O BNP Paribas revisou a projeção para inflação de 6% para 7% para o fim de 2022 diante do aumento dos preços dos combustíveis e dos alimentos devido ao conflito entre Rússia e Ucrânia. Para 2023, o banco manteve a projeção de uma alta de 4% , acima do centro da meta do Banco Central (BC), que é de 3,25%.
A instituição financeira também alterou a projeção para taxa Selic, que deve atingir 13,25% em 2022, ante 12,25% da projeção anterior, e 10,5% em 2023, ante 9,5% previsto anteriormente.
“O conflito deve reduzir a produção global de trigo e exportações de fertilizantes e elevar os preços do petróleo, afetando os preços dos grãos e os custos para o setor de proteínas”, segundo relatório do banco.
De acordo com o BNP, o conflito está se somando a outras fontes de pressão inflacionária que já estavam em curso, comoas condições climáticas desfavoráveis, os reajustes dos preços dos serviços para compensar a pandemia e as interrupções da cadeia de suprimentos.
Na avaliação dos economistas do banco, o aumento dos preços das commodities mais do que supera os efeitos deflacionários dos cortes de impostos recentemente anunciados no Brasil e do custo menor na conta de luz, que devem subtrair cerca de 1,3 ponto percentual da inflação cheia.
Essa pressão inflacionária vinda das commodities terá impactos diferentes:
- petróleo: o impacto mais rápido nos preços ao consumidor provavelmente será através dos preços dos combustíveis. Os reajustes de gasolina e diesel são baseados em preços internacionais. Como esses combustíveis representam cerca de 6% da inflação brasileira, o impacto para o IPCA pode ser significativo, de cerca de 1,50 ponto, caso os preços se mantenham nesse patamar mais alto.
- comércio internacional: a Rússia está restringindo as exportações de fertilizantes e os preços estão subindo acentuadamente. O conflito também pode afetar os portos, traduzindo-se em frete mais alto. Se isso continuar ou se intensificar, o banco espera que as safras serão afetadas em 2022 e 2023, trazendo uma duração maior da pressão inflacionária sobre preços de alimentos.
- preços de grãos: o clima mais seco no Sul do Brasil tem levado a um corte nas previsões para a colheita de soja, o que deve levar a aumentos de preços. Já no Hemisfério Norte as colheitas estão previstas para começar em dois meses. Se o conflito continuar até lá, a produção e os preços de trigo e milho podem ser afetados. O plantio da safra do Brasil começará no segundo semestre e não parece haver muito espaço para um aumento na produção, mas sim um risco de postergação do plantio de milho e soja por falta de adubo. Se isso acontecer, há o risco de impacto na cadeia proteica, pois os grãos são a base da alimentação animal. O peso dos alimentos e
bebidas no IPCA é de 20,7%. - proteínas: os produtores de gado, aves e suínos provavelmente enfrentarão aumentos acentuados nos custos e esses devem ser repassado aos consumidores. Assim como em 2019 e 2020, parte desse repasse poderia se concentrar nos últimos meses do ano. Os preços das proteínas representam de 3% do IPCA.
Dado esse cenário, o banco espera que o Banco Central deve elevar a taxa Selic em um ponto percentual na reunião da semana que vem, e mais 0,50 ponto em junho, encerrando o ciclo de aperto de juros em 13,25%. “Achamos que o BC só deve começar a cortar a Selic no segundo trimestre de 2023, encerrando 2023 em 10,5%”, diz o banco em relatório.
O governo vem discutindo como reduzir o impacto do aumento dos preços do petróleo na inflação. Entre as alternativas estão a criação de um fundo de estabilização de preços, redução de impostos sobre combustíveis, transferência de ajuda financeira para caminhoneiros, etc. “Mesmo que o impacto nos preços seja diminuído, impondo custos fiscais, ele não pode ser completamente evitado”, aponta o banco em relatório.