Em linha com o desempenho das Bolsas do exterior, o Ibovespa teve forte baixa no pregão desta segunda-feira (7), impactado pela escalada da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Nem mesmo a disparada das commodities foi capaz de conter o banho de sangue na Bolsa brasileira, com quase todas as ações terminando o dia no vermelho. A Petrobras desabou em meio a críticas de Bolsonaro a sua política de preços.
Assim, o Ibovespa fechou em baixa de 2,52%, aos 111.593 pontos, com R$ 30,56 bilhões em volume negociado. O saldo do mês passou a ser de queda de 1,37%, enquanto a performance do índice desde o início do ano ainda é de alta de 6,46%.
Em Nova York, o Nasdaq teve um tombo de 3,62%, o S&P 500 caiu 2,93% e o Dow Jones acumulou perdas de 2,37%. Na Europa, o índice Euro Stoxx 50 fechou em baixa de 1,23%.
Possíveis sanções ao petróleo russo balançam o mercado
A tensão da guerra entre a Rússia e a Ucrânia vem aumentando nos últimos dias, depois do ataque à usina nuclear de Zaporizhzhia e da intensificação do cerco à capital Kiev.
A novidade do dia é o início de conversas entre Estados Unidos e aliados sobre sanções ao petróleo russo, o que cria riscos de uma estagflação global – alta inflação combinada com desaceleração na atividade econômica.
Diante destas negociações, o petróleo tipo Brent saltou e chegou a bater US$ 139 por barril no domingo, maior nível desde 2008, antes de devolver parte da alta e fechar com avanço de 4,32%, a US$ 123,21, devido à falta de novos anúncios a respeito do tema.
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Os preços do petróleo estão subindo há semanas como reflexo da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Os russos são grandes produtores e exportadores de petróleo, e desde que invadiram o país vizinho têm sofrido pesadas sanções econômicas da Europa, dos Estados Unidos e do Reino Unido.
As sanções adotadas até agora, na prática, impõem bloqueios significativos às transações financeiras da Rússia com o exterior. Elas não impedem a indústria petrolífera do país de vender a commodity, mas atrapalham consideravelmente as exportações – o que, na prática, significa que haverá gradativamente menos petróleo circulando no mercado mundial, aumentando o preço da commodity e, como consequência, a inflação.
Petrobras sofre mais um baque
Por aqui, a especulação no mercado é que a nova disparada da commodity possa fortalecer os planos do governo de lançar um programa de subsídio aos combustíveis. A ideia do projeto é ter um valor fixo de referência para a cotação dos combustíveis e subsidiar a diferença entre esse valor e a cotação internacional do petróleo. Os gastos seriam financiados por dividendos pagos pela Petrobras (PETR4).
O presidente Jair Bolsonaro afirmou que iria discutir o salto dos preços do petróleo em reunião com os ministérios da Economia e de Minas e Energia e com a Petrobras nesta tarde, em entrevista à Rádio Folha de Roraima.
Segundo fontes ouvidas pelo jornal O Globo, a petroleira pretende subir os preços dos combustíveis nesta semana. O último reajuste nas bombas foi feito no meio de janeiro. Na ocasião, o valor do barril negociado no mundo era de US$ 82,64 – ou 32% menor que o atual.
Os debates em torno da política de preços derrubaram as ações da estatal, que fecharam em baixa de 7,1%.
De acordo com a agência de notícias Reuters, a equipe do Ministério de Economia é totalmente contra este plano. De acordo com a fonte consultada pelo veículo, a área econômica considera muito melhor o projeto de lei que tramita no Congresso para alterar o cálculo do ICMS. Segundo o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, duas propostas que visam frear a alta dos preços serão votadas na quarta-feira (9).
Destaques do pregão
As ações de companhias aéreas e empresas de turismo lideraram as perdas do Ibovespa: Azul (AZUL4) teve a maior queda do índice, de 18%, seguida de Gol (GOLL4), que perdeu 17,36%, e CVC (CVCB3), com recuo de 10,49%. A queda da Gol veio mesmo depois de a companhia reportar que sua demanda total cresceu 35% em fevereiro em relação ao mesmo mês de 2021, enquanto a oferta subiu 35,8%.
As empresas aéreas acabam sofrendo pelo conflito na Ucrânia por diversos motivos. Em primeiro lugar, porque parte dos voos para a Europa está sendo cancelada. Em segundo lugar, porque a cotação do petróleo está subindo e isso eleva o preço dos combustíveis das aeronaves. Por último, há uma expectativa de aumento do dólar, o que também é uma preocupação, uma vez que 60% dos custos das companhias aéreas brasileiras são atrelados à moeda americana (incluindo combustível, arrendamento de aeronaves, seguro e certos custos de manutenção).
Na ponta positiva, a Vale (VALE3) subiu 3,04% com a alta no preço do minério de ferro, ficando atrás apenas de Bradespar (BRAP4), que subiu 3,6%, entre os maiores avanços do Ibovespa. Na bolsa de Dalian, na China, a tonelada da commodity ficou 7,1% mais cara hoje em relação ao pregão anterior..
A Rumo (RAIL3) teve a terceira maior alta do índice, de 1,97%, reflexo do aumento nos preços dos grãos.
Temores de inflação
Em meio à expectativa de mais inflação por causa das sanções econômicas do Ocidente à Rússia, os analistas ouvidos semanalmente no Boletim Focus revisaram para cima a expectativa para a Selic (taxa básica) no final de 2023. Agora, eles esperam juros de 8,25% ao ano para dezembro do ano que vem, ante expectativa anterior de 8%.
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As apostas para o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) deste ano voltaram a ser revisadas para cima, com os analistas apostando em alta de 5,65% (a projeção anterior era de 5,60%).
Além das aéreas, empresas expostas ao cenário interno concentram as quedas, com destaque para Americanas (AMER3), que caiu 10,24%, e Alpargatas (ALPA4), com recuo de 9,88%.
“As empresas de economia doméstica são mais uma vez penalizadas pela constante perda de poder de compra dos consumidores, penalizados pela combinação de inflação e juros em alta”, afirma Alexsandro Nishimura, economista, head de conteúdo e sócio da assessoria de investimentos BRA.