o primeiro corte da taxa de empréstimos de médio prazo [no dia 17 de janeiro], na contramão do que o resto do mundo está fazendo e isso deve ser positivo para os mercados emergentes.

Outro ponto importante é que, diferente de 2013, quando o Fed anunciou o tapering [redução do programa de compra de ativos] , houve uma melhora dos fundamentos dos cinco países que na época foram chamados de “cinco frágeis” [Brasil, Índia, Indonésia, Turquia e África do Sul], que tinham maior déficit em conta corrente. Hoje esses países estão com superávit ou déficit em conta corrente próximo de zero, as moedas desses países estão mais desvalorizadas e as taxas de juros estão mais altas. A principal preocupação com esses países é com o endividamento em moeda local e se vão conseguir fazer um ajuste fiscal.

Qual a perspectiva da Ashmore para a alta de juros do Fed e redução do balanço?

A gente acha que deve vir de três a quatro altas de juros pelo Fed neste ano. A curva de juros dos Treasuries [títulos do Tesouro americano] já precifica mais de quatro altas neste ano, com 100% de chance de o Fed começar a elevar os juros em março. Mais de quatro altas acho difícil entregarem.

Sobre a redução do balanço, o Fed não deixou claro como vai fazer isso, se venderá os títulos de longo prazo ou não reinvestirá nos papéis que vencem no curto prazo, o que poderia ter um impacto marginal na liquidez. Acho que isso pode afetar mais os ativos que estão mais longe dos fundamentos, como as ações do setor de tecnologia, que subiram muito e estão com valuation mais alto. Mas esse processo de normalização vai impactar mais as empresas  americanas que as de mercados emergentes.

O mais importante é que temos um cenário totalmente diferentes de 2013, porque a taxa de juros deve permanecer baixa em termos reais [descontada a inflação] e a política de taxa de juros real negativa é necessária para reduzir o tamanho da dívida dos EUA e isso é positivo para mercados emergentes.

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