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Brasil tem commodities – e é isso que o investidor quer -, diz Barone, da Galapagos WM

Brasil tem commodities – e é isso que o investidor quer -, diz Barone, da Galapagos WM

Cenário incerto dificulta projeções de longo prazo, segundo o gestor da Galápagos WM, que administra mais de R$ 2,5 bilhões

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Foto: Shutterstock

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Mesmo antes de o primeiro soldado russo pisar em território ucraniano, a expectativa em torno do conflito no Leste Europeu já vinha mexendo com os mercados ao redor do mundo – e por aqui não foi diferente.

Em um primeiro momento, diz Luís Barone, sócio e gestor da Galapagos WM, o efeito foi a entrada de fluxo estrangeiro no mercado brasileiro. “O investidor está com um receio anterior à guerra, de inflação generalizada ao redor do mundo. Então ele veio para o Brasil comprar commodities e se proteger da inflação”, explica.

O movimento, na análise do gestor, foi potencializado pela invasão da Ucrânia, com a disparada dos preços das commodities, o que favorece a Bolsa brasileira, composta majoritariamente por ações de empresas do setor.

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Além dos papéis de companhias ligadas a commodities, Barone aponta o ouro, ativo de proteção por excelência, e títulos públicos atrelados à inflação como investimentos interessantes para navegar esse cenário no curto prazo – no longo prazo, tudo depende dos desenrolar da guerra e de suas consequências, diz o gestor.

Confira a entrevista completa a seguir.

Quais devem ser os impactos do conflito para o investidor brasileiro?

Os reflexos começaram com a expectativa, primeiro, da invasão pela Rússia, e depois com a invasão propriamente dita. No início houve um fluxo muito grande de dólares para o Brasil, causando a queda do dólar no mês de janeiro, porque o investidor estrangeiro está com um receio, anterior à guerra, de uma inflação generalizada ao redor do mundo. Este investidor veio para o Brasil comprar o que chamamos de commodities, trazendo um recurso que para ele é pequeno, do ponto de vista do portfólio dele, mas é uma proteção contra a alta de preços.

Depois havia uma expectativa que a Rússia invadisse a Ucrânia, que acabou se confirmando, e isso potencializou esse movimento. O que estamos observando após a invasão da Rússia na Ucrânia? O preço do petróleo, principalmente, subiu, porque a Rússia é um dois maiores produtores de petróleo do mundo, então deve haver um problema de fornecimento. A Ucrânia é uma fornecedora de gás, principalmente para a Europa, então o gás também subiu. Além disso, estamos tendo altas em outras commodities, como minério de ferro e algumas commodities agrícolas.

Nesse cenário, como o investidor deve se posicionar?

O grande ativo do momento é o ativo commodity. E como se compra commodity, principalmente no Brasil? Por meio de empresas ligadas a commodities. A Vale (VALE3) é uma produtora de commodity que ontem subiu 8%. A Petrobras (PETR4) é uma empresa cujo resultado cresce com a alta do petróleo, então é outra empresa de proteção. E no Brasil há outras empresas ligadas ao setor de commodities que devem performar bem nesse momento de grande preocupação.

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Um outro ativo clássico em que as pessoas buscam proteção é o ouro, que também valorizou com a entrada da Rússia na Ucrânia. Embora eu ache que o ouro não é um grande investimento. O investimento, para ser rentável, deve pagar alguma rentabilidade, seja aluguel, dividendos, juros… E o ouro não é um tipo de investimento que paga renda para o investidor. Mas, em momentos como esse, ele é o que chamamos de ativo de proteção.

É importante dizer que essa conjuntura tende a não se perpetuar. Não acho que a guerra da Ucrânia vai estar no cenário no próximo ano, por exemplo. É uma coisa muito mais de curto prazo. Então é muito delicado fazer qualquer recomendação, porque seria uma recomendação de curtíssimo prazo. É uma proteção.

Tem um outro ponto, esse sim como um investimento de prazo um pouco mais longo. Estávamos vivendo uma pressão inflacionária no país. Aí o governo subiu os juros. Mas, agora, vivemos uma outra pressão inflacionária, que é o fato de ter guerra e de o petróleo estar subindo… Devemos ter mais um surto inflacionário pela frente. E aí, uma recomendação de investimento um pouco mais sustentada seriam títulos públicos atrelados à inflação, mas aqueles de prazo mais curto. Qualquer título que pague juros de prazo mais longo pode sofrer com um efeito de aversão ao risco, ao passo que no título curto esse efeito é muito menor.

Acho que, de um modo geral, é isso que está acontecendo agora. Se eu tivesse que recomendar algum investimento como proteção nesse momento de guerra eu recomendaria esses ativos.

Entre as ações de empresas ligadas a commodities, alguma deve se beneficiar mais do que as outras?

O mercado vai muito atrás de liquidez. A Vale, por exemplo, é uma empresa que está subindo até mais do que a Petrobras, muito por conta da alta do minério, mas também por conta da liquidez que a ação tem. Há outras empresas de commodity no Brasil com liquidez um pouco menor, e que acabam valorizando um pouco menos. Empresas ligadas ao mercado agro também são empresas que se valorizam. A SLC Agrícola (SLCE3), por exemplo, também subiu bastante ontem.

Você não enxerga um cenário de aversão ao risco prejudicando as ações como um todo neste curtíssimo prazo?

Eu acho que existe sim uma aversão ao risco, de um modo geral, com a guerra. O Brasil é um país muito peculiar nessa aversão ao risco, no sentido de que nós temos o que o investidor procura, que são as commodities. A Bolsa brasileira não está despencando muito por conta disso.

E do que o investidor deve fugir neste momento?

Eu acho que o que vai acontecer é que o juro no Brasil está muito alto e não parece que a economia irá andar muito. Teremos menos empregos sendo gerados do que imaginávamos. Então acho que ações ligadas ao varejo ou à economia doméstica devem sofrer. As empresas ligadas a commodities estão muito mais ligadas ao mercado externo do que interno. Então as ações ligadas ao mercado interno, de um modo geral, principalmente as de varejo, tendem a performar pior.

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